AMARA MOIRA ENTREVISTA BÁRBARA AIRES, PROSTITUTA, EX-PRODUTORA GLOBAL

AMARA MOIRA: Olá! Meu nome é
Amara Moira, moderadora da página “E Se Eu Fosse Puta – Amara da
Depressão”, e estou aqui hoje com uma ativista fabulosa que veio falar pra
gente um pouco sobre esse mundo da prostituição, esse mundo da transexualidade.
O nome dela é Bárbara Aires, mulher transexual, ativista e ex-produtora do
“Amor e Sexo” da Rede Globo, ou seja, uma transexual que conseguiu
inserção no mercado de trabalho, e a gente vai falar sobre isso. A gente podia
começar falando sobre isso, a escolha, o poder escolher a própria profissão, a
relação disso com a prostituição… como você vê essa questão?

BÁRBARA AIRES: Olha, para as
pessoas trans no geral, eu acho maravilhoso e é uma realidade que a gente não
conhece. São pouquíssimas, digo até raras, as pessoas que puderam escolher a
profissão que elas queriam. Na maioria das vezes, principalmente quando você
fala de transexualidade feminina, elas estão automaticamente estigmatizadas com
a prostituição. E aí a prostituição, que é uma profissão digna e tem todas as
suas questões, fica uma coisa de imposição, não é uma escolha, não fica uma
profissão de “ah, eu vou trabalhar com sexo porque eu quero”. Então,
é algo a se pensar, as pessoas trans em geral não escolhem a profissão pela
profissão.

AMARA MOIRA: E, aí, fico
pensando, você tem uma trajetória em que você trabalhou com prostituição, aí de
repente você é contratada pela Rede Globo, onde você fica dois anos como
produtora do “Amor e Sexo” da Fernanda Lima, e aí você de repente sai
do programa no final do ano passado e volta agora pra prostituição. Como é esse
retorno?

BÁRBARA AIRES: Péssimo. Costumo
dizer “antes eu não tivesse sido contratada”, porque eu tinha toda
uma expectativa, eu tinha toda uma programação de futuro na minha cabeça.
Porque, como qualquer outra pessoa profissional, a pessoa trans também
vislumbra uma carreira, eu também quero ter um emprego, que eu comece de baixo,
vá crescendo, vá crescendo, vá crescendo e vire uma puta duma profissional, né?
E eu esperava isso lá, eu contando com isso… porque eu já tinha passado da
fase de experiência, já tava mostrando serviço, mostrando trabalho – eu acho
que, se eu fiquei contratada dois anos, não é porque eu era uma má
profissional. E aí, para mim que não gosto da prostituição, de ter que ir para
a rua etc., para mim foi muito complicado. Demorei pra assimilar essa coisa de
“não trabalho mais”, passei por alguns momentos bem complicados,
tipo, uma semana pra pagar o aluguel e não tem um real, e aí você tem que ir,
você tem pouco tempo pra fazer esse dinheiro. E as pessoas não param pra pensar
que as pessoas trans – no caso, não posso falar as pessoas, porque no caso dos
homens trans a prostituição não é uma realidade, pelo menos não a maioria…
enfim –, mas pras travestis e transexuais, as pessoas não param pra pensar que
ela está ali porque precisa de dinheiro, porque a prostituição é isso, dinheiro
rápido.

AMARA MOIRA: Bom, você falou que
não gosta de se prostituir, mas acaba sendo compelida, obrigada, eu fico
pensando, então, como é, como foi, como tem sido a sua relação com clientes? A
dificuldade, o que você não gosta na profissão, está ligada ao quê, por
exemplo?

