segunda-feira, 10 de agosto de 2015

ÀS VEZES SÓ NOS RESTA CONFIAR

Vidros escuros semi-abaixados, carros, só vejo os olhos, eles me vêem toda. Aceno, vem cá, brinco, tremo se param, misto de medo e ansiedade, e lá vai ladainha: "programinha, amor? Oral é vinte, trinta o completo no carro". Cogitei até baixar valores, tal a demora em conseguir cliente, mas todos pra quem falei menos, cinco reais a menos, responderam o de praxe, "era só pra saber, tou dando uma volta". Catorze anos atrás, finais dos meus dezesseis anos, mesada no bolso, lá vou eu passando inadvertidamente pela região do centro onde as profissionais de rua atendem, quando uma delas me pára, me convida a subir, olhinhos meus brilham, quanto? "Vinte e oito". Fui. Por falta de troco, trinta. No auge da minha cabacice mas, à época, disposta a ser o homem que esperavam de mim, pagando de de maior, vi ali a chance de perder a virgindade. Lembro que fiquei chocada com o valor, de tão baixo... o cruel é ver hj, catorze anos depois, que a média dos valores que cobro, que todas as travestis onde trabalho cobram, é ainda menor que isso.

Dessa vez ele veio a pé, o cliente. Vários homens passam pela rua à noite, homens que não se sabe oq fazem ali a pé, homens que, com vergonha de serem vistos, andam de cabeça baixa, apressados, abusando do canto de olho, homens que fingem passar desapercebidamente mas que param ao primeiro sinal que vc lhes dê, "programinha, amor?", "o que vc disse? ah, programa, tou só dando uma volta". Acham que a gente tá lá pq quer, de graça. Esse não. Era já a terceira vez que passava por mim qdo o fisguei. Noite já garantida, oq viesse era lucro, acabei aceitando até menos doq o esperado, o vinte completo no estacionamento. "Seu pau é grande?", perguntei. "Que nada". Nada. Nem queiram saber oq ele acha pequena, então. Parece que quem tem necão tem um prazer todo todo em fingir que não é bem tão grande, em pegar a profissional de surpresa. Sorte que, já laceada do programa anterior, só precisei de uma lubrificação extra pra fazer esse deslizar pra dentro.

A cena foi rápida. Pagamento adiantado, xequei com a luz do celular se a nota era mesmo de vinte, peguei a camisinha, pendurei a bolsa num galho da árvore e já fui ajoelhando e abaixando o zíper. Encapuzada a neca, comecei o oral e fui até onde ele deixou, deixando ele a ponto de bala pra eu sofrer menos. Sofri mesmo assim. Não tinha onde encostar, transar em pé não é o melhor que se pode desejar da vida, ainda mais no meio da escuridão, sem saber direito onde piso. De repente ele puxa a minha cabeça de lá, me gira e vai logo roçando o meu edi, futucando, testando o terreno. De tanto testar, acabou entrando, mas não sem antes eu reforçar a lubrificação... já assada do cogumelo que atendi antes, esse doeu mais doq o outro por ser uniformemente grosso e não só cabeçudo. Pelo menos ele gozou logo. Qdo tirou de mim, naquele escuro, mal deu pra xecar se estava okay a camisinha: pouca visão, pressa do pós-gozo, medo de lambrecar a mão num xeque que eu por ventura tenha passado... às vezes só nos resta confiar.

2 comentários:

  1. Que bom que voltou a postar coisa nova....:)

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    1. A coisa às vezes empaca porque a vida não me permite mais doq umas horinhas por semana pra cuidar da página... tudo difíci, mas uma hora engrena e aí quero só ver! rs

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