quarta-feira, 22 de abril de 2015

UM ANO DE AMARA, DOIS NÍVEIS DE FODA-SE

Um ano da estreia oficial de Amara Moira chegando, o famoso primeiro de maio de 2014 (quinta feira feriado antes da Parada LGBT de São Paulo), momento em que fui pra capital só com roupas femininas na mala, compradas no crediário Marisa um dia antes, e comecei a pedir, quase pedindo desculpas, pras pessoas se possível faz favor caso não seja incômodo poderia talvez você me chamar de Amara? Boas almas, algumas, disseram que sim, pois não, e lá começou-se tudo, eu nem sabendo bem aonde queria chegar, nem sabendo se daria pra chegar aonde eu nem sabia se queria, só sei que uma hora a coisa engrenou, fulane e pra sicrane e daí pra beltrane, todo mundo do nada me chamando de Amara antes mesmo que eu dissesse oi. Oi?

Pois bem, um ano passado quase, chegando a hora de fazer balanço, é forçoso reconhecer a diferença que a "E Se Eu Fosse Puta" fez. Das dezenas de pessoas com quem transei nesse um ano, todas homens, todas programas, várias eu sentindo tesão (em especial as primeiras), outras eu violentada, delas todas nenhumazinha pessoa eu conheci longe dos domínios do Itatinga, meretrício das Campinas do Mato Grosso, o coração travesti da cidade. Triste pensar que se resumem a transas pagas aquelas que vivi nesse um ano, não poucas isso sim, mas ainda assim pagas, todas, coisa que me faz pensar. Triste porque nem ao certo sei se isso se deve a eu não estar seduzinte o suficiente, cativante, ou quem sabe a eu não estar me permitindo mesmo... ainda tenho pavor de me ver no espelho nua e não é do dia pra noite que isso vai mudar, que vou me jogar toda toda (talvez, inclusive, eu ainda precise de um bom número de pirocos me dizendo "linda" na cama e, muito possivelmente, até fazer o peito, pra achar que chegou a hora do algo a mais ou, pelo menos, do sexo não tributado).

Outra questão também me surge, o aprender a ligar o foda-se, coisa que veio das aulas práticas da Indianara a princípio e, depois, da Monique Prada (indicação pessoal da travesti babadeira ali antes). Retardei ao máximo a transição até sentir que eu já tinha condições de, através da autonomia financeira e da estima que por mim nutriam, peitar a sociedade e me fazer engolir. Meu pavor era ter de me prostituir pra sobreviver, depender disso, isso eu não dava conta, eu jamais acreditei que daria. Mas tendo já um nome, respeitada, independente financeiramente, foi muito mais fácil chegar de igual pra igual e ir dizendo "ei, favor agora me chamar de Amara e no feminino": contando com a estima de quem estava ao meu redor, negociar os termos da transição ficou bastante mais tranquilo (é isso oq muita pessoa trans vem descobrindo, a importância de transicionar depois de ingressar na universidade, longe de certos olhos, mas contando com a estima deles). O plano inicial era antes virar professora universitária concursada, passar o período probatório e então cabum! travesti, mas não houve como... bastou a primeira insinuação de bonança e me joguei de cabeça.

O engraçado foi justamente eu, que tinha horror à ideia de me prostituir, eu, que retardei minha transição ao máximo pra tentar me livrar desse caminho, mal me assumi e já fui quase de cara fazer a rua. E não só, pois, além de ir fazer programa, ainda me meti a relatar tintim por tintim tudo no meu blog, olha só, dois níveis distintos de foda-se. Razões? Oras. Carência brutal a princípio, fogo no fiofó, aí desejo de ser aceita e não mais turista, tesão por escrever vindo junto (e, gente, eu sou péssima com imaginação, meu negócio é memória!), tb um pouco me vingar de piroco lixo e, por fim, peitar o medo do e se eu fosse, do e se fosse eu, militância. Dois níveis de foda-se, porque na verdade nem precisa porquê, tudo desculpa. Puta, e se eu fosse, e se fosse eu, a puta, a travesti, a escritora?