BÁRBARA AIRES: Olha, é até
complicado assim, nem poderia tá falando sobre isso, que, como eu vivo de
prostituição, é meio que tipo dizendo “não saiam comigo”. É
complicado porque, enquanto mulher transexual, eu estou dentro da caixinha, fui
criada para isso: certo ou errado, não sei, mas essa é a minha realidade, esta
é a Bárbara, tou falando por mim. EU não gosto de ser tocada no pênis, não
gosto de sexo oral e eu não gosto quando o homem olha pra mim e aí ele faz e aí
ele olha assim um pouco não sei o quê, aí ele olha pro pênis e “ai, nossa,
você é linda”. Mas ele não tá olhando pra minha cara, tá olhando pro
pênis… ele não se preocupou em pegar no meu peito, ele não olhou minha bunda,
ele não reparou no meu cabelo, aí a primeira coisa que ele vê, que ele foi, é o
pênis, aí ele tá lá no meu pênis não sei o quê, aí do nada ele olha pra mim e
“ai, você é muito gostosa”. Não, não sou eu, e isso me incomoda
muito. Mas eu sou profissional, eu preciso trabalhar, preciso pagar minhas
contas como qualquer outra pessoa, então eu lido com isso da melhor maneira
possível, né? Eu tenho os meus limites enquanto profissional do sexo, mas vou,
tenho essa questão de ser uma boa profissional. Trabalho com sexo? Trabalho com
sexo. Então vamos lá. Porque eu acho importante que, em qualquer área que você
esteja, você tenha responsabilidades, você seja profissional, isso eu acho
super importante. [AMARA MOIRA: Pouca gente trabalha realmente com o que gosta,
né?]. Nem todo gari gosta de ser gari. Quem trabalha com o que gosta é porque
escolheu, foi lá, fez uma faculdade, tem uma profissão e trabalha naquela
profissão que ela fez a faculdade. Agora, o balconista do bar gosta de ser
balconista? O chapeiro da padaria gosta de ser chapeiro? Então, é uma coisa que
eu acho que a gente tem que parar pra pensar. Eu acho até que a questão da
prostituição e da empregabilidade das pessoas trans traz à tona uma realidade
brasileira muito além disso, a questão de “a maioria das pessoas não
trabalham com o que gostam”, independentemente de ser trans, de ser cis,
homem ou mulher.

AMARA MOIRA: Bom, você falou um
pouco sobre a questão da empregabilidade, mas a empregabilidade não é o único
problema que travestis e transexuais enfrentam. Fico pensando, p.ex., na
questão de aluguel duma casa, relação com moradia: como é isso para você?

BÁRBARA AIRES: Acho que não só
pra mim como pra grande maioria, a realidade das travestis e das mulheres trans
já foi mais do que super explorada quanto a isso, porque você põe no YouTube,
procura nos canais de TV, o que vc mais vê são as travestis e mulheres
transexuais morando amontoadas na casa de uma travesti ou transexual mais
velha, que já conseguiu dinheiro, comprou e aí aluga vagas, oq a gente chama de
casas de cafetina, pensionato, enfim. Quando não é assim, você mora numa casa
que é alugada por temporada, com um aluguel super inflacionado, porque você vai
na imobiliária – você pode estar o mais bem vestida que for, você pode ter o
extrato bancário que for, você é muito bem tratada até a hora que vêem o seu
RG: na hora que você apresenta um documento em que seu nome é masculino e você está
ali com uma imagem feminina, cabou, já tem outra ficha na sua frente, a gente
volta a entrar em contato caso seja aprovado… Porque tem todo um estigma
atrás da pessoa trans, ai, ih, é travesti, vai fazer bagunça, vai dar festa
todo dia, vai beber, vai se drogar, vai fazer prostituição, vai fazer programa
aqui dentro, não, não quero. As pessoas não param pra pensar que tem travestis
e transexuais que são cabeleireiras, maquiadoras, vendedoras, advogadas,
médicas, e que precisam de um lugar pra morar, que não se drogam e que não
bebem, enfim, e que vão pagar o aluguel, como qualquer outra pessoa. Essas
questões todas eu acho que nem deveriam ser questionadas, porque a partir do
momento que você está pagando o aluguel a casa é sua: só não tem que destruir a
casa, e se destruir que você devolva no estado em que você pegou. As outras
questões são de foro íntimo.

AMARA MOIRA: Bom, eu sei também
que você já trabalhou em vários lugares, estamos aqui em São Paulo agora,
gostaria de saber se você poderia fazer um panorama de como é trabalhar aqui no
centro de São Paulo, principalmente na rua, e trabalhar lá na Lapa, na Barra da
Tijuca no Rio, dois lugares onde você trabalhou.

BÁRBARA AIRES: A maior diferença
entre São Paulo e Rio é valor, quando você fala de centro de São Paulo versus
Barra da Tijuca. Centro de São Paulo a gente sabe que é um bairro em decadência
e Barra da Tijuca é uma área nobre lá do Rio de Janeiro, então a diferença é
muito grande – em termos falados, é o dobro, em termos reais, lá ganha mais do
que aqui. E tem também a questão da degradação, a questão de estar no centro de
São Paulo, drogas, bebida, marginalidade, tudo isso. Lá na Barra da Tijuca é
mais elitizado, em todas as questões que você parar pra analisar, tanto
financeira quanto de clientes. Agora centro de São Paulo versus Lapa eu acho
muito parecido, tanto de valores, quanto de clientes, quanto de
marginalidade… são realidades bem parecidas. [AMARA MOIRA: E a relação com a
polícia, estando na rua, p.ex.?]. Olha, quando eu comecei há dez anos atrás, eu
ainda peguei um pouco de ter que correr da polícia, da polícia bater na gente
com cassetete, não querer deixar ficar ali. Hoje em dia a gente vive uma outra
realidade, a polícia passa e dá boa noite, pelo menos no Rio de Janeiro: passa,
dá boa noite, cumprimenta, vê se tá tudo bem, a gente vive uma realidade muito
grande de respeito a nome social, identidade de gênero, uma outra realidade
enquanto tratamento. Mas em contrapartida a gente também tem as questões de
abuso de poder quando é uma menina trans que tá sendo presa porque cometeu um
ato infracional, a gente tem a questão da corrupção, de suborno. Melhorou, mas
é óbvio que não é ainda 100%, e óbvio que assim como tem o policial que é
racista e acaba agredindo um negro porque ele é suspeito, tem o policial que é
transfóbico e agride uma transexual porque ele acha que ela é marginal – isso
ainda existe, mas não é como era antigamente.

