sexta-feira, 18 de setembro de 2015

ENTRE O SER E O ESTAR PROSTITUTAS

É comum ver amigas dizerem não "serem prostitutas", mas "estarem se prostituindo", esforço talvez de não permitir que a profissão defina suas identidades, de não se verem, ou não se quererem ver, reduzidas à profissão que meramente exercem. Estão de passagem quando muito, e nada mais. O mesmo acontece, p.ex., com homens que preferem se enxergar enquanto HSH ("homens que fazem sexo com homens") doq enquanto homossexuais, HSH esse que foi prontamente acatado pelos órgãos, no mais das vezes homofóbicos, que fazem políticas públicas para o segmento. O estigma tem que ver com essa escolha vocabular, mas sabemos que a pessoa se dizer "estar", ao invés de "ser", em nada muda a forma como a sociedade a discrimina, e é importante termos isso em mente ao indagarmos o qto essa nomeação não reforçaria o estigma aq esses grupos estão sujeitos (às vezes, me parece que é justamente essa a proposta, reforçar o estigma).

O debate entre "prostituta" ou "mulher em situação de prostituição", qual termo seria mais, qual menos adequado, é de capital importância nesse sentido. De um lado, podemos dizer que "em situação de" explicita o fato dq na maioria dos casos a prostituição é escolha compulsória e/ou exercida de maneira precária, com parte considerável das minhas colegas prostitutas já terem sido agredidas, assaltadas, estupradas no exercício da profissão, ou então por elas se verem na necessidade de atender clientes em condições perigosas, insalubres, sem iluminação, pessimamente remuneradas, ou mesmo por ser caminho incontornável pra 90% das travestis e ser, no exercício da profissão, o momento em que ocorre parte substancial dos assassinatos dessas pessoas. Não se pode esquecer também quem são os defensores número um dessa terminologia, pessoas em geral não prostitutas, pessoas que muitas vezes trabalham diretamente com prostitutas mas quase sempre de forma assistencialista (nunca conheci uma única prostituta que se dissesse "em situação de prostituição", que usasse exatamente esse fraseado).

Do outro lado, as que defendem "prostitutas", o "ser" mais doq o "estar", fazem-no pensando em empoderamento da categoria, fazem-no pensando que, se as condições de exercício não são nada boas, isso não implica que a prostituição seja por definição assim, pra sempre um ambiente onde a violação de direitos humanos seja, mais doq esteja, a regra. Haveria, então, como lutar por uma prostituição diferente, uma que cumprisse um papel outro na vida sexual duma dada sociedade, quem sabe talvez até podendo-se assumir de fato como educadora sexual dos indivíduos que ali vivem. Quem milita pela regulamentação da atividade ou pelo reconhecimento do trabalho sexual como trabalho geralmente opta por essa terminologia (e em alguns rincões do planeta, inclusive, mesmo o termo "prostituição" já é visto como depreciativo, já é lido como indício dq a pessoa que o emprega não está plenamente comprometida com a defesa dos direitos humanos e aí, no caso, os termos ideais seriam "trabalho sexual" e "profissional do sexo").

Linguagem que visibiliza a violência versus linguagem que promove empoderamento. "Em situação de" traz no bojo um desejo de, ao colocar prostitutas como vítimas, suscitar empatia na população que as discrimina (por conta do paralelo óbvio entre essa expressão e a "pessoas em situação de rua" p.ex.), mas não se pode perder de vista que essa vitimização pode ter efeitos catastróficos na própria auto-imagem dessas pessoas que se prostituem. Muitas passarão a vida se dizendo "só de passagem", vinte, trinta, quarenta anos, e aí faz-se necessário perguntar oq significa de fato isso q nos dizem, se seria a forma como efetivamente se vêem (ou, até, como gostariam de poder se ver -- "não quero ser, então digo que não sou, que só estou") ou, quem sabe, se isso é oq elas podem dizer de si mesmas em função do estigma, do controle da sexualidade da mulher, do medo de perder a simpatia dos grupos assistencialistas (a Pastoral da Mulher, p.ex.). "Em situação de", além disso, implica que essa situação é inerentemente ruim, coisa que no mais das vezes vem sendo entendida como "devemos lutar contra a prostituição em si e não contra a situação precária na qual ela é exercida": Indianara Alves Siqueira nos lembra o tempo todo contra o que devemos lutar, não a profissão do sexo em si mas sim a exploração.

"Prostituta" e "profissional do sexo", por sua vez, tentam promover na marra o empoderamento da categoria, problematizar o estigma a que nos vemos sujeitas, criar através da palavra condições para que essas pessoas possam tomar as rédeas da própria condição e transformar a realidade a que, no mais das vezes, estão confinadas, a que foram compelidas. Mas essa agência que a palavra "profissional" e "trabalho" concedem pode ser só ilusória, mera roupagem nova, pois o poder das palavras de transformar o mundo é limitado. Confesso que me ofende ver pessoas que recebem centenas de reais por programa serem enquadradas na categoria "em situação de prostituição" (creio que nem elas mesmas o desejam), mas também me é doído chamar de "profissional" aquela pessoa que, por conta das condições de exercício dessa profissão, mais doq desgosta, tem nojo de sexo, mesmo assim tendo que praticá-lo exaustivamente diariamente, viver em função dessa prática, às vezes por dez, quinze reais o programa, sofrendo agressões de diversos tipos. Como bem disse Janaina Lima, para algumas pessoas o limite é limpar privada alheia, "isso não dou conta", ao passo que pra outras é transar com anônimos, e aqui estamos falando de a que ponto você chegaria para buscar sua subsistência e a dos seus ou, então, para bancar seu padrão de vida (lembrando que a prostituição é exercida não somente, ainda que majoritariamente, por pessoas pobres). Mas isso não resolve o problema de como denominar o exercício dessa atividade...

2 comentários:

  1. Muito interessante o jogo de palavras que essas colocações apaziguadoras indicam. Eu bem que sempre achei estranho ouvir "em situação de prostituição", mas nunca tinha ouvido uma puta falar sobre isso, e agora entendi que realmente pode soar estranho, como se tivesse colocando a prostituta sempre como vítima, como se ela não tivesse agência alguma, ainda que faça programa por falta de escolha, colocado dessa forma se desconsidera qualquer possibilidade de autonomia. Acho que isso são tentativas de higienizar a prostituta e estigmatizar ainda mais, incutindo essa ideia de que o problema não são as condições precárias, mas o problema são as putas que são putas (ou estão putas, nem sei mais).

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    1. Uma coisa que me incomoda é que, quem usa dessa expressão "em situação de", tende a colocar nessa categoria absolutamente todas as profissionais do sexo e tende também a assumir uma postura abolicionista em relação à prostituição... ou seja, pegam os casos das pessoas em situação mais vulnerável, fingem que só existe prostituição nesses termos e que nem convém tentar mudar essa realidade, e junto a isso chegam propondo o fim da talvez única atividade laboral que nos permite conseguir nossa subsistência...

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