JANAINA LIMA, PROSTITUIÇÃO E PL GABRIELA LEITE

A prostituição, ela é um assunto
polêmico até mesmo dentro do feminismo, não existe um consenso sobre a
prostituição. Tem feminismo que diz que empodera a prostituta, mas por outro
lado tem feministas que alegam que a prostituição é opressora pra mulher e que
a regulamentação da prostituição seria a regulamentação da exploração e são diferentes
pontos de vista. Eu gostaria de saber de você, Janaina, o
que você pensa da prostituição e da regulamentação da prostituição.

Bom, o que que eu acho da
prostituição. Tem uma confusão grande que as pessoas fazem às vezes. A
prostituição em si é um mundo, um ato, aquela situação, né?, só que ali dentro
você tem pessoas que são profissionais do sexo, pessoas que são exploradas, pessoas
que são exploradores. Essa divisão talvez, ela não é tão demarcada ou não é tão
levantada, parece que quando a gente fala prostituição a gente junta tipo assim
“é só as mulheres que estão se prostituindo e acabou”. E não é isso,
a gente precisa aprofundar um pouco mais a discussão. Em relação à
regulamentação, o que mais me aproxima vai ser o projeto de lei do Jean Wyllys,
que é pra regulamentar a profissão do sexo. O muito doido é que quando eu leio
aquilo ali, eu enquanto profissional do sexo, eu não consigo ver benefícios pra
mim, a não ser para uma outra parcela da população, que tá dentro da exploração
e que se encaixaria nessa divisão, na minha concepção (e é muito bom frisar,
porque o que eu estou dizendo aqui é o que eu acredito, é o que eu vivo e
vivencio, e aí pode ser que eu esteja errada, mas pra estar errada me apresenta
uma justificativa bacana, porque não vem falar que é pecado, que depois eu me
acerto lá no Juízo Final). Minha posição é essa, porque o projeto em si parece
que ele só ajuda, contempla, vai beneficiar de fato os exploradores, ou quem
vive da situação de pessoas que estão ou prostituídas ou das profissionais do
sexo. Eu não vejo nenhum projeto de fato, mesmo porque no Brasil, acho que é
legal frisar por exemplo, não há nada que proíba que eu faça programa – o que
eu preciso é ter consciência de que é um trabalho autônomo, então eu posso de
repente criar um CNPJ, abrir uma firma e pagar impostos daquilo, ou eu posso
contribuir com a previdência como uma ocupação. Então isso já existe, eu não
entendo esse projeto de regulamentação que, pras profissionais de fato, elas
não levam vantagem nenhuma, ao contrário. O que eu percebo dentro da
regulamentação que é discutida (e aí é a minha visão novamente) é: vamos dar
legitimidade, vamos trocar o nome de cafetão pra patrão, vamos trocar o nome do
explorador para alguém bonzinho, digamos assim. Essa é minha visão e é o que eu
vejo, e é o que eu leio e interpreto quando eu vejo o projeto de lei escrito aí,
e quando eu vejo a discussão na boca das pessoas também. Eu não vejo de fato
nada que diz, olha, isso de fato vai melhorar, porque por exemplo eu, eu vivo,
eu faço programa, mas ao mesmo tempo que eu faço programa eu tenho que fazer um
monte de atividade paralela pra complementar renda, porque eu não posso viver
do programa. E por que que eu não posso viver? Porque eu não tenho segurança,
porque eu não tenho um serviço de saúde que contempla (o que ninguém tem, e aí
não é só as profissionais do sexo; é brasileiro, dançou, se depender do SUS já
era, e do particular também não é diferente – não se iluda, vai gastar dinheiro
e não vai adiantar). Então é isso, eu não vejo vantagem pra mim: não me dá
garantia na segurança, não me dá garantia em inclusão na educação, não me dá
garantia em basta nenhuma. A única coisa que me dá garantia é que eu vou ter
que dividir o que eu ganhar, em vez de dividir com o meu cafetão, se eu tiver
um, eu vou dividir com o meu patrão, e ainda vou dar uma parcela maior de
imposto, porque eu já pago imposto até da bala que eu chupo, eu vou pagar
imposto da minha profissão também. É a minha visão.

LARA PERTILLE

Jana, só deixa eu fazer um
adendo. Eu não vi muito sobre o projeto, mas não melhoraria pras pessoas que
trabalham em casa? Porque eu acho que, hoje, as profissionais do sexo que
trabalham em casa, isso é caracterizado crime porque o cara explora as meninas.
Com o projeto, não melhoraria? É uma pergunta mesmo, porque, claro, se você
trabalhar e não tiver um cafetão, o dinheiro é todo seu, problema seu, mas,
regulamentando com a lei, elas não poderiam trabalhar nessa casa, teria
segurança, carteira assinada? A ideia da lei não seria essa, um funcionário,
registrado?