AMARA MOIRA: E você já trabalhou
também por sites. Qual a vantagem e desvantagem de trabalhar por sites?

BÁRBARA AIRES: Olha, a única
desvantagem que eu vejo em site é, dependendo da pessoa, a questão da
exposição, de resto só vejo vantagem. O programa é mais caro, tem que ter o
privê pra receber (porque você ganha muito mais – se você só atende em motéis e
hotéis ou local do cliente, você vai ter menos clientes). Mas assim, o valor é
muito maior e o cliente já tá vendo ali o “produto” (abro aspas
porque tem muita gente que não gosta, mas eu lido muito bem com essa questão de
ser um produto, em oferta, e estar prestando um serviço, isso pra mim não é um
problema). Ele já tá vendo e escolhe, te liga, combina, eu acho muito mais
tranquilo. O meu problema inclusive, até acho importante deixar isso claro,
porque as pessoas confundem um pouco, saíram até umas matérias falando
“transexual vira produtora da Globo e deixa as ruas”, e muita gente
traduziu o “deixa as ruas” como “deixa a prostituição”: em
momento nenhum da minha empregabilidade, eu falei que deixei a prostituição. Obviamente
eu não saí explanando porque estava representando uma empresa, então você não
tem que sair por aí falando assim “olha, eu estou me prostituindo, por
favor me liguem, me procurem”. Não. Mas óbvio que eu tinha clientes que
tinham meu telefone e que me ligavam e eu atendia, até porque eu entrei na
Globo ganhando um salário de mil reais e todo mundo que mora no Rio de Janeiro
sabe a realidade do Rio de Janeiro e com mil reais você não sobrevive. Naquela
época você ainda sobrevivia em alguns lugares, hoje em dia com mil reais você não
sobrevive nem na comunidade. Então, assim, deixar bem claro que eu nunca
larguei a prostituição, esse momento ainda não chegou, quando chegar eu vou
deixar claro: larguei a prostituição. O que a Globo me possibilitou foi a saída
das ruas, eu não gosto de ir para a rua, me incomoda muito essa coisa de ter
que ir para a rua, de estar ali em pé, exposta, sendo escolhida, e ver outras
trabalhando e você fica lá, essa coisa da competição que a rua cria
internamente, acho isso muito complicado. [AMARA MOIRA: E a negociação com o
cliente, na rua e no telefone, p.ex.?]. É igual. Porque os
interesses deles são os mesmos, valor, o que você faz e quanto tempo você fica.
Então isso não muda muito, não. Depende aí das suas limitações pessoais, do que
você faz, do que não faz.

AMARA MOIRA: Eu sei também que
você teve uma carreira, não sei se ainda tem na verdade, com filmes, você fez
vários filmes. Você prefere fazer filmes a trabalhar como prostituta? Você vê
isso como prostituição, o que é pra você fazer filmes?

BÁRBARA AIRES: Não, o fazer
filmes é para mim um mercado do sexo, obviamente, e é uma atriz, ponto. Porque
você não tá ali fazendo uma coisa que você faria se não tivesse levando, então
é um trabalho e é uma atriz, você está atuando. De repente aquele ator que tá
ali comigo eu nem transasse com ele se eu conhecesse ele, por livre e
espontânea vontade. Eu vejo como normal, tranquilo, não entendo o tabu que tem.
É um mercado que ganha muito dinheiro no Brasil (isso as pessoas não assumem), e
eu acho que isso tem que ser melhor trabalhado, acho que isso o Brasil tem que
copiar dos Estados Unidos, o Estados Unidos tem prêmio da indústria pornô. Não
vejo problema quanto a isso, seria sem problema nenhum atriz pornô, de
carreira, de ganhar bem, o problema do Brasil pra mim é o ganho: se ganha muito
pouco, as pessoas têm uma noção totalmente equivocada da realidade da indústria
pornô no Brasil. Existem pessoas fazendo filmes pornô por 150 reais, como
assim? E você não tem mais, depois, controle sobre vendas, sobre quem assiste,
como é veiculado – você ganha pela cena pronto e acabou, você não ganha mais
nada pelo filme. Então isso é muito complicado, a problemática pra mim é essa. Quanto
a fazer não vejo problema. E se eu pudesse escolher eu faria, no caso de não
ter uma outra opção, eu faria um filme pornô e faria também um atendimento em
casa, mas com as limitações que eu gostaria enquanto profissional do sexo, se
eu pudesse. Dentro dessa realidade isso seria como eu trabalharia, se isso
fosse possível.

