terça-feira, 24 de janeiro de 2017

QUAL NOSSO LUGAR NAS LUTAS?

Todas as profissões parece que teriam com o que contribuir na luta pela transformação social, todas exceto a prostituição. Curioso, não? Para boa parte dos movimentos, seja essa esquerda que não nos quer nas fileiras de trabalhadores, seja esse feminismo que não crê possível sermos feministas, a gente lutar por "melhores condições de trabalho" significa forçosamente lutar por "outro tipo de trabalho", tão firme é a crença de que o que fazemos é nocivo e que só estamos lá por falta de escolha. A pessoa advogada pode contribuir, a professora, a médica, a manicure, a empregada doméstica, a dona de casa, todas, todas, menos a prostituta. Nós só interessamos se trouxermos junto o discurso da vítima que precisa ser salva, o testemunho de quão absurda é essa vida. Trabalhar com sexo, segundo essa ótica, é irremediavelmente perigoso e isso talvez decorra de entenderem o sexo como um perigo em si, coisa pra ser feita só entre pessoas íntimas, com parcimônia e finalidade muito clara. Nunca pra ganhar dinheiro, nunca porque dá dinheiro, nunca por você ser boa no que faz. Eis um saber que não pode ser valorizado, a única profissão que não tem o direito de lutar por melhores condições de trabalho. De um lado a realidade das ruas, onde o sexo tem sim um preço e costuma ser baixo (daí um dos principais motes da nossa luta, a melhor remuneração), de outro, esses movimentos que insistem em querer que o sexo não tenha preço algum.