quarta-feira, 11 de novembro de 2015

NEM OI, NEM TCHAU, SEQUER UM SORRISO

Sentei no fundão do ônibus intermunicipal, ao lado do banheiro, pra viajar tranquila e acomodei as malas na poltrona ao meu lado, aproveitando que o ônibus estava vazio. Um moço vem então ao banheiro, noto que ele fica desconcertado ao me ver ali, aí ao invés de voltar ao seu lugar padrão lá na frente, ele se senta numa poltrona da fileira vizinha à minha, baixa o banco e começa a me olhar de canto de olho. O negócio durou quase que vinte minutos, eu sem saber o que era aquilo, até que resolvi olhar fixamente pra ele. Ele queria o meu corpo. Esvaziei a poltrona ao meu lado, então, e dei um tapinha discreto no assento convidando-o a ocupá-lo. Lá vem ele, todo esbaforido, assustado. Senta-se e já tira o pau pra fora sem nem falar oi. É pra isso que servimos. Sussurro no ouvido dele: "Quanto eu vou ganhar pra isso?". "Quanto você quer?". Eu disse cinquenta. Ele respondeu trinta. Ok.

Camisinha, começo a chupá-lo ali mesmo, dentro do ônibus vazio, torcendo para que ninguém sentisse vontade de usar o banheiro naquela hora. A excitação dele era tamanha que acabou gozando rápido, mas a forma como se deu foi digna de nota. Quando a neca vai fundo na boca, obstrui-se o canal da respiração e a pessoa fica sem ar, mas, quando a neca sai e o canal se desobstrui, produz-se alguma quantidade de muco (pela própria obstrução), o que impede que se respire pelo nariz. Resultado, só é possível pela boca. Começo o oral, isso significando que prendi a respiração, aí de tempos em tempos paro pra retomar o ar e só então dar continuidade. O lixo, no entanto, quis tomar as rédeas e ele próprio controlar os movimentos da minha cabeça, enfiando o mais fundo possível sua neca na minha garganta. Como não era uma neca gigante, deixei, mas, quando precisei respirar, coincidiu com o momento em que ele estava gozando e, aí, ele julgou por bem afundar ainda mais a neca na minha garganta, foda-se a minha falta de ar...

Foi uma experiência violenta, mas era como que esperada: homens costumam se comportar assim quando, mediante dinheiro minguado, têm acesso à intimidade de profissionais do sexo. Acham que nosso corpo deixa de nos pertencer, que a partir de então temos o dever de fazê-los gozar. A profissional precisa estar muito empoderada para coibir esse tipo de atitude. Não foi o meu caso, só deixei passar. Queria o dinheiro, nem precisei pedir. Minha desforra foi babar sua cueca e sua calça social, a ponto dele precisar ir no banheiro dar uma arrumada na bagunça. Depois disso ele voltou lá pra frente do ônibus, o mais longe possível, e não deixou nossos olhares cruzarem outra vez até o final da viagem. Para eles somos aberrações, aberrações que, por algum motivo misterioso, atiçam seu desejo sexual. Mas passado o gozo, não há mais tesão suficiente para fazer com que se dignem a interagir conosco: nem oi, nem tchau, sequer um sorriso. No melhor dos casos, a indiferença.

Um comentário:

  1. Obrigado por compartilhar.
    O texto é forte para uma pessoa que não está acostumada com isso, e ainda mais forte para quem tem muita empatia.
    Lamento que a maioria de nossa sociedade seja como você descreveu.
    Depois que conheci uma pessoa muito especial, comecei a notar mais esse tipo de comportamento repugnante.
    Me alegra saber que existem pessoas lindas como você lutando pelo direito de outras tantas.
    Espero que continue escrevendo. Boa tarde =)

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