sábado, 7 de fevereiro de 2015

AS HOMICES DOS OMICIS

Não sei se por estar trabalhando em texto (e com isso forçando uma racionalização) os programas que faço, ou se por a coisa ser violenta mesmo e eu só aos poucos estar me dando conta da situação, a questão é que cada vez mais, cada novo cliente que me aparece, a experiência da rua se torna mais parecida com uma experiência de abuso, assédio, estupro... se a camisinha arrebenta e o cliente tenta continuar assim mesmo (fico pensando até se ele não a arrebentou de propósito), se percebo ele tentando inclusive começar a transa sem camisinha, se o cliente força a barra para que eu faça coisas que não estavam no combinado, as histórias que ouço de cliente que tirou a camisinha sem a travesti perceber, ou que pôs uma arma na cabeça dela e a obrigou a dar sem camisinha, as violências verbais todas, as falas a respeito da esposa ("sou casado, então não dá pra vacilar"), tudo tem transformado radicalmente a experiência da prostituição pra mim.
Se no começo havia algo de prazer, dada a carência própria em que eu me via (carência que ainda está aqui firme e forte), agora oq mais sinto lá é dor... e aí quando volto pro meu outro mundinho, esse da universidade, das pessoas supostamente mais inteligentes, encontro as mesmas escrotices, só que feitas de maneira mais sutil, piadas com apologia e naturalização do estupro, homens desfilando orgulhosos suas amantes, se divertindo em considerar cada mulher que vê pela frente uma possível presa, silenciamento de mulheres ("se vc não sabe se comportar nesse mundo de homens inteligentes, então se cale e escute e aprenda"), o profundo foda-se que ligam para a situação particular que muitas delas enfrentam na universidade (o caso das mães solteiras, p.ex.). Tá difícil lidar com tudo isso sem estabelecer uma ligação muito direta entre oq é ser homem cis e oq é violentar (por mais que eu concorde com oq disse uma amiga, q estabelecer essa conexão acaba por apagar as violências que mulheres sofrem nas mãos de outras mulheres, nas mãos de homens trans, etc)... talvez até por isso estou fazendo o meu melhor pra transformar radicalmente a pessoa que sou, pois o homem que fui tb era escroto e nem ao menos ele/eu se deu conta disso em vida e nem ao menos ele/eu se importou em querer se dar conta disso em vida.
Rir mesmo, só dá imaginando o conto-bomba que tá preparando a Geisa Maranhão, amiga travesti lá do Itatinga: "Uma maricona pra chamar de minha". Esse promete, esse vai certeza pro livro de histórias do bairro (eu mesma acho que ainda roubo a ideia pra contar um relato, se ela demorar muito! rsrsrs).

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