segunda-feira, 19 de outubro de 2015

NAS COXAS (MEU DIA DE PUTA NA EUROPA)

Não queria voltar dos meus quatro dias de Holanda sem provar o gostinho e dindim de pelo menos um europeu, o euro lá nas alturas. Na impossibilidade de fazer a rua em Amsterdã, baixei o Grindr, sem intimidade nenhuma com o aplicativo, e criei um perfil. Qual minha decepção ao descobrir que é um rolê só pros homões saradões, bombados, mostrarem bíceps e tanquinho? Pois bem, fiquei lá mesmo assim e, de pirraça, pus ainda uma foto femininérrima, sensual, com a legenda "male enough?" ("macho suficiente?") e dizendo-me, na descrição, "Brazilian tran$$exual woman looking for some fun" ("mulher transexual brasileira atrás de uma diversãozinha"). Mal habilitei o perfil e imediatamente mensagens várias começam a chegar, várias, e era até difícil conseguir responder todas. Tive que explicitar que eu estava atrás de dindim, uma escort ("acompanhante"), e não me oferecendo por puro tesão, ainda que estivesse animada com a ideia de conhecer aqueles corpos todos. Quase marquei com vários, no meu hotel mesmo, se necessário, mas na hora H sempre alguma coisa aparecia pra atrapalhar e não dava certo. Dois dias assim, no terceiro decidi fazer por fazer, digo, por prazer, pra não correr o risco de voltar chupando dedo da Europa.

Marquei com um rapaz, enfim. O inglês com que ele me escrevia era tão caótico, mais doq o meu, que já imaginei não ser holandês (lá o inglês é quase que língua materna). Madrugada à vista, friiiiio, ameaça de chuva, lá fui eu com meu sobretudo (aquele famoso, que eu achei que me dava passabilidade de homem cis pra passar sem problemas pela Imigração), 15min de caminhadinha ao relento ao encontro dele. Paro no ponto combinado, vejo-o passar por mim e fingir que não me reconhecia. Fiquei confusa, achei que podia até não ser o cidadão, mas 2min dps lá vem ele de volta, me aborda confusamente e me apressa no caminho do seu apto, a meio quarteirão dali. Fez sinal de silêncio durante o caminho, enquanto subíamos os lances de escada, eu já com medo por não ter avisado ninguém, com vontade de voltar -- essas furadas em que me meto! Chegando ao apto, me explicou que teve que fingir que não me reconhecia pq havia um moço perto de nós que não podia vê-lo comigo, pq ninguém sabe ali no prédio que ele gosta "dessas coisas". Pelo mesmo motivo tinha pedido silêncio.

Holandês? Não, argelino. Só ali que eu soube. Trocamos o inglês pelo espanhol a pedido dele, ele começando a tirar minhas roupas, me alisar, dizer que sou "muy bonita", que ele gosta das trans tipo eu, novinhas, e não daquelas que tem trinta ou mais. Trouxa. Me ri toda por dentro, porque eu tenho 30, mas coloquei 22 no Grindr (não espalhem, pliz!). Ele então me veio com papo de "você não faz sem camisinha, faz?", meio que sondando se eu não topava. Que raiva, mal dava pra notar diferença entre os lixos daqui e os de lá. Eu disse que não, "claro que não", enérgica, e ele deu o truque do "mejor así, peligroso". Sei. A transa foi um desastre, ele mudando de posição a todo momento, cada hora querendo uma mais estapafúrdia, eu me sujeitando, deixando ele brincar com meu corpo como quisesse, Amara contorcionista (tenho um certo tesãozinho em me sentir usada, confesso, mas ali não deu certo isso não). Uma hora cansei, disse que era melhor parar e ele ir na mão mesmo, tava me machucando, ele ok ok, "mas que tal a gente fazer no banho, entre as coxas?". Minha primeira vez assim, passada... corpo todo escorregadio do sabonete e água, ele pôs a neca no vão da minha virilha e ficou enfiando ali uns minutos igual besta até que gozou, sem nem avisar que quase. Já viram esperma quando em contato com água quente? Nem queiram. Aquilo gruda que não sai por nada, parece cola, ai!

No fim, sentamos pra conversar um pouco sobre a "homofobia" no Brasil em comparação com a da Holanda e Argélia, ele bobo de saber que aqui a gente sai na rua e não tá nem aí, beija na boca e tudo, que não dá cadeia. Aí contei que faço programa, ele ficou curioso pra saber mais, como, onde, e a polícia, violência, meus pais, mas eu tava cansada demais e quis voltar pro hotel... haveria um dia cheio de evento pela frente, o último, com aquelas ativistas putas do mundo todo, euzinha no meio! Caminhando pra porta ele me disse que havia duas travestis ali no andar, ele não sabia se brasileiras ou colombianas, e não fosse madrugada eu teria ido lá bater pra descobrir. Na hora de sair, não é que o infeliz me pediu delicadamente para ir com o sobretudo, porque aí nem dava pra perceber que eu não era mulher?

Essas coisas que ninguém acha que vai ter que escutar na Europa.

4 comentários:

  1. Oi! Estou passando pela transição e cheguei ao seu blog porque li um texto sobre trans e nele havia uma citação de um texto seu. Já li todossss os textos duas vezes! Adorei a forma das narrativas! Alguns momentos me peguei rindo de algumas passagens. Vi também os vídeos!
    Se puder, depois escreava um texto falando mais especificamente sobre sua transição relatando a parte do convívio social...bjosss!!!!

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    1. Me adiciona no face, querido! Lá podemos conversar melhor... e lá tenho mais posts sobre a questão da transição, das dificuldades de começo. Tenho vários amigos e amigas trans tb e fazer a transição com gente transicionada por perto facilita bastante as coisas. Um beijo e obrigadíssima pelos elogios! (fiquei me sentindo aqui! rsrs)

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  2. Amara Moira, conheci seu Blog, finalmente. Amei sua escrita e a maneira como narra. Já te considero uma amiga. saiba disso. Estou com com você nas suas lutas diárias e qualquer coisa é só chamar. Até breve! bjks

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    1. Você é um querido, Edmar! Estamos junto nessas lutas todas, porque no final das contas todas elas são uma mesma única, uma luta por uma sociedade mais vivível, uma sociedade onde valha a pena querer viver, querer existir... <3

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