terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A PROSTITUIÇÃO E O AMOR LIVRE

Quem me pediu em namoro desde que comecei na prostituição, um ano e pouco atrás? Clientes, inúmeros, a começar do primeiro, e de lá pra cá perdi as contas quantos. Fora eles, ninguém mais o fez, o que é também sintomático, significativo. Mas querer namorar travesti e, ainda por cima, puta... o que esses caras têm na cabeça? Alguns chegam dizendo que querem me tirar "dessa vida", eu exclusiva deles, "te assumo pra família e tudo", "pago suas contas", se excitam com esse discurso de salvação, até que acabam gozando e, daí por diante, esquecem tudo o que prometeram, todo esse amor. Outros já chegam sem essa fantasiice toda, mais pés-no-chão, realistas, oportunistas ouso dizer, "deixo você continuar trabalhando" ("deixo", vejam bem, que bonzinhos!), "quero só seu amor, carinho, quando eu vier te ver" (vulgo "quando estiver com tesão", ele), o velho papinho pra conseguir transa de graça, sem compromisso.

Não é fácil ser travesti em ponto algum, mas talvez ainda mais no amor e ainda ainda mais se você só gostar de homem cis (a heteronormatividade, à sua maneira, também reina entre nós). Por sorte sou bi e, nesse meio tempo, me envolvi com mulheres também, cis e trans, lés e bis, todas da militância ou próximas da militância, pessoas que me levaram muito mais a sério, andaram de mãos dadas comigo, demonstrações sinceras, públicas de afeto, se permitindo o envolvimento para além dos quartos do motel, para além da euforia do sexo. Mas, mesmo para essas mulheres, por mais empoderadas e decididas que fossem, por mais desconstruídas (taí algo fundamental para poder gostar de nós, "desconstruir-se", o que diz muito da nossa condição), eu ser prostituta sempre foi algo que pesou. Algumas não quiseram mais tocar no assunto, parando inclusive de acompanhar meu blog (pelo mal-estar que a partir dali começaram a sentir lendo os relatos), blog que antes admiravam, outras me cobravam de maneira ora sutil, ora mais incisiva, resposta para "por que eu continuo, já que não preciso?", todas por dentro se questionando o quanto dariam conta de se manter nessa relação comigo ou até quando.

Ser travesti já nos torna tabu, daí a maioria ainda encontra na prostituição a única forma de subsistência (e sabemos que seremos consideradas putas mesmo as poucas de nós que escaparem à compulsoriedade do trabalho sexual)... não é fácil querer encarar esse combo ao nosso lado e, mesmo quando se queira, não é fácil ter estrutura emocional pra lidar com tanta pressão. O olhar público, a família, o círculo social, às vezes até o trabalho pode estar em jogo, e só por estarem com a gente! A transfobia nos exclui, a prostituição nos abraça e a putafobia amplifica a exclusão a que já estamos sujeitas meramente por existir. E aí, o que acontece? Lembro de uma travesti com quem namorei uma década atrás, eu nos idos dos meus dezoito anos, no Shopping, a mão dela escapulindo da minha porque estávamos em público, mesmo eu caçando a mão dela. Se preocupava comigo, tinha medo do que podia me acontecer, mesmo eu querendo enfrentar a barra. Hoje sou eu quem me vejo do outro lado, tendo que decidir se deixo ou não a pessoa com quem me relaciono pegar na minha mão em público, me dar carinho, me apresentar pra família. Não há escolhas fáceis nesse meio.

No meio de tudo isso, como ficamos nós, nossos sentimentos? Criadas numa sociedade que prega a monogamia, a conciliação entre amor e sexo, mas, ao mesmo tempo, compulsoriamente lançadas à prostituição mais precária, a do vintão, vários clientes por dia, programas de dez minutos, tempo suficiente pra ouvir declaração de amor e, em seguida, pós gozo, ainda ver a cara de nojo do até então cliente apaixonado, apaixonante. Boa parte delas acaba desenvolvendo aversão a sexo, mesmo com as pessoas de quem gostem, mas ainda assim terão que continuar performando o ato sexual dentro da relação, para não "perder" essa pessoa que teve a coragem de querer, ainda que às ocultas, se relacionar com ela. Díficil lidar com essa montanha russa de sensações, medos, angústias, com essa irresponsabilidade toda para com nosso emocional. Por conta do estigma, nos sujeitamos, jogamos as regras do jogo, fazemos romance pra ganhar um extra, até dormimos de conchinha pagando bem, mas sempre o gosto amargo no final da noite, porque no meio dessa leva de corpos que conhecemos dia após dia a expectativa ainda é a de encontrar o príncipe encantado que nos aceite, nos assuma e, se possível, nos ame. 

