domingo, 31 de maio de 2015

AGORA VC GANHOU OS SEUS VINTE

Não dava pra saber aq vinha o rapaz, já com certeza entrado nos enta, pele castigada, aparência de gente vivida. Chegou mancando forte, uma perna nitidamente mais curta que a outra, eu a primeira travesti à vista, parou logo em mim. Blablablá infindável, elogios, ios, eu dava corda mas já com vontade de dar um basta: dinheiro parecia que não ia sair dali. Me chamou então pra uma cerveja, queria me conhecer melhor. O dinheiro da noite já feito antes disso, oq viesse era lucro, acabei aceitando msm sem vontade de beber, sei lá pq, só que deixei bem claro que eu não estava ali a namoro. Lá vamos nós pelo Itatinga, a travesti não-padrão de mãos dadas com o moço com deficiência, eu pensando noq seria mais evidente pra quem nos via, noq mais inaceitável aos olhos dos corpos modelo.

Ele compra a cerveja no bar da esquina, paga o preço absurdo da zona e faz questão de sentar na mesa mais exposta pra todo mundo nos ver. Eu, puta barata, aceito beijá-lo ali msm por uma cerveja, azamigas passando com cara de gongação, eu nem tchum. Cigarro, hálito de cerveja, ele todo aceleradão, tatuagens macabras pelo corpo, não tava valendo a pena, mas continuei. "Curte um tiro?" Eu eu? Caretíssima, curto nem pensar na ideia. "Legal, assim me seguro essa noite... ando abusando. Vc é humilde, gentil, me escuta, quero passar a noite com vc, uma noite firmeza". Bom, não tente me convencer com menos de cem reais, querido. "Pago setenta!" Tá bom, mas onde? O motel ficava a uns 15min a pé e ia custar uns oitenta a mais.

Lá fomos nós, por volta das 20h, escuridão, frio, eu com medo de doce, de levar a pior, mas algo me parecia fazer crer que ele era confiável. Vinte minutos ladeira abaixo, movimento de carros intenso, buzinas, xingos, eu e ele manquitolando naquelas calçadas pedregosas não feitas pra pedestre andar, ele todo carinhoso tentando me aquecer com abraços desajeitados no caminho. Chegamos. Primeira coisa o banho, a esfregação, ume ensaboando o corpo de outre, gozoses, brincalhudes (desliguei o chuveiro pq gastação de água me tira do sério). De lá fomos pra cama, os corpos só meio enxugados, e começou a noite propriamente dita. Pedi, antes de mais nada, os meus setenta, ele veio com papo de só cinquenta, não sabe se vale isso tudo, eu peguei e disse que por aquele valor eu vazava em uma hora. No fim, ficou por isso mesmo, cinquenta, eu puta da vida.

Na cama, o gentil cavelheiro virou ogro. Suas mãos me machucavam, ele puxava meu cabelo, beliscões, tapas, eu não gostando nadinha e não adiantava reclamar. Meu edi já machucado do pg anterior, eu sofria por antecipação oq viria em seguida e, msm a neca dele sendo piquitita, isso não me tranquilizava (eu realmente tava machucada, mas precisava voltar pra casa com um mínimo de aqüé, né?). A excitação dele era tanta em me ver sentindo dor, em ver que a neca dele, msm pequena, me machucava, que ele acabou gozando rápido. Daí voltou a ser carinhoso, me abraçou, contou do acidente na perna, das tatuagens, polícia, prisão, histórias tensas, violência, drogas, sobrevivente do massacre do Carandiru (fiquei meio incrédula qdo ele disse e ele quase cresceu pra cima de mim, "ok, acreditei"), mas que dsd então tinha endireitado e agora só restava o probleminha com pó e álcool.

No meio da converseira ele volta a me agarrar, excitado de novo, eu dizendo que a cota dos cinquenta dele já tinha encerrado, aí fiz menção de pôr roupa, ele me segurou, disse pra eu ter calma, vamos curtir, com ele não tinha miséria. Veio já logo beijando, tateando meu corpo, fazendo oq queria, eu tentando oferecer resistência, me fazendo de boneca inflável, pra ele pouco importava. Ele puxou então minha cabeça até a neca pra eu fazer o oral, peguei a camisinha, ele quis encrespar, "vc nem ouse tentar me obrigar a correr risco". Lá vou eu fazendo hora extra de graça, ele com evidente tesão, nem demorando pra gozar de novo, e aí me saiu com "agora sim vc ganhou seus outros vinte, tou saciado!" Mereço.