JANAINA LIMA

E de quem seria essa casa? Então,
quem vai ganhar é o dono dessa casa, o patrão dessa casa, ou, se for uma casa
do governo, vai ser o governo que vai ganhar. A ideia que vende da lei, num
primeiro momento, é essa, mas num segundo momento é: “por que que eu vou
regularizar uma casa de prostituição?” Então eu não tou regulamentando a
profissão, eu tou regulamentando a casa, e então já não é profissão, porque a
profissão não tem nada que fala que não pode. Aí, se eu quiser, eu posso
contribuir, tal tal.

Mas aí você ganharia todos os
seus direitos, não ganharia? Direitos de um funcionário comum, férias, décimo
terceiro, essas coisas. Eu quero dizer assim, ó: você está trabalhando pruma
casa, claro, a maior parte ficaria com o cafetão. Em tese você por exemplo
poderia tirar férias, em tese se você fosse mandada embora você teria todos os
seus direitos resguardados, o que hoje não tem – se você parar de fazer, você
vai se virar. E nem sei se vai funcionar, mas não seria para isso?

JANAINA LIMA

Sim, em tese, mas e na prática.
Pensa hoje, digamos que um programa seja 50 reais: ele é meu, eu fiz o
programa, paguei. Se eu vou lá na casa, uso a casa, pago uma taxa, é outra
coisa, mas esses 50 é meu. O que eu vou pagar à parte, isso já existe em
qualquer lugar que rola profissional do sexo, que tem uma pessoa trabalhando,
isso que é legal lembrar, você tem uma rede de exploradores. E é doido que é
muito contraditório, por exemplo, você tá lá batalhando e vai chegar o vendedor
de brinco, que ele tá ali dependendo do dinheiro que você vai fuder com o cara
para pagar o brinco, a tiazinha da Igreja Universal que vende o lanchinho, ela
tá ali te secando pra que você ganhe um dinheiro e coma o lanche dela pra ela
levar o dinheiro, a outra tiazinha que lava a roupa porque você não tem tempo.
Quer dizer, até aí eu tou vendo só benefício pro outro. Aí você me diz que, de
todo esse dinheiro que tenho que dividir com todas essas coisas, eu ainda vou
ter que dividir a minha taxa com o meu patrão, que eu não tenho hoje. A opção
de trabalhar na casa já existe, a única diferença é que dentro do projeto de
lei eu tou regulamentando a casa: pra mim, Janaina, não tem diferença. E, aí,
pra isso, a casa ia fechar pra mim uma meta de programas, vou ter que fazer 100
programas no mês pra fechar a meta? Aí eu me fudi, gente. Eu não vejo saída
nesse projeto de lei. Por exemplo, digamos que o programa é 50 reais, se chegar
10 pessoas, o cara fechar o pacote lá, eu tenho que fazer, entende?, eu sou
funcionária dele. Hoje, por exemplo, eu posso falar “pô, não quero sair
com aquela pessoa, que não simpatizei com ela”; se eu sou funcionária, eu
tenho que fazer e calar a boca, percebe? Quer dizer, isso já acontece entre
aspas com o explorador; o que eu estou fazendo agora é dando “ó,
explorador, você não vai mais preso, porque agora você vai ter uma legislação,
que vai poder registrar aquela pessoa e, aí, ela vai ser de fato tua
autoridade, com a lei agora te garantindo. Pra mim, a visão é essa, posso estar
enganada. [JAQUELINE FURACÃO: A
aposentadoria, né, que travesti chega na idade de se aposentar?]. É, então. O
pessoal fala muito o  futuro, qual
futuro? A maioria das travestis que se assumiram comigo lá atrás, a maioria já,
beijo, infelizmente partiu. […] Quando a gente fala de prostituição, a gente
fala dum mundo e aí envolve quinhentas pessoas, milhões de pessoas. O que cabe
lembrar é que a maioria das pessoas que estão na prostituição, elas são
exploradas, e eu chegar lá com um projeto, falando, olha, isso aqui vai
melhorar a sua vida (e aí cabe a gente lembrar que a gente tá no Brasil, que a
nossa educação é deficiente no geral, desde o ensino infantil até a
universidade, e aí, me desculpa, eu já fiz universidade – sou formada em
psicologia e sei do que eu tou falando). A nossa educação, desculpa, gente, me
falaram pra ficar à vontade, mas eu não vou tirar a roupa mas eu vou dizer, tá
uma meeerda. De verdade. Aí você me dizer que eu vou chegar lá, pruma tiazinha
que tá sendo explorada há vinte anos, falar pra ela que ela vai se aposentar, é
lógico que ela vai ficar feliz, lógico que ela vai assinar o aval do projeto. Nós
estamos falando de pessoas que têm deficiência de ler, ler não é pegar o papel
e só ler o que tá escrito: eu tou falando de tradução, de interpretação, de
saber o que está dizendo ali nas entrelinhas, e isso não é dito. Na
prostituição, a grande maioria tá fudida, tá com cafetão, e aí tem uma proposta
dizendo “olha, seu cafetão vai embora e vai entrar um patrão, vai ser bom,
você vai se aposentar, tem férias”. Mentira. Isso não está sendo discutido
com as pessoas que, de fato, são profissionais do sexo, porque a profissional
do sexo é profissional, já sabe o que tem que fazer e faz, ela não tá ali
“ai, eu só faço isso porque eu não tenho outra coisa pra fazer, porque a
minha vida é uma merda”. E aí trazendo a questão de diferenciar mulheres de
travestis e transexuais: a maioria das travestis e transexuais que forem de
classe social baixa, vai tá enfiada na prostituição; se for de uma família
evangélica moralista, vai tá na prostituição, entendeu? A maioria vai pra lá e
não vai porque quer, daí você pinçar de fato quem é de fato profissional, que
tá se identificando e falando “não, eu sou profissional” – eu, por
exemplo, eu digo, eu sou profissional por quê? Porque eu faço tranquilamente,
eu sou o que fazer, se alguém quiser pagar a gente vai pro privado, quer fazer
no aberto a gente faz também, e eu sei o que eu faço e o que eu tenho que fazer
e eu vou dar conta e a pessoa vai, no tema aqui hoje, gozar e ficar feliz. É
bem esse papo. As outras pessoas, a grande maioria, tá ali porque não tem mesmo
outra opção, de fato, tá sendo explorada. Eu chego lá, vendendo uma ideia, é
lógico que a grande maioria vai assinar embaixo, porque ela quer se ver livre
daquele estereótipo, estão dizendo “ó, você vai ter uma profissão”.
Mentira, você vai ter um dono, um patrão, que vai estar agora com um documento
falando “ó, agora é meu”.