Fico me perguntando se haveria amor livre para nós travestis, em especial as 90% que estão no combo "travesti" + "prostituta". Não quero nem de longe chamar essa prostituição que há para nós, precária, de "amor livre", nem esses pedidos todos de namoro de clientes que só se permitem nos amar na cama do motel, chapados de tesão. Longe de mim. Mas penso, isso sim, em construirmos redes de afeto, redes com pessoas que nos tratem como gente, um amor militante, construído, desconstruído, que nos ajude a cultivar o desapego, a combater a ideia de amor como posse, exclusividade, de conciliação entre amor e sexo (imagina a violência disso, ver-se prostituta e ainda assim acreditar que amor e sexo devem andar juntos?), a problematizar essas expectativas românticas que só nos violentam, que só nos deixam reféns nas mãos de gente que não merece nosso amor, nosso tesão, nossas lágrimas. Talvez isso nos fortalecesse para enfrentar os joguinhos a que esses mesmos irresponsáveis nos submetem cotidianamente, já que teremos de enfrentá-los de qualquer forma. Talvez isso nos permitisse mais autonomia para nos impormos melhor numa relação com quem quer que fosse.

Teria o amor livre algo a nos oferecer, nesse sentido?

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

TRAVESTI PUTA ESCRITORA: O COMEÇO

"Destino Amargo", Amara Moira: eis o que és, eis o que significa. Um nome, o meu nome. Mas ninguém o diz. Sonoro, alegre talvez, como a cara que faço ao receber proposta de um completo por vinte, oral por dez ou menos. Atender na rua é isso o que dá, é isso o que escuto. Travesti rondando os trinta mas dizendo vinte, militante LGBT, escritora, doutoranda em teoria literária pela Unicamp nas horas vagas: e puta. "E puta" mas como?! Mas por quê!? Sem "mas". Puta porque puta, puta porque quem sabe um dia. Já viu travesti professora, advogada, cientista, médica, astronauta? Acham que serei a primeira, acham que um canudo de doutora vai me abrir as portas do mundo, pioneira: "venha, Amarinha, trabalhar conosco, te queremos tanto"! E o telemarketing, salão de beleza? Antes puta. Prefiro isso a ouvir desaforo no telefone oito horas por dia ou fazer unha e cabelo de madame com rei na barriga.

Tantos anos retardando a transição, no armário toda toda, temendo até mesmo pôr pra fora a pontinha dos pés. Medo de quê? De tudo. Mas sobretudo de ter que do nada me prostituir, ter que ir da noite pro dia buscar cada centavo do meu sustento na prostituição. E não eram os corpos sem nome, vários, variados, via de regra fora do padrão, em diversos graus de higiene e saúde, o que me assustava. Com esses eu me viro bem, e até prefiro, anônimos, fora do padrão (como eu própria me sentia sempre, ainda mais agora): sexo nunca foi duro, nunca foi foda, mesmo as modalidades mais excêntricas... difícil era transar por amor, amar por prazer. Meu medo era, antes, a violência da exclusão, me ver pária duma hora pra outra, ser tratada feito lixo, perder família, amigos, círculo social, não ter um teto, o direito de continuar estudando, de poder buscar emprego que não fosse esses que não consideram emprego: puta.

Mas lá estou eu, um ano e algo atrás, travesti. Sabe-se lá o que me deu, de onde veio a coragem, uns mesisinhos de hormônio, corpo nem lá nem cá, meio a meio, solidão corroendo por dentro, eu ardendo por um toque íntimo, um "como você tá linda", "você mexe comigo" e nada. Travadérrima, medo de deixar qualquer um se aproximar de mim, mas, quando visitava as amigas na batalha, não tinha jeito, uma chuva de quanto você cobra, quero você, seu corpo, só diga o preço. As mais vividas, na batalha todas, começam a me atiçar pra fazer a rua, ganhar um akué, meu dindim. O convite tinha também um quê de "você não vai ficar só turista, né?", mas isso eu que intuí. Começa a me devorar a ideia do "e se eu fosse?", vontade de peitar o estigma, esse fantasma que me afastou tanto tempo da liberdade que eu hoje vivia. Não, não deixaria mais o medo me privar de descobrir quem eu era, e agora eu estava disposta a pagar o preço da descoberta.