Daí em diante a noite foi tranquila, só conversa, carinho, vontade de se conhecer melhor, se escutar. Ele chamou um jantar pra nós ("comigo não tem miséria"), pediu conhaque fuleira, refri pra mim, fumou feito chaminé no quarto fechado, frio de rachar e nenhum cobertor naquela merda de motel (primeira vez que eu pisei no famoso Euro's, que eu fantasio ser o melhor motel da cidade dsd a adolescência: uma bela merda, isso sim). Pra não congelar, tive que me agarrar ao ogro a noite toda, dormir assim, de conchinha, morrendo de vontade de correr dali o qto antes, pq eu teria um dia cheio dsd cedinho e não há sono possível nessas condições.


quarta-feira, 27 de maio de 2015

OBJETO DE DESEJO, CORPO ABJETO

Recentemente levantou-se a polêmica a respeito de haver gordofobia em meus posts. Voltei a eles e lá estava ela, orgulhosa, melecando meus textos de preconceito que eu nem sabia que tinha. Ainda que inconscientemente, estavam ali de vingança pelo que os lixos faziam comigo, oq mostra quão complexo é o jogo das relações de poder, de privilégio... travesti gordofóbica, só faltava essa! Não mudei uma linha dos textos no entanto, mudarei apenas em livro, pra que sirvam aqui de sinalizadores da mudança que se fará notar.

Mas isso me leva tb a pensar no quanto prostitutas, e praticamente só elas, não são obrigadas a lidar, pelo menos lidar, com seus próprios preconceitos e limitações ali na prestação do serviço sexual. Me leva a pensar tb no que é e no que deixa de ser preconceito, e em como desconstruí-lo caso a pessoa se faça consciente dele. Esperar higiene, a mais burguesinha, asséptica, inodora, é elitismo? Ter que fazer oral numa neca com "cheiro de macho", como já me disseram, ainda que usando guanto, quem aqui topa? Saio diversas vezes com o rosto empesteado daquele cheiro, às vezes tb do bafo de bocas mal lavadas, cigarro. No melhor dos casos, posso me vingar sujando cuecas de batom.

Vejo trabalhadores recém-saídos das fábricas, das construções, virem requisitar meus serviços por vinte, trinta reais, antes de voltar pra casa, pra família, eu sendo a recompensa pelo dia extenuante... o fato de me pagarem tão pouco me dá o direito de exigir higiene ("cobro pouco mas venha limpinho") ou o valor irrisório é justamente oq determina a minha obrigação de aceitar oq vier? Mas, quisesse eu exigir higiene, onde se higienizariam, uma vez que eles vêm direto do serviço, uma vez que os atendo o mais das vezes no carro ou, até mesmo, atrás duma moita qqr?

Pêlos pelo corpo, peito cabeludo, posso não gostar, não sentir desejo por eles, por quem os porte? Houve um que me pediu pra eu chupar seu peito peludo, peito quase do tamanho do meu ainda que ele não fizesse uso de hormônios, homem não gordinho (esse diminutivo com funções de aumentativo, coisa tão típica da nossa hipocrisia gordofóbica) mas sim gordo... é preconceito eu perder o tesão nesse e só nesse ponto da transa, justo por conta da conjunção "chupar" + "peito" + "pêlos"? E, se for, faço oq? Chupei daquele jeito, como o meu nariz, e fui dando indícios de que aquilo me aborrecia, até ele largar mão e eu poder voltar de vez pra neca, onde me esbaldei. Depois do gozo, vi que ele ficou constrangido, como se se arrependesse doq me pediu.

Quem dentre vcs que me lêem se permitiria viver essa gama de transas, beijos, se permitiria sentir, tentar sentir, fingir pelo menos, tesão por esses corpos todos que abundam nos meus braços, corpos (assim como o meu, mas de forma diferente do meu) rejeitados pela norma, dissidentes, resistentes, preteridos, corpos brutos, gordos, negros, peludos, com deficiência, fora do padrão de beleza, de macheza, auto-estima lá embaixo, tímidos, oprimidos, travados, corpos que só se sentem à vontade conosco, que se entregam apenas em nossas camas, que precisam de nós pra não pirar nesse mundo de exclusão... por causa dos padrões algumas pessoas só sabem oq é sexo por causa das putas. Até que ponto a prostituição não existe também em função disso? Mas aguardem, q vai ter mudança de postura no blog: o ataque às normas vai se intensificar por aqui.

domingo, 10 de maio de 2015

O DIA DAS MÃES DAS PUTAS

Dia das mães, ano passado, foi a última vez que aceitei que a minha mãe me pedisse, em "respeito" à mãe dela, minha avó, pra eu usar roupas masculinas. Me senti morrendo por dentro, jurei que não teria outra vez, quase não consegui sair do quarto. Um ano já completo e ninguém da família reagiu mal à minha transição, quase como se já soubessem, ninguém a não ser minha mãe, de quem essa semana tive que escutar que na casa dela não pisa puta, exceção feita a mim, ou seja, exceção feita à puta que faz pq quer (pensando que um dia pode não ser mais bem assim) e não à puta que faz por não ter escolha.