CAROL CONSTANTINO

A gente ouve, de algumas pessoas,
o discurso de que a prostituta, ela às vezes é vista como um objeto, porque o
gozo do cliente ali é o foco. Mas existem outras pessoas que não pensam assim e
aí a gente estava curiosas pra saber de você o que você pensa sobre isso: há
mesmo essa objetificação do corpo da prostituta? Ou não?

JANAINA LIMA

Acho que há uma objetificação de
todas as pessoas, na sociedade aonde a gente vive isso é unânime, 24hs, TV,
rádio, música, até numa performance que a gente faz a gente acaba fazendo isso
de alguma forma. Ficou muito claro aqui, nas próprias danças e na última pessoa
que entrou (inclusive eu ia me oferecer pra ajudar, mas daí eu lembrei que eu sou
profissional, ia cobrar, não falei nada pro evento, fica complicado). O que eu
vou tentar novamente é tentar diferenciar a pessoa que tá em situação de
prostituição da pessoa que é profissional do sexo. Isso é diferenciar. Porque a
pessoa que contrata uma profissional do sexo, ela tá contratando um serviço,
uma mão-de-obra como qualquer outra. E aí me desculpa, os mais moralistas, os
mais de cabecinha fechada, porque eu não consigo ver diferença de fazer um
programa com uma pessoa e construir um projeto pra uma pessoa e dar aula pra
uma pessoa e lavar o banheiro duma pessoa. O que vai ter aí é o que eu gostaria
de fazer, o que eu gosto de fazer, o que eu faço por necessidade e o que eu não
faria de jeito nenhum. É tentar diferenciar isso. Porque tem gente que jamais
trabalharia de eletricista pendurado num fio, mexendo com a voltagem, porque
sabe o risco que corre. Tem gente que não consegue transar com outra pessoa nem
afetivamente, quem dirá cobrando um dinheiro. E tem gente que deve achar
horrível, uma exploração imensa, uma diarista ganhar uma mixaria ou a empregada
doméstica ganhar uma mixaria e ter que lavar a merda do outro no vaso, porque
isso acontece. Então pra mim, se for pra pensar nessa classificação, eu por
exemplo eu não consigo ver isso. Eu consigo ver essa objetificação , essa
pessoa-objeto, em todos os lugares, o tempo todo – na nossa olhada a gente
pensa “puta, adoraria ficar com aquela pessoa, mas se eu ficar com ela na
balada os outros vão falá, então vou ficar com a outra que tá mais dentro do
padrãozinho bonitinho”. Isso diferencia, e diferencia também pro cliente,
porque o cliente vai procurar… o que que ele tá procurando? Ele quer uma
figura só em si ou ele quer saciar o desejo, ele quer gozar, ou ele quer fazer
alguém gozar e ter aquela sensação? Isso tem que ser diferenciado. Isso talvez
tenha que ser melhor pensado e discutido.

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