domingo, 14 de fevereiro de 2016

O ESTUPRO NOSSO DE CADA DIA

Vinte nove anos vivendo como homem, mais especificamente o homenzinho padrão, cis, branco, não-afeminado, lido como hétero, classe média, e foi só eu transicionar e passar a ser lida como travesti para viver minha primeira experiência de violência sexual. Eu, que me achava poderosona, em condições de peitar quem quer que fosse por conta da socialização que tive, não dei conta de evitar que o cliente me forçasse a seguir com o programa mesmo depois dele ter me machucado, eu sentindo as dores não só físicas, mas também as de não conseguir dizer não. Sinalizar o sofrimento não foi o bastante para evitar que ele continuasse e, na verdade, me pareceu até que ele se excitou mais em imaginar que, com seu pinto, conseguia machucar uma profissional do sexo.

A facilidade com que ele me machucou e seguia me machucando, sentindo prazer nesse movimento, me fez gelar, mas não só por pensar em mim, na situação que eu vivia ali, e sim por imaginar quão fácil era uma mulher se ver naquela mesma posição, ter que seguir com o sexo mesmo quando o sexo já tinha deixado de ser prazer pra se tornar violência. Pensa-se o estupro como coisa longínqua, o ataque dum estranho numa rua deserta, e com isso não se percebe o quanto ele acompanha o nosso dia a dia, o quanto ele se faz presente mesmo dentro de relacionamentos tido como amorosos.

O que é a primeira relação sexual para uma mulher a quem a experiência da sexualidade foi desde sempre negada, essa mulher que vai descobrir na hora H, nas mãos do marido bruto ou namorado, o que isso significa? No mais das vezes, significa violência, o que é muito conveniente para o sistema patriarcal: o homem, para garantir que seus filhos são seus, precisa controlar com cuidado o corpo da mulher "sua"... e há maneira mais eficaz de controle do que uma experiência traumática, do que conhecer o sexo apenas em termos de violência? Que mulher iria buscar um amante quando o sexo a que tem acesso se resume a isso? Deixa-se o prazer mútuo para ser vivido com a amante, a prostituta, pois a mulher que se preze, a mulher que se dê ao respeito, a mulher propriedade do marido, essa não possui grandes interesses eróticos. Sexo é pra reprodução, lembram? Ideia perfeita pra justificar o controle do corpo e da sexualidade da mulher.

Mas, homens dirão, os tempos são outros, isso era na época de nossas avós, bisavós. Sim, mas a pergunta que minha garganta coça em fazer a esses homens é: você seria capaz de fazer sexo com alguém que não está sentindo prazer e, mais, você seria sequer capaz de se dar conta de que ela não está sentido prazer? Quem penetra não tem como fingir orgasmo, fingir ereção, se não der pra rolar não há como forçar a barra... mas do outro lado a realidade é bem outra e estão aí para prová-lo os números alarmantes de mulheres que, apesar de transarem rotineiramente, têm que sempre fingir orgasmo, mulheres que muitas vezes nem sabem o que orgasmo quer dizer (seguiremos chamando isso de sexo?).

Essa mulher que você diz amar, será que ela tem prazer em transar contigo? O meu medo é descobrir que a resposta a essa pergunta talvez não interesse à maioria dos homens.

13 comentários:

  1. Seu texto foi como uma volta dolorosa ao passado.
    Muitas vezes me deixei violentar por medo, medo da rejeição, medo de me ver sozinha, medo de enfrentar meus medos.
    É muito difícil o ato de termos total autonomia sobre nossos corpos e nossa auto-estima.
    Obrigada por este tapa bem dado.

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    1. Seu comentário me tranquiliza, porque eu sempre fico com medo de estar errando a mão, usando palavras pesadas demais, palavras que acabam machucando quem lê, quem passou por experiências do tipo e ainda não dá conta de falar ou mesmo lidar com aquilo que viveu. Obrigada, Fernanda! E por favor, sinta-se totalmente à vontade para criticar o texto também, dizer que não foi legal xis ou ípsolon... estou bastante aberta a críticas e a reformulações.

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  2. Precisei ler, parar alguns minutos em silêncio, sozinha e pensar e relembrar algumas situações. Me identifiquei e me dei conta de que fui abusada por muitas vezes, por achar que aquilo era normal, que não custaba nada ceder... Uma pena ter a certeza que muitas e muitas mulheres ja passaram por isso e muitas e muitas estão passando. Parabéns pelo texto.

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  3. Um homem tem o poder magico de transformar uma mulher da noite pro dia em uma puta, vagabunda ou piranha. Quantas que não cederam ao sexo por simples pressão, ta lá no amasso gostoso aquela brincadeira de mão e eles começam a forçar a barra 'carinhosamente'. É um tal de só um pouquinho com aquela carinha de cachorro, e a gente acaba se pegando como uma corça paralisada com as luzes de um carro em alta velocidade vindo em nossa direção; a gente não quer estar ali, mas não sabe como sair. E depois de um sexo vem aquele sentimento ruim de ter feito aquilo, mas para eles somos mais um deposito de esperma que se rendeu a eles, uma presa facil, uma puta...

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  4. Texto maravilhoso, Amara!
    Encontrei teu blog por meio da revista Caros Amigos, e, a cada leitura, me encanto, me conscientizo e me (de)formo mais [do meu ponto de vista, isso é muito positivo!]

    Abraço carinhoso de uma leitora distante.

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  5. Meu Deus, obrigado por esse post! É de extrema importância sobre uma violência que atinge todas nós enquanto mulheres, que ao mesmo tempo é tão aceito e tão passível de justificação, "vc pediu", "vc foi educada demais", "se vc conhece ele não é estupro"...esse texto falou pra minha alma!Infelizmente na nossa condição social de mulher, somos violentadas sempre, quantas de nós já não passamos por isso, é a velha história do condicionamento social, o nosso "lugar", somos vistas como mercadoria, nosso prazer é negado, já ouvi que: "quem gosta de sexo é puta, mulher de verdade tem vergonha e nojo" por mais nojento e surreal que pareça é muito real essa fala e ela demonstra que o dito "lugar de mulher" é embaixo da sola de sapato de um homem. Temos que lutar sempre pelos nossos direitos, pela nossa voz e por todas aquelas que não podem falar!

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  6. Excelente texto. O mundo precisa de franquezas como esta.

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  7. Adorei seus textos.
    Nós homens precisamos aprender a termos a sensibilidade de perceber quando ultrspassamos a tênue linha que separa o prazer da dor.

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  8. nossa encantada com cada letra que aqui parece poesia da profundeza.
    Parabens

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Site maravilhoso...te admiro, siga em frente!

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  11. Site maravilhoso...te admiro, siga em frente!

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