O DIA DAS MÃES DAS PUTAS

Dia das mães, ano passado, foi a última vez que aceitei que a minha mãe me pedisse, em “respeito” à mãe dela, minha avó, pra eu usar roupas masculinas. Me senti morrendo por dentro, jurei que não teria outra vez, quase não consegui sair do quarto. Um ano já completo e ninguém da família reagiu mal à minha transição, quase como se já soubessem, ninguém a não ser minha mãe, de quem essa semana tive que escutar que na casa dela não pisa puta, exceção feita a mim, ou seja, exceção feita à puta que faz pq quer (pensando que um dia pode não ser mais bem assim) e não à puta que faz por não ter escolha.

Eu aqui, altos delírios dq seria possível voltar a morar com ela, família é família, amor, essas coisas, mas até hoje nem meu nome, aquele pelo qual me reconheço, com o qual me identifico, ela é capaz de dizer, corroborando assim com a política transfóbica que nos exclui do mercado de trabalho, das escolas, do convívio familiar, política essa que limita a nossa expectativa de vida aos 35 anos, essa mesma mãe vindo agora ainda me privar de levar minha melhor amiga (travesti e, logo, puta) na casa dela, casa que por algum sonho absurdo eu achei que tb pudesse chamar de minha. Se não pode puta, sabemos muito bem quem não pode, “essa gente” que, em 90% dos casos, tem um pé ou, melhor, o corpo inteiro na prostituição, travestis.

O curioso é que chamam de vida fácil, mas oq menos falta é puta que, por conta do trabalho sexual, hoje tem nojo de sexo, puta que com a pessoa amada evita fazer sexo (ou faz só por medo de ser abandonada), pra não ter que reviver ali, naqueles braços em que encontra aconchego, essa merdança toda que se vive nas ruas. Diazinho sofrido esse pra nós travestis, pra nós putas, o dia de nossas mães, dia das mães de putas e travestis. Amara ainda não teve mãe que lhe chamasse de filha, muito menos de Amara: quem sabe no próximo dia das mães eu não possa passar com a minha, a minha mesmo, não a do falecido que não existe mais.

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