terça-feira, 26 de janeiro de 2016

MONOGAMIA E CONTROLE

[Escrevo esse texto a partir das muitas transformações que venho passando desde que eu e minha namorada iniciamos uma relação não-monogâmica. Aprendo muito e diariamente com colocações e críticas dela, assim como com nossa vivência. Por conta de sua postura, me foi possível dar um mergulho profundo em mim mesma e no meu passado: não há como sair igual duma experiência dessas.]
Sempre me achei pronta pro Amor Livre, antes mesmo de saber que isso existia, mas quanto mais o conheço, quanto mais o discuto, mais descubro que eu na verdade sempre estive é pronta pra relações desiguais, eu sendo a parte privilegiada sempre. Ficar com outras pessoas (e por esse "outras pessoas" já se pressupõe a existência dum alguém que não seja esse "outras", dum alguém que fosse "principal", que aliás nada soubesse desse "outras" [sim, relações extraconjugais]) me parecia algo tranquilo, algo que não afetava o vínculo que eu possuía com a pessoa amada, e vou cada vez mais percebendo (e reconhecê-lo é um processo doído) a minha irresponsabilidade para com tudo que não fosse eu nessas todas relações. Na prática, eu acabava usando essas outras pessoas para dar conta de pulsões pontuais minhas, a forma que encontrei de manter de pé a relação oficial, onde residia inteiro o vínculo propriamente afetivo. Não à toa uma ex-namorada, hoje grande amiga, me disse meio na brincadeira, meio a sério, que só saberei mesmo o que é ser mulher quando viver uma relação abusiva com homem (pense-se no peso que é uma ex ter me dito isso, ainda que brincando).
Não à toa também sempre me pareceu mais fácil o relacionamento com pessoas frágeis, de autoestima lá embaixo, e, quanto mais vou me afundando no feminismo, mais a autocrítica que me forço a fazer me faz ver meu papel na manutenção dessas fragilidades e na da dependência emocional que elas propiciam. Minha dificuldade, p.ex., em reconhecer e elogiar a beleza, inteligência e força das tantas mulheres com quem me envolvi, pessoas criadas para não acreditar em si mesmas como forma de serem melhor controladas: uma mulher autossuficiente, empoderada, não acreditaria precisar DESSAS relações abusivas, desiguais, não acreditaria que SÓ esse miserável com quem se relaciona a iria querer, não acreditaria sequer PRECISAR duma relação, qualquer que fosse -- olha o perigo! E embora eu não fosse nenhum prodígio em termos de autoestima (sou aquela pessoa que, numa festa, fica com quem sobrou, que demorou horrores pra saber o que era desejar alguém e ser desejada por esse alguém), sempre me senti bastante segura dentro dessas relações, segurança que vinha, hoje vejo, justamente dessa desigualdade de forças. Super conveniente.
Amor Livre não é sobre ter vários parceiros, como imaginei antes. Às vezes um só basta, nenhum às vezes. Nem sexo é, aliás, necessário. Vínculos que consideramos de amizade podem facilmente, por esse filtro, ser lidos e cultivados como vínculos de amor e isso se percebe bem quando notamos que a monogamia não se preocupa apenas em controlar o número de parceiros sexuais, mas também os vínculos de amizade considerados "perigosos" (a velha história do "não existe amizade entre homem e mulher", p.ex., ou da proibição de contato com ex). Amor Livre é sobre relacionamentos não-desiguais, não pautados no controle do outro, é sobre não hierarquizar relações (o que é particularmente importante para não considerarmos que a relação em que há sexo é dum grau superior àquelas "só" de amizade, o que faz com que via de regra a gente se afaste de amigos quando começamos um namoro e depois voltemos a nos aproximar quando o namoro acaba... perceba o utilitarismo nessas relações!): amor livre é sobre responsabilidade afetiva, e, como bem disse minha namorada, amar não basta.
Ser trans me transformou num alvo prioritário do ódio transfóbico, mas isso por si só não faz de mim uma pessoa vulnerável dentro de relações afetivas. Demorei pra me dar conta disso, pra perceber que não é com um estalar de dedos que deixo de ser o que fui criada pra ser, e creio que só comecei a me enxergar capaz dessa transformação quando me envolvi com uma mulher livre, mas tão livre, que se fortaleceu o bastante para manter intocados os limites da liberdade que construiu pra si. Homens talvez precisassem, antes de querer viver múltiplas relações em simultâneo, aprender a viver uma só relação mas com responsabilidade, dedicação, cuidado, aprender a vivê-la sem basear sua segurança no controle da pessoa com quem se relacionam: se não for assim, não vejo como eles não acabarão se valendo, em algum momento ou mesmo em todos, desses mecanismos que a sociedade patriarcal criou para controlar mulheres, para diminuí-las, servir-se delas.
A mulher livre assusta, intimida, mesmo ao homem mais seguro de si. Termino o texto com um poema, poema dessa pessoa com quem venho aprendendo que Amor Livre é nada mais do que feminismo aplicado às relações afetivas:


28.09.2015
As certezas de minhas escolhas
Assustam as pessoas.
As certezas de minhas escolhas
Me trazem confiança.
As certezas de minhas escolhas
Não são qualquer coisa.
As certezas de minhas escolhas
Me fazem esta persona.
As certezas de minhas escolhas
São minhas escolhas.
As escolhas das minhas certezas
São apenas escolhas.
Sou confiante por um instante.
Terra.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

COM ESSE BATOM NÃO DÁ

Conhecem os buracos da rua todos, cada um deles, dançando com o carro para evitá-los à medida que avançam. Passam pela mesma rua vezes e mais vezes por noite, até se decidir. E é assim, à distância, que você já reconhece um acostumado ao bairro, cliente conhecedor da dinâmica. Gritam "delícia" alguns, meio mecanicamente (quem grita assim grita o mesmo pra todas, nada significa), outros ficam só encarando, a maioria passa sem reação, como se a rua fosse prateleira, como se nós objetos: não há necessidade alguma de, pelo olhar, indicar o que ele achou ou deixou de achar, quanto menos dizer o que quer que seja. E lá vou eu tentando atiçar suas curiosidades, suas vontades, um beijo lascivo aqui, um aceno ali, um "oi", "vem cá". E é isso.

Pois pararam três pra saber o preço, me conhecer melhor, antes do primeiro cliente da noite. Um veio perguntando se eu metia forte, arrombava o edi dele, tadinha de mim... condição zero de garantir ereção, ainda mais quando o cara não coopera (me tratar como gente é fundamental, e não como um pinto sobre pernas). Nada feito. Ele sentiu que não era a minha e eu não desmenti. No sexo prefiro sempre que nada dependa da minha ereção, ou pode ser que não role nada. Os outros foram bem xis, só perguntando quanto, interagindo pouco e "vou dar uma voltinha, qualquer coisa eu volto". Os caras aprenderem a nos tratar como gente e não coisa, qual a dificuldade? Incrível o quanto conseguem abalar sua autoestima mesmo quando você está super bem.

Mas veio o bendito primeiro e acabou que único. Parou a motoca, conversou comigo em cima dela mesmo, eu sedutora, voz sexy, brincando com a mão na sua virilha enquanto jogava o velho blablablá, ele se animando todo. "Quanto é o oral?" Faço vinte pra você, só pra você. "Hmmm... mas onde?" Ah, qualquer lugar... mas se você for tímido tem o estacionamento lá embaixo, mais escurinho, ou o matel. "Vai o estacionamento então, mas e esse batom? A esposa me mata se eu chegar em casa com a cueca suja!" Se tem coisa que me irrita é isso. O cara tem esposa em casa, esperando, a travesti servindo só pra uma rapidinha paga com trocados. Mas tirei o batom mesmo assim, na mão, ele vendo, e lá fomos nós.

Foi de moto na frente, sozinho, mas pagou adiantado pra me convencer que era sério. Eu fui a pé, duas quadras. Quando cheguei, já estava lá. Me explicou que tem uma com quem sempre sai, mulher, não travesti, só que ela não tava na rua, aí ele aproveitou pra uma variada. O papo tava bom, mas tempo é dinheiro e lá vai o zíper, jeans abaixado só até a metade da perna, pra não sujar no chão de terra e camisinha usada. Necão bonito, gorducho, dava até gosto imaginar na boca, mas não, taca-lhe guanto desde o começo, com a boca mesmo, únca forma de pôr quando ainda está murcho. Começa o oral, ele em pé, eu agachada no salto, cãimbras e mais cãimbras, o pau dele no máximo meia-bomba, o meu sem dar sinal de vida.

Uma hora endurece, ele se anima, pergunta quanto a mais pro completo, "mais dez", lá vem dez a mais pro meu bolso. Fico de pé, ufa, gelzinho na neca e no edi, ele se encaixando por trás, me inclinando sobre a moto, começando a forçar a portinha tentando entrar. Nada. Tou meio machucada, a verdade é essa, sem conseguir resolver a questão (ainda escrevo mais a respeito). A coisa é que, de tanto insistir, uma hora a ereção já não tão vigorosa assim foi por terra e não houve cristo que a reerguesse. Ele me pede então pra tirar o guanto e eu bater uma pra ele. Fico meio assim, era a última camisinha que eu tinha (esqueci a bolsa com uma amiga), avisei que não teria mais como penetrar depois, ele ok, só queria gozar com uma punhetinha minha.

Mãos à obra, de cara ele solta o famigerado "faz o que quiser de mim, me toca onde você quiser". Quem me lê, já sabe o que significa, onde ele me quer tocando. Sim, edi, cu, justo onde eu vou chegando ali por baixo, pelo períneo, "faz o que você quiser", meia-bomba virando pedra, "sou todo seu", até que ele goza. Não foi tão rápido assim, no entanto, eu tendo que trocar de mão por cansaço, ele assumindo o trabalho no final, eu só tendo que massagear seu cuzinho. Ele chegou ainda a pedir que eu enfiasse o dedo, mas tá boa que vou pôr meu dedinho lá: contente-se com as beiradas, querido. E vê se paga um drive-in a próxima, porque transar em pé ninguém merece.