sábado, 11 de abril de 2015

TRAVESTIS E A REGULAMENTAÇÃO DA PROSTITUIÇÃO

Prostituição não é nem nunca foi crime no Brasil, mas é como se desde sempre o fosse. Isso porque a rede de serviços que gira ao seu redor é toda criminalizada, fazendo com que na prática ela acabe por sê-lo, mesmo tendo sido, em 2002, reconhecida como profissão pela Classificação Brasileira de Ocupações (CBO). Prostituir-se no imóvel próprio não traz maiores inconvenientes a ninguém, mas fazê-lo no imóvel alheio pode levar essa outra pessoa, ainda que não receba nada com isso, a ser acusada de cafetinagem ou favorecimento de prostituição. Com isso já vemos o modelo de prostituição que estaria ao abrigo do Código Penal, aquele em que a pessoa tem plenas condições de adquirir o próprio imóvel antes de começar a exercer a atividade. Com isso vemos também a razão de qualquer travesti ou mulher trans ter dificuldades quase insuperáveis em alugar um imóvel: dado o estigma que paira sobre a categoria, "tudo puta", não há pessoa em sã consciência que queira correr o risco de ver-se associada a isso. Pior: o simples fato de morarem juntas pessoas que se prostituem, ainda que não o façam nas dependências daquela residência, faz com que ela possa ser enquadrada no quesito "casa de prostituição"... mas onde então viverão travestis e mulheres trans quando, segundo dados da ANTRA, 90% delas se prostitui (e no imaginário social todas)? Como poderiam senão viver num lugar que fosse passível de ser criminalizado pela lei a qualquer momento, o tempo todo extorquido pela polícia corrupta?

Regulamentar as casas onde se exerce a atividade, eis uma das novidades do Projeto de Lei Gabriela Leite. As casas sim, porque quem de nós teria, já de cara ou mesmo em qualquer momento de nossas vidas, condições de adquirir um imóvel onde exercer a atividade? Alguém precisa possuir essa casa e cuidar de sua manutenção, contas, limpeza, troca de toalhas e roupa de cama, segurança, decoração, divulgação. Quanto isso custa? Depende. Segundo o PL Gabriela Leite, a pessoa proprietária pode ficar com no máximo 50% doq a prostituta recebe em cada programa realizado no interior da casa. Mas criminalizar a cafetinagem a priori, sem querer primeiro avaliar as condições de trabalho existentes no interior daquela casa, é no fim das contas condenar prostitutas a trabalharem sempre para uma pessoa criminosa, pagando o preço dessa ousadia, ou, então, a terem que fazer a rua, um espaço que sabe ser muito hostil com a trabalhadora do sexo e que sabe obrigá-la a pagar alguém para que ela possa exercer sua atividade com um mínimo de paz (em geral a polícia). Regulamentar as casas é oferecer opções para a pessoa que se prostitui, é também permitir que nós, pessoas trans e travestis, tenhamos acesso ao aluguel de imóveis, é também permitir que o trabalho sexual possa ser realizado em qualquer tipo de espaço, inclusive o alugado em imobiliárias: afinal, por que razão ele deveria estar segregado apenas aos becos escuros, quartos pulguentos, drive-ins, motéis?