Dois níveis de foda-se, então: não só me fazer puta como também assumi-lo pra quem quer que seja, gritar minha condição, escrever sobre a experiência da rua duma perspectiva literária ao mesmo tempo que feminista, explicitando as violências que vive quem vende o acesso ao próprio corpo (e, coisa que fui descobrindo, quanto menos se cobra, quanto menos se pode cobrar, mais esse cliente se acha dono do nosso corpo, livre pra fazer o que bem entenda -- por isso a importância de nos empoderarmos).

O começo, ah, o começo. Primeiro dia na rua, carros e carros passando, sem coragem de olhar o cliente nos olhos, sem saber como flertar com ele, atiçar seu desejo, fazê-lo pagar pra transar comigo. Penei. Cinco horas de pé no salto, frio que eu não sabia que existia em Campinas, um único interessado parou, nariz sangrando de tanto pó, queria um completo no carro por vinte! Fazia um ano que eu não transava, virgem praticamente, sem traquejo, não sabia por onde começar. "Não, não faço por menos de trinta!" (dez reais, grande diferença). Voltei em brancas nuvens, chorei, achei que não daria conta, que não servia pra puta, ai... mas me dei outra chance e dessa eu conto a próxima vez. Aguardem.

[post encomendado por Lola Benvenutti para seu blog:

A TRAVESTI E O AMOR QUE EXISTE PARA NÓS

Aquele momento em que você se dá conta de que estão metralhando de olhares, olhares de todos os feitios, hostis, curiosos, divertidos, zombeteiros, não você, mas a pessoa com quem você está de mãos dadas, a pessoa a quem você dedica afeto. Onde? Oras, onde você estiver, rua, metrô, ônibus, banheiro, cinema, Shopping Center. E não importa nem quem essa pessoa seja, homem, mulher, branca, negra, tudo tanto faz: ela será metralhada por igual, todos os olhares. E tanto faz porque a culpa dessa metralhadora de olhares é sua, porque não importa quem seja a outra pessoa, importa apenas que ela está com você, pessoa trans. Retardei trocentas vezes a minha transição por amor, por medo do que a pessoa que eu amava pudesse sentir, viver a partir dali, por medo de vê-la alvo do ódio que a sociedade dirige a mim.

Lésbica, gay e bi, o famoso LGB, mas também o H, são rótulos que não cabem pra nós, pessoas trans, são rótulos para pessoas cis, para relacionamentos entre pessoas cis. A gente arrebenta esses conceitos todos. O homem cis que se diz gay diz também que não sai com homem trans nem com travesti; a mulher cis que se diz lésbica o mesmo. Nem vou falar de quem se diz hétero. Quase sempre assim, com quem quer que seja. Quem se permite sentir atração por nós, nossos corpos, existências? T-lovers, travequeiros, gente que só assume nos desejar na calada da noite, longe dos olhares públicos. É necessário "desconstruir-se" para ser capaz de gostar de gente como nós, para ser capaz de nos tratar como gente.

Lembro duma mulher cis lésbica com quem fiquei, maravilhosa, que disse nunca ter sentido esses olhares quando saía com outra mulher cis... e ela estava assustada com aquilo. Pra mim já era normal, porque, se eu não fingir que é normal, enlouqueço. Comigo ela conseguia imaginar o que era estar na minha pele dia após dia. Andávamos de mãos dadas pela cidade inteira, não importa onde, e os olhares de incompreensão, de fúria, de zombaria iam nos seguindo, nos cercando, o tempo todo: como lidar?

A verdade é que a gente precisa de casca grossa pra suportar essa metralhadora de olhares. Mas quando o alvo dessa metralhadora é não você, mas a pessoa com quem você está, por quem você nutre afeto, a situação é bem outra. Noto o embaraço da pessoa, aí de repente me dou conta da situação (que eu tinha aprendido a ignorar, como estratégia de sobrevivência), solto minhas mãos das dela, passo a evitar beijá-la, ela não sabe se agradece ou se se indigna, começo a chorar e, então, só então, me lembro dum dos porquês de eu ter começado a me prostituir: uma vez travesti, esse é o afeto que existirá pra gente como você, esse é o afeto que você poderá viver sem colocar a outra pessoa em risco.