quinta-feira, 26 de novembro de 2015

PROSTITUIÇÃO, FAMÍLIA E VIOLÊNCIA

De quem é mais fácil cobrar camisinha, do marido ou do cliente? Prostituta não precisa confiar em ninguém, inclusive ela própria anda com a camisinha na bolsa e ninguém melhor do que ela pra saber como colocar no pênis do cliente. Já com relação à companheira, namorada, esposa, quantas vezes ela não vai se sentir em risco ao transar com seu respectivo e, mesmo assim, ainda terá que se submeter à transa sem preservativo? Quantas vezes não desconfiará de relações extraconjugais do respectivo mas sem se sentir no direito de cobrar (ou mesmo sugerir) camisinha? Cansei de dar ombro pra amiga chorar com medo de estar com HIV ao descobrir o comportamento desleal do companheiro, cansei de acompanhá-las ao local de fazer exame. Não é à toa que a taxa de mulheres contraindo HIV dentro de relações heterossexuais monogâmicas cresce a níveis assustadores.

Acham que prostituição é violência e família é amor, esquecendo-se que foi necessária a criação da Lei Maria da Penha pra coibir violência doméstica contra a mulher. Se tem algo que a prostituta e a esposa têm em comum é o fato de que, numa sociedade escrotamente misógina como a nossa, não existe estupro contra essas duas categorias: a trabalhadora sexual será culpabilizada pela violência que sofreu (ela atiçou o homem, ele perdeu o controle -- quem mandou ser puta?) e a esposa será considerada propriedade do marido, sendo seu dever submeter-se à libido deste (os deveres conjugais, ou então não reclama quando ele for atrás de outra).

Até quando falarão por nós putas? Até quando vão querer nos dizer "em situação de prostituição" ao invés de nos permitir lutar por melhores condições de trabalho? Se a prostituição é violenta é pelo machismo e não pela prostituição em si. Se nos violentam é por sermos mulher, por ocuparmos o papel feminino na sociedade, por reivindicarmos autonomia sobre nossos corpos. A prostituição é o trabalho que se abriu a muitas de nós, é o trabalho que existe para muitas de nós (pensem por exemplo no 90% de travestis que são trabalhadoras sexuais, p.ex.), mas gente que não é prostituta está se dando ao direito de falar por nós e de defender a abolição de nossa profissão. Como bem disse Georgina Orellano, líder do movimento de profissionais do sexo na Argentina, "se não posso cobrar por sexo, não é minha revolução".

Não ousem nos obrigar a transar de graça.

2 comentários:

  1. Querida, sua forma de escrever é sensacional.Uma escritora nata! Vai ter trans sim e se reclamarem, a gente força todo mundo a virar também. Repressores fascistas não passarão!

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    1. Meu sonho, a revolução travesti tomando as ruas, as redes sociais, a televisão! Pode apostar que vou empenhar cada energia minha nesse rumo e não desisto antes de ver a coisa vingar... ;)

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