Eu aqui, altos delírios dq seria possível voltar a morar com ela, família é família, amor, essas coisas, mas até hoje nem meu nome, aquele pelo qual me reconheço, com o qual me identifico, ela é capaz de dizer, corroborando assim com a política transfóbica que nos exclui do mercado de trabalho, das escolas, do convívio familiar, política essa que limita a nossa expectativa de vida aos 35 anos, essa mesma mãe vindo agora ainda me privar de levar minha melhor amiga (travesti e, logo, puta) na casa dela, casa que por algum sonho absurdo eu achei que tb pudesse chamar de minha. Se não pode puta, sabemos muito bem quem não pode, "essa gente" que, em 90% dos casos, tem um pé ou, melhor, o corpo inteiro na prostituição, travestis.

O curioso é que chamam de vida fácil, mas oq menos falta é puta que, por conta do trabalho sexual, hoje tem nojo de sexo, puta que com a pessoa amada evita fazer sexo (ou faz só por medo de ser abandonada), pra não ter que reviver ali, naqueles braços em que encontra aconchego, essa merdança toda que se vive nas ruas. Diazinho sofrido esse pra nós travestis, pra nós putas, o dia de nossas mães, dia das mães de putas e travestis. Amara ainda não teve mãe que lhe chamasse de filha, muito menos de Amara: quem sabe no próximo dia das mães eu não possa passar com a minha, a minha mesmo, não a do falecido que não existe mais.

domingo, 3 de maio de 2015

MONÓLOGOS DO LIXO

[parte 1: antes]
Vc é mulher? Nossa, nem parece! Coxão, corpão, bocona... não fosse o bilau ninguém diria. E como é que faz pra transar com traveco? Vc faz tudo? Nunca saí com homem, mas deu uma vontadinha agora. Vc come? Pintão? Ah os hormônios... mas um travecão gostoso que nem vc não comer é foda, ein. Se bem que nem sei se aguento, nunca fiz, mas queria saber como é.

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[parte 2: depois]
Nossa, vc é bonita, gostei... eu até namorava se vc fosse mulher. Toda bonita assim, branquinha, boca rosada, humilde, mas não dá, entende? A transa gostosa marido e mulher, o dia a dia, a cumplicidade, tudo isso ia fazer falta. Não é preconceito, é que eu gosto só de mulher. Sou louco por uma buça. Vc é pra aquela variada de vez em quando, quando cansa. Sou casado, amo minha mulher.

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Eis que me aparece o infeliz, fingindo-se surpreso por eu não ser cis ("mulher", no dialeto dele), acha que é elogio dizer que eu "nem pareço" mas já em seguida começa a me tratar no masculino, o velho papinho do "vc faz tudo?" (quer saber se eu sou ativa), do "nunca fiz antes" (sei), do "será que aguento" (será?), pra então exigir que vc tenha pintão senão não serve (e tem que ficar duro 100%). Maricona do edi roto, em bom bajubá: deve conhecer é todas. Esse aí sei lá oq viu em mim, eu cheia de bolsas recém-descida do bus, indo deixá-las na casa e me arrumar, pra só dps voltar pra rua, ele não quis saber: tem que ser vc e tem que ser agora. Foi um lixo comigo, mas acabei aceitando por conta da tranquilidade que é começar a noite com as contas em dia: oq viesse dps dali, tudinho meu!

Fomos pro drive-in, 30 reais três horas, 50 pra mim (pagou só dps, não consegui cobrar antes). Ele e seus quase dois metros, barrigudinho, já tomou o rumo da ducha assim que chegou, eu enqto isso me despindo e acondicionando as bolsas. Pediu massagem nas costas, "pode fazer forte", "dá uns tapinhas na bunda", eu começando até a sentir tesão em deixar marcas nele, em bater com vontade, ele reclamando que eu tava pegando pesado, eu achando é pouco.

Veio então pra cima de mim, me masturbou, chupou, fez o diabo e nada de neca dura, até que por fim desistiu e pediu pra eu o chupar. Fiz oq sei melhor, mas sem a disposição de qdo sou bem tratada, trabalho. Deixei a ponto de bala, prontinha pra comilança, mas neca nanica (ainda que grossa) e barriga senhora, senhor!, exige traquejo dq não disponho: não tinha jeito da coisa engrenar, a cada mexida a neca escapulindo do meu edi e, a cada vez que ele tentava encaixar, sempre um ogro, eu me machucando ainda mais (já dolorida por conta da xuca feita erradamente, ele só piorou as coisas... o outro ogro que atendi na noite completou o estrago e quase uma semana depois ainda sinto as dores).

No meio do escapole-põe, uma hora ele acabou se acabando, assim do nada, super broxante. Melhor assim. Ducha outra vez, eu tentando fazer a carinhosa pra ver se ele me pagava logo, calculando se daria conta de dar outra vez com o edi naquele estado. Por fim o monólogo final, outro lixo me achando com cara de desesperada, me achando louca pra ser a outra desse desprezível... mereço, né?, pelo visto.