quinta-feira, 23 de julho de 2015

FAZ ISSO NÃO, EU VIM PRA COMER

Demorou, mas veio enfim um corajoso e todo príncipe no cavalo branco. Falava mais doq a boca, mãos, olhos, indo de "vc é bonita demais pra estar aqui, tão branquinha" a "vou te tirar dessa vida, te assumir, vc vai ver", imaginem. Ficou feliz que meus pais "não sabiam" e que eu trabalhava "pouco", aí era mais fácil sair. Ajudava a juntar o dindim do peito, aliás. Bom demais pra ser verdade. Me cantava e tocava uma em sincronia perfeita, um músico, orquestrador, excitado em se imaginar me salvando daquele mundo, eu tendo que dizer pára e segurar a mão dele senão ele se acabava era ali, no carro, e adeus aqüé. Por fim se rendeu aos meus encantos e fomos pro quarto, não sem antes me fazer prometer que eu ia cuidar bem "desse negão" e que daria a ele uma chance. Dei. Cobrei só quarenta, o bastante pra cobrir meus gastos. Neca cabeçuda que nunca vi, um cogumelo quase, senti as dores por antecipação imaginando o empalamento (e isso mesmo eu tendo treinado num consolo a semana inteira pra ficar larguinha).

Nus na cama, esfregação, camisinha, oral, eu mais divertida vendo o prazer dele doq com a transa em si, me sentindo atriz, até que ele me puxa e começa a beijar, carinho, barba arranhando a pele... "ei, nossa, uou, que que é isso aí!?", disse ele assustado ao me ver toda toda, crescidinha, armada, se vcs me entendem. E continuou: "vc gosta mesmo de pau, tem certeza?" Parei o bloqueador de testosterona, deu nisso, tesão. Segui o instinto e fui bolinando o corpo dele, bolas, períneo, bunda, ele se tocando alucinado, ou, ei, nim, são, não, sim, ui, boca e olhos se dizendo e contradizendo, até que, ai, por fim, "faz oq quiser de mim". Travesti vivida sabe oq isso quer dizer, sabe oq ele quer que eu queira, eufemismo pra "vem, me come", e lá fui eu massagear o edi, ver se entendi direito. 

"Não, não, ai, hj eu vim pra comer, faz isso não, por favor", era oq a boca dizia, mas a língua das mãos era outra, agitada, acelerada, parecia que iria gozar a qqr momento. Resolvi cutucar a onça: "vem cá me comer, se é isso oq vc quer... só não dá pra ficar de romance, q a qqr momento alguém vem bater na porta". E lá foi ele se aprontando, lambuzando o meu edi de gel, começando a futucação. Doeu, confesso, o prazer que eu estava sentindo em parte se foi, mas foi mais fácil doq eu imaginava... a cabeça entrando, o restante da neca escorregou quase que sem atrito, e ali ficamos minutos a fio, entra-e-sai voraz, até que ele fechou os olhos, grudou pro meu desespero e dor o púbis lá atrás de mim e, sem aviso prévio, desfaleceu nos meus braços. Dps que gozou, pressa e amnésia. Só deu tempo de pedir troco pra cinquenta e se foi, atrasado pra um compromisso, esquecido de me salvar daquele mundo. Homens.

domingo, 12 de julho de 2015

VICIOSA COMO VCS SABEM BEM

A princípio eu fazia oral sem guanto (só o oral, penetração deusamelivre!) nos ocós que eu queria fazer, todos. Transar era um tesão pra quem era Amara há tão pouco tempo, ainda toda insegura com o corpo, doida por um elogio: sendo desejada, eu desejaria, assim simples. E nisso vivi o gozo de prová-los por inteiro, cada centímetro com meus cinco sentidos (até audição usei -- os barulhos que ali se ouvem, impagáveis!). Doença não peguei nenhuma, obra da PrEP, da vacina pra hepatite A+B e da minha sorte gorda, mas chegou a hora de eu parar com isso antes que seja tarde, seja pra educar aqueles lixos, seja pq nenhum deles merece o risco que eu corria. Começa a Era do Guanto, e era uma vez prazer.

A próstata não estava ajudando tb, pois desde que comecei o androcur (bloqueador de testosterona) o anal passou a ser incômodo, doído até, o contrário doq já foi em priscas eras. Aí, isso mais o oral com guanto, combo completo pra fazer do sexo algo no nível do terrível, no melhor dos casos insosso, mero trabalho. Parei então o bloqueador há dois meses pra ver noq dava, os efeitos se fazendo notar rapidinho. Libido de volta, ereção, pulsão no edi pedindo completude, vontade de pôr o corpo todo a produzir prazer, o corpo um órgão sexual gigante. Foi nesse contexto que saí pra batalha, disposta a fazer rios de dinheiro e ainda me esbaldar naquela volúpia de corpos.

