segunda-feira, 9 de novembro de 2015

SUA NAMORADA POR R$50,00 A HORA

Tou eu descendo a escada rolante indo pegar o metrô às 05h30, quando percebo que o cidadão à minha frente se dá conta de que sou travesti e toma um susto. Com medo de violência, vai saber, já ligo o alerta. Perco o infeliz de vista. Qual não foi a minha surpresa ao percebê-lo logo atrás de mim, na porta, esperando o metrô chegar? Ele começa a dar chutinhos no meu pé então, de forma bem grosseira, eu sem entender o motivo daquilo mas ficando irritada, quando de repente noto que ele estava discretamente me mostrando, no visor do celular, seu número de telefone. Não teve coragem de conversar comigo, sequer conversar, na presença de outras pessoas, todas estranhas.

Estando na cara as intenções do sujeito, anotei o número e mandei um oi no whats. Vi ele ficando impaciente por não receber a msg, aí novamente ele voltou a me dar chutinhos pra eu olhar de novo o número, conferir. Estava errado o que anotei. Anotei de novo, aí esse não tinha whatsapp. Tentei ligar só pra dar um toque, mas estava indisponível. Entramos no vagão, ele sussurrou no meu ouvido "gostosa" e permaneceu em silêncio, olhando pro chão, a viagem inteira, sem se dignar a puxar papo de maneira normal.

Na escada rolante, indo fazer baldeação, ele aproveitou pra apertar de maneira discreta a minha bunda. Pensei seriamente em dar uma de Indianara e expô-lo ao escárnio público, mas a mala pesada que eu carregava (estava a caminho da rodoviária do Tietê) me fez pensar que não seria apropriado. Ele tenta mais uma vez, no caminho, me mostrar o número do celular: joguei o joguinho dele, mas não era fácil de ver sem deixar que percebessem que eu estava vendo. Anoto pela terceira vez e tento dar um novo toque, ainda indisponível. Tomo meu caminho, deixo ele lá plantado, olhando pro chão de tanto medo de que percebessem que ele estava assediando uma travesti. Foda-se ele.

Meia hora depois, chega mensagem no meu whats dizendo que sou uma delícia, que ele quer me ver de novo, que eu o deixei com um tesão enorme. Falo que tenho local pra atendê-lo sim, mas que agora estou indo pra minha cidade. Ele solta então a clássica "quero você pra ser minha namorada": não foi capaz de sequer falar comigo em público, mas queria agora me pedir em namoro... quanta timidez, deusa do céu! Respondi que por R$50,00 a hora, namoro ele a vontade, quantas vezes quiser. Ele aceitou, vamos ver então se me procura semana que vem, quando eu voltar pra São Paulo.

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PS: Sei que vocês me acham puta barata, mas crise e transfobia costumam não ajudar muito o nosso lado. O lixo que me assediou hoje no metrô não teve coragem sequer de conversar comigo em público, mas por whats até me pediu em namoro (olha só!): vocês acham que ele pagaria mais do que esses cinquentinha que cobrei? Entendam o meu lado: eu quero que ele pague, preciso ver ele gastar o dinheirinho suado comigo, minha desforra, minha recompensa. E é por isso que vou cobrar exatamente o que ele pode pagar, e ainda vou passar xeque e sujar a cueca dele de batom. Lixo

4 comentários:

  1. Cara, vc é muito destruidora, amei o texto, principalmente a ultima frase!! Vou muito comprar seu livro!

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  2. Boa noite,
    eu fico chocado com os relatos que leio em seu blog. Sempre ouvi/li sobre a forma como uma Trans é tratada em nosso país, mas o modo que descreve é algo mais palpável. Fica tudo mais real após ler esse tipo de relato. E me deixa mto triste saber que milhares de trans como você sofrem esse tipo de tratamento diariamente.
    Confesso que ao ler o valor, 50,00 reais, eu pensei automaticamente (nossa, parece barato em relação ao que vejo por aí). Mas de modo algum pensei "que puta barata". Só ao ler o "PS", me dei conta do quanto ingênuo eu sou em relação a essa realidade.
    Mais um relato que vale muito a pena ler para escancarar essa realidade tão brutal que muitas vezes é ignorada.
    Desejo mto sucesso com o Livro e o Blog, mas principalmente que essa mentalidade enraizada em nossa sociedade comece a mudar. Já passou da hora!

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