Aliás, não se pode lucrar com a prostituição alheia, nem favorecê-la, mas isso não se aplica a motéis, nem a sites de anúncio ou classificados de jornais. Só que se eu emprestar dinheiro para uma amiga ir se prostituir na Europa ou noutro canto qualquer do Brasil, estarei correndo o risco de ser enquadrada sob o crime de favorecimento da prostituição ou até de tráfico de pessoas. Agora, se prostituição não é crime, por que razão o favorecimento disso o seria? Hipocrisia, oras, e demonização da cafetinagem. Só quem é travesti ou mulher trans prostituta pra entender a razão de chamarmos cafetinas de "mãe": demoniza-se a cafetina, mas não a família que nos expulsa de casa adolescentes, a escola que não se compromete com nosso acesso e permanência, o mercado formal de trabalho que fecha suas portas para nós, os hospitais que estão se cagando pras nossas demandas. A ideia de família que temos em mente não é, nem nunca foi, a dos comerciais Doriana.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

AQUELE DRAMALHÃO QUE VCS BEM GOSTAM

Dia pra pôr à prova a minha misandria. Domingo de Páscoa, Itatinga às moscas, foi só descer do ônibus e já chegou chegando um cliente, "oralzinho por dez, faz, vai?" Eu já até desacostumada de versentirter neca nas mãos-boca aceitei meio quase que só por vício, saudade mesmo, mas não sem antes fazer aquele cu-doce delícia. E valeu, ganhei um montão de confete. Necona nervosa pulsando pra fora da calça, ele querendo que eu abocanhasse ali mesmo na kombi, enquanto ele dirigia, e lá fui eu. Até cogitei sem guanto, outra vez por conta do vício, mas aquilo é trabalho e não farra, então tenho que aprender a separar bem as coisas (e sem esquecer da importância de educar esses lixos tb). Camisinha posta, a brincadeira não durou aquele quarteirão: foi duas engolidas mais servidas, fundudas, daquelas de tocar a úvula [lembrei até dum trocadalho horrendo dum amigo machão, macho até demais, que qdo lhe perguntavam se tocava instrumento ele respondia que tocava úvula, tocador de úvula, péssimo], e ele já veio com "calma, calminha, gozei, faz carinho agora". Me deixou no meu ponto em seguida, mas não sem antes dizer que tava ali na surdina, depois de conseguir uma escapadela das garras ferozes da patroa (palavras dele), o espírito pascoal gritando na cara de pau dele. Dez no bolso logo de cara, muito mais fácil decidir trabalhar nessas condições.

O friozinho de sempre, ameaça de chuva, lá fui eu pro meu ponto perto da lombada, bom pq o carro tem que obrigatoriamente dar uma desacelerada e, nisso, é forçado a pelo menos avaliar o material. A maioria ainda assim passa batido, mas vários já decidiram parar qdo eu os atiçava subindo a lombada: um sinalzinho com a mão, "vem cá", aí o cidadão para e o resto é comigo. O segundo da noite foi um caso desses. Homenzarrão simpático, barrigão proeminente, carro chique, se interessou pelo material e pelo pacote de trinta (completo no estacionamento) e lá fomos nós. Pagamento adiantado, ele sai do carro pra eu fazer lá fora oq sei de melhor, no escurinho nem tão escuro assim do estacionamento (teve mona que ficou espiando pra dps me gongar, pode?). Zíper se abre, não resisti e dei umas lambiscadas só pra sentir o gostinho -- ai que saudade! --, mas logo que se endireitou pus o capuz e bora. Murchou um bom tanto encapuzado, bem mais difícil deixá-lo a gosto nessas condições (fora que o gosto é uma droga), só que trabalho é trabalho e eu continuei, e mais fundo, e mais, e aí "calma senão devolvo o jantar", tomo um respiro, a ânsia de continuar continua, aí segue-se igual antes, ele ajudando com a mão. Entre idas e vindas várias, eu ali agachada sentindo a minha panturrilha espernear, uma bendita hora o cidadão pede que eu levante e chupe a peitchola peluda dele, maior que a minha por sinal. Todo o tesão que até aquele momento eu sentia se escafedeu mas fiz, ele lá se tocando alucinado e "que delícia", eu só querendo que acabasse logo. Qdo cansei daquilo, voltei a agachar e aí foi mais fácil seguir até o final, voltou até o tesão (o meu)...

No fim, cabou-se tudo, ainda tive que fazer acrobacia pra encaixar a neca irrequieta na calcinha!