sexta-feira, 30 de outubro de 2015

MUITO CAMINHÃO PRA POUCA AREIA

Até engraçado ver, aqueles homões robustos, brutos, mãos ásperas, se revelando frágeis ali na cama comigo, poços de carência, meninos atrás de amor ou, quando menos, alguém que os escute. Engraçado mas também perigoso, porque a gente sabe como se comportam se rejeitados, ainda mais se por nós putas, travestis. Vulneráveis daquele jeito, mostrando o que não ousam pra própria sombra, um simples "não" pode motivar reações as mais hostis, até violentas. "Como assim não me quer? Peço essa puta em namoro e ela me diz 'ainda não' ou que vai pensar... quem ela pensa que é?" A autonomia da mulher e da travesti, já posta em xeque naturalmente, imagina então nesses espaços onde nossas vidas valem menos, onde espera-se que agradeçamos migalha, onde você é culpada de tudo quanto lhe aconteça. 

Passei por momentos do tipo com o meu caminhoneiro, eu toda apreensão, a gente zanzando no caminhãozão dele pelas ruas do meu bairro, onde ele veio me buscar porque a urgência em me ver era grande. Nem me deixou bater o martelo no preço por telefone, ficando em aberto algo entre trinta (o que ele propôs) e cinquenta (preço que dei). "A gente se acerta", ele disse. Que seja. "Deixa esses lixos irem te buscar no seu bairro, aí daqui a pouco vão bater na sua casa, faculdade, falar com vizinhos", alertaram depois azamigas... mas foi bem longe de casa que ele me pegou, ainda que no meu bairro, então não tem como dar problema. Espero. Coisa pra se pensar.

Declarações de amor desde o princípio, "como você tá bonita", "senti sua falta", eu toda suada depois de um dia na rua, dando aula até quase às 21h, hora em que ele me pegou, livros embaixo do braço, pelinhos querendo gritar no rosto (o famoso xuxu). Pra ele nada disso importava. Inventei que sou professora de história da rede pública em tempo integral, puta só por complemento e pra pôr peito, por isso eu não estava na rua aquela hora. Ele gostou, disse que eu nem precisava pôr peito, bonita já assim, mas que se eu fizesse questão ele até me ajudava. Um amor. E já foi logo emendando que queria amor mesmo, namoro, algo sério.

- Mas não é assim que funciona, né, querido... você em nenhum momento se preocupou em saber se eu também tou nesse amor todo, seu.
- Você tá? 
- Não, gosto de liberdade. 
- Mas você vai poder continuar trabalhando, ficar com quem quiser... nem assim? 
- Nananão.  
- Ah, então não vai dar pra gente continuar saindo, porque quero uma relação de verdade, não programa. 

Uma coisa é ele dizer isso por telefone, e aí ok, passar bem, ou lá no Itatinga, meu território. Outra bem diferente é numa estradinha deserta, só meio perto do meu bairro, na cabine do caminhão, antes de me pagar, ele ainda aproveitando o momento pra vir pra cima do meu corpo. Eles pensam que somos bestas. Dizem que querem namorar, que "aceitam" até a gente continuar trabalhando, ficar com outros, só querem mesmo o carinho garantido quando sentirem vontade e o sexo na faixa, disso eles não abrem mão. O que se faz numa hora dessas? Sei lá, cedi. Fui deixando ele me tocar, beijar, eu tentando aparentar naturalidade, tesão, mas me corroendo de medo por dentro. 

Me despi assustada, medo de alguém aparecer na estradinha, dele ser violento comigo, querer me abandonar ali, e foi nesse tesão todo, uhuu, que começou a transa. Sorte que só oral. Neca ainda molenga a dele, pus a camisinha com a boca e parti logo pras bolas, lambiscar, chupar, engolir, mesmo que suadinhas. Ele urrava de prazer igual da primeira vez, se contorcia, esticava as pernas violentamente, às vezes sem nem avisar nem dar a entender, eu quase que levando coice, só assim pra aquela neca ficar dura. Mas era parar e murchava na hora. Oral no pau meia bomba, ereção quando atacava as bolas, foi assim quase que a noite inteira, a hora que passei lá, eu ainda fazendo o fio terra (só na bordinha) pra ver se a coisa ia mais rápido. Que isso. Cansei o maxilar, garganta dolorida de tanto ir fundo com força pra ver se ele gozava logo, olhos lacrimejando, nariz escorrendo, ânsia uma vez ou outra... vocês que acham oral bonito, é só nos filmes, viu? E olha que eu até gosto da sensação, quando com quem gosto, e mesmo do cheirinho de suor, mas não era o caso com ele.

O tempo corria e nada dele gozar. De repente parei e disse: "querido, você nem me disse quanto vai me pagar e aqui já foi tempo o bastante, acabou". Ele pediu calma, "tava gostoso o momento, não?", mas disse que já tava a ponto. Pediu só pra eu ficar chupando as bolas enquanto ele se masturbava, dois dedinhos de leve na cabeça, segurando a neca igual pinça, tudo ao contrário do que eu vinha fazendo (mão cheia agarrando com vontade aquela nequinha molenga). Assim o gozo veio fácil, salpicou sua barriga inteira de leite, ele deitadão na cabine-motel do caminhão, eu toda desajeitada. Curioso isso, as formas como nos habituamos a gozar e aí, depois, não há cristo que consiga nos fazer de outra maneira. Sair com uma profissional do sexo podia ser a oportunidade pro cliente se permitir novos gozos, novas maneiras de fruir o próprio corpo, de se conhecer, educação sexual, mas na prática isso é impossível, porque o que eles vão buscar numa prostituta não é (auto)conhecimento, mas alívio superficial pras pressões cotidianas que vivem. Só gozar e partir. Uma pena. 

Foi bem isso o que houve. Ele gozou, aí pegou papel pra se limpar, eu corri pra pôr roupa, ele se vestiu, reclamei o que me era de direito, os cinquenta, ele veio com conversa mole, "assim você me quebra as pernas", "te tratei tão bem"... raiva! Acabei aceitando os trinta só pra ir logo embora, me ver livre dele. Pedi carona até um determinado ponto, dali até em casa era coisa de vinte minutos a pé, e lá fui eu pela rua, aliviada de me ver sozinha e em terras conhecidas. 


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