sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A TRAVESTI E O AMOR QUE EXISTE PARA NÓS

Aquele momento em que você se dá conta de que estão metralhando de olhares, olhares de todos os feitios, hostis, curiosos, divertidos, zombeteiros, não você, mas a pessoa com quem você está de mãos dadas, a pessoa a quem você dedica afeto. Onde? Oras, onde você estiver, rua, metrô, ônibus, banheiro, cinema, Shopping Center. E não importa nem quem essa pessoa seja, homem, mulher, branca, negra, tudo tanto faz: ela será metralhada por igual, todos os olhares. E tanto faz porque a culpa dessa metralhadora de olhares é sua, porque não importa quem seja a outra pessoa, importa apenas que ela está com você, pessoa trans. Retardei trocentas vezes a minha transição por amor, por medo do que a pessoa que eu amava pudesse sentir, viver a partir dali, por medo de vê-la alvo do ódio que a sociedade dirige a mim.

Lésbica, gay e bi, o famoso LGB, mas também o H, são rótulos que não cabem pra nós, pessoas trans, são rótulos para pessoas cis, para relacionamentos entre pessoas cis. A gente arrebenta esses conceitos todos. O homem cis que se diz gay diz também que não sai com homem trans nem com travesti; a mulher cis que se diz lésbica o mesmo. Nem vou falar de quem se diz hétero. Quase sempre assim, com quem quer que seja. Quem se permite sentir atração por nós, nossos corpos, existências? T-lovers, travequeiros, gente que só assume nos desejar na calada da noite, longe dos olhares públicos. É necessário "desconstruir-se" para ser capaz de gostar de gente como nós, para ser capaz de nos tratar como gente.

Lembro duma mulher cis lésbica com quem fiquei, maravilhosa, que disse nunca ter sentido esses olhares quando saía com outra mulher cis... e ela estava assustada com aquilo. Pra mim já era normal, porque, se eu não fingir que é normal, enlouqueço. Comigo ela conseguia imaginar o que era estar na minha pele dia após dia. Andávamos de mãos dadas pela cidade inteira, não importa onde, e os olhares de incompreensão, de fúria, de zombaria iam nos seguindo, nos cercando, o tempo todo: como lidar?

A verdade é que a gente precisa de casca grossa pra suportar essa metralhadora de olhares. Mas quando o alvo dessa metralhadora é não você, mas a pessoa com quem você está, por quem você nutre afeto, a situação é bem outra. Noto o embaraço da pessoa, aí de repente me dou conta da situação (que eu tinha aprendido a ignorar, como estratégia de sobrevivência), solto minhas mãos das dela, passo a evitar beijá-la, ela não sabe se agradece ou se se indigna, começo a chorar e, então, só então, me lembro dum dos porquês de eu ter começado a me prostituir: uma vez travesti, esse é o afeto que existirá pra gente como você, esse é o afeto que você poderá viver sem colocar a outra pessoa em risco.

4 comentários:

  1. Belo relato. Mas, expandindo tua análise para além da homofobia, esse parece ser o afeto destinado a quaisquer relações amorosas definidas como ‘assimétricas’ pela normatividade sexual instituída. É assim também entre os casais inter-raciais, mesmo heterossexuais, e idem quando há uma diferença etária considerada ‘afrontosa’ (e não estou falando de pedofilia) em um casal. Mas, veja bem, eu penso que o que ‘insulta’ os ‘donos’ desses indecorosos e abomináveis ‘olhares de metralhadora’ é a manifestação de um padrão amoroso entre esses pares ‘inusitados’. Porque a fúria do senso comum diminui quando a relação aparenta tratar-se de putaria, quando o indivíduo mais vulnerável da relação aparenta estar sendo ‘usado’ pelo indivíduo que detém mais poder (o mais jovem, o mais branco, etc.). O senso comum é tão canalha que parece aceitar melhor uma relação assimétrica ‘comercial’ (onde um ‘leva vantagem’ sobre o outro) do que uma relação amorosa (igualitária) entre os mesmos indivíduos. O senso comum teme a diversidade, e por isso a situa em determinados espaços sociais (e olhe lá!): o amor é interdito para os ‘diferentes’.

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    1. Lembro duma feminista que disse não ver problema algum em se relacionar com um homem 20 anos mais velho. Na verdade, ela estava cansada de ser deixada de lado pelo namorado da mesma idade que queria jogar videogame, ir no jogo de futebol, etc. Com o namorado mais velho ela encontrou a maturidade que buscava, a estabilidade emocional, o sexo, o amor. Nada disso evitava que a crucificassem por conta disso, imaginando que ela estava atrás do dinheiro dele ou então que ele estava atrás da juventude dela, nunca a análise indo para além desse mecanicismo superficial. Os desdobramentos que você propõe são bastante perspicazes, obrigada! Só aponto para o fato de eu estar me referindo a "transfobia" e não a "homofobia", pois é o aspecto trans que causou toda essa reflexão e não a relação entre pessoas do mesmo gênero. :)

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  2. Amara amor,
    Very trick subject you have have raised!!!

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    1. Tava com saudades das suas aparições por aqui, mon amour! <3

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