AMARA MOIRA: Você acredita que
tem mais problemas com violência na prostituição ou como atriz?

BÁRBARA AIRES: Ah, na
prostituição, com certeza, prostituição. Porque na prostituição você tem um
cliente que tá bêbado e às vezes você não quer fazer uma coisa e ele não
entende, aí ele começa a gritar, quer te agredir. Você tem as pessoas que
passam e te desrespeitam, p.ex. recentemente, eu tava parada em pé na Barra da
Tijuca, um carro com três mulheres cisgênero (pra quem não conhece o termo são
mulheres que nasceram com vagina), pararam o carro do meu lado e começaram a
perguntar: “e aí, tem peru?, pô, tem peru?, a gente quer peru, tem peru
pra gente não?, pô, você não é travesti?, que você tá fazendo aqui?, seu
trabalho não é dar o peru?, então, aqui tem três mulher, a gente tá querendo
peru… porra, você vai deixar a gente no vácuo?, não vai falar com a gente
não?” Infelizmente eu estava sozinha na rua nessa hora, e aí vou fazer o
quê?, não podia nem responder – elas tavam em três, se elas descem e resolvem
brigar comigo, eu ainda saía perdendo, porque, por mais que fossem mulheres,
tavam em três. Sozinha você não briga com três pessoas. E foi pra mim muito
constrangedor, foi muito agressivo, e desnecessário. Eu tava em pé, esperando
um cliente parar: qual a necessidade que essas mulheres tinham de parar o carro
e ficar me agredindo psicologicamente com isso? Porque as pessoas não param pra
pensar que isso é uma agressão psicológica. Assim como os retardados que passam
e “tem jogo amanhã”, “e aí João?”, “ô pirocudo”,
“ô sei lá o quê”, sabe? E essas violências a gente sofre elas todos
os dias, que não é só a violência de tomar um tiro, de tomar uma facada, de
tomar pedrada, de ser agredida fisicamente, o que graças a deus eu nunca passei
gravemente – eu já tomei um tapa na cara de uma outra travesti no começo, tive
um cliente que não quis pagar e ficou correndo com o carro ameaçando bater, foram
leve perto do que eu já presenciei, p.ex. tiro do meu lado, garrafada do meu
lado, essas coisas eu já presenciei mas graças a deus nunca vivenciei.

AMARA MOIRA: A gente abordou
bastante coisa aqui, é incrível o jeito como você responde, a propriedade com
que você responde. [BÁRBARA AIRES: Eu tenho um problema, que eu preciso
trabalhar, meu ex-namorado fala que eu falo muito rebuscado. E às vezes eu fico
buscando essas palavras que eu sei delas, aí eu quero usar, e não quero usar o
sinônimo que é mais popular, e aí às vezes dá uns enroscos, desculpa aê
qualquer coisa.]. Fabuloso, então abro pra considerações finais, se quiser
falar alguma coisa a mais sobre você, sobre planos, do futuro, como é que você
tá trabalhando a questão do emprego agora, você tá buscando outras opções?

BÁRBARA AIRES: Eu mandei, enviei
centenas de currículos pra centenas de pessoas que eu conheço que trabalham com
RH, eu enviei pra empresas, eu enviei pra agências, eu fui em lojas de
Shopping… o que eu podia fazer de procurar, eu procurei, tou cadastrada na
Secretaria do Trabalho obviamente, por causa do seguro desemprego. Por enquanto
meus planos são: continuar me prostituindo até que apareça uma nova opção.
Óbvio que eu não tou sentada parada em casa olhando pro teto, existem alguns
projetos, que eu não estou explanando porqueee sinergia – deixa acontecer, as
pessoas vão ver, pronto. Mas por enquanto é isso, tamos aí na batalha, conheci
recentemente no Encontro Sudeste de Travestis e Transexuais a Márcia Rocha, do
Transempregos, e ela também tá vendo essa questão pra mim, pra me ajudar. A
única coisa que eu acho importante deixar claro é que as pessoas têm que
entender que transexualidade não tem nada a ver com capacidade profissional,
capacidade profissional e qualificação não estão atreladas a sexualidade, e as
pessoas têm que parar com essa mania de atrelar pinto homem, buceta mulher.

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