E foi só pisar na rua pro motoqueiro da última aparecer, dessa vez oferecendo quinze ao invés dos dez, mas agora querendo o completo na motoquinha dele. Fui tarde pra rua, umas dez da noite, disposta a pagar meus gastos o qto antes, disposta a virar madrugada se necessário, aceitei. Ele quis tirar água do joelho antes, regar uma moita no matel, fui por trás, me encaixei nele viciosa, peguei o menino nas mãos e falei "então faz". Naniquinho safado, logo endureceu sentindo o meu toque, o dono fazendo um esforço enorme pra mijar, já meio em dúvida de qual era a urgência maior, neca em riste, o líquido saindo aos jatos, sofrido ainda que gozoso, pra tudo qto é direção.

Assim que acabou, pus logo o capote, ajoelhei no salto e comecei a parte favorita. Durou nada como a outra vez, mas agora ele veio diferente, "calma, deixa eu colocar por trás, senão gozo logo". Deixo. Enquanto eu passava o gel, foi meio que amolecendo, quase que nadando dentro da camisinha, a gente tentando encaixar mesmo assim, o coisinha fingindo que entrava, aí escapulia, aí dobrava, todo contorcionista, difícil. Ele tirou, fui pegar mais gel pra passar na neca ver se endurecia, se facilitava, sentindo uma consistência diferente agora, meio viscosa...  "gozou?" "Gozei".

Segui massageando achando divertida a cena, os tremeliques dele, mas aos poucos fui franzindo o cenho, aí apalpei com mais atenção, que esquisito, gelei de repente...  "cadê a camisinha?" Aquela textura estranha não era só por ser melequenta, mas por ser pele! Girei nos calcanhares, alarmada, pronta pra tirar satisfação e dar com a cara dele no asfalto, qdo algo balança atrás de mim e uma gosma escorre pela minha perna: nadando na camisinha, edi apertado, neca saiu, guanto ficou pendurado feito rabicó, com tudo oq tinha dentro, escorrendo pela minha perna qdo balancei. Cara de alívio minha, volte sempre, bora pra outra. 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

AH SE NÃO HOUVESSE RISCOS

Do ponto de vista do feminismo radical, é um absurdo alguém defender que mulheres possam vender prazer a um homem, negociar esse prazer, pôr a ele um preço. Dar lucro a um patrão ok, submeter-se a péssimas condições de trabalho ok, mas vender prazer e ainda ousar saciar esse prazer, isso nunca! E não importa os valores da negociação, cinquenta, cem ou quinhentos reais a hora, pois, para esse feminismo, a prostituta será sempre vítima, sempre "explorada" pelo homem perverso vulgo seu cliente. Para esse feminismo o sexo não poderá jamais ser considerado um serviço, receber um valor, ainda que seja uma das experiências humanas mais essenciais, mais incontornáveis. Pessoas não terão acesso, fora da prostituição, a essa experiência? "Danem-se!" Mulheres empoderadas começam a se permitir, inclusive, requisitar esses serviços? "Elas tb são exploradas, não podemos permitir que paguem a homens, muito menos a outras mulheres, para terem prazer!"

Sento, laminto e choro, mas prefiro dar voz a nós prostitutas, ouvir nossas próprias histórias e demandas e expectativas, lutar pra que tenhamos plenas condições de escolher o caminho que quisermos, seguir na prostituição um deles. Ninguém aqui acredita, em sã consciência, que viverá pra ver o fim da prostituição. O mais urgente, portanto, é lutar por melhores condições para que essas que estão na atividade possam exercê-la em segurança. O medo que esse povo sente a gente sabe qual é: quanto menos violência envolvida, quanto menos estigma atrelado, mais mulheres vão começar a se dar ao direito de escolher se prostituir, escolher ganhar em cima do prazer de homens (e, num futuro não tão distante, inclusive a outras mulheres), e isso seja pra pagar uma conta, poder comprar algo dq sentem falta, um presente, sair no fim de semana, seja pra fazer disso sua fonte principal de subsistência, impondo o valor que desejam, um valor que lhes permita viver, mais doq sobreviver. Isso radfems não aceitam, uma mulher que escolha por livre e espontânea vontade aproveitar-se do prazer de homens para dali retirar seu sustento, ganhar saciando esses desejos, fantasias, carências, uma mulher que encontre no sexo sua realização profissional.

Afinal, quem explora quem qdo a prostituição é exercida sem risco de violência, sem o peso do estigma? Fico imaginando o dia em que a palavra "puta" não for mais xingamento, o dia em que as pessoas nem consigam mais imaginar pq um dia ela o teria sido.