terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

AQUELE LUGAR, QUALQUER LUGAR E O NADA [por Vitória N., post convidado]

"Último mês de contas, logo depois poderia fazer outro carnê para investir no produto; eu. Confesso: não sou de muita conversa. Telefone toca e se atendo de primeira é porque preciso de grana, falo o que faço, quanto cobro e mando não demorar para me buscar porque o tempo é precioso. O cretino disse que chegava logo, aproveitou para reclamar por não ter sido atendido na semana anterior, falei que estava ocupada; nem estava, deixei no silencioso e aqui ninguém me alcança. Só passei maquiagem, a roupa já estava pronta. Não demorou, logo estava acenando pra entrar logo no carro porque o local de encontro estava movimentado. Carro mal cuidado, celular com tela quebrada, roupa suja. Perguntou se podia me levar em qualquer lugar, respondi que podia.
Calma: achei que estava falando sobre o drive-in ou motel. No máximo, a casa dele. Entrou numa rua estranha, indo pro meio do mato em qualquer parada ali da estrada "pra onde está indo?" O cretino acelerou pro meio da estrada de terra e respondeu o óbvio "ali no canavial", mandei voltar, sou puta, não sou louca, quero grana, não quero um maluco me levando pro meio do nada. Não voltou. Falou que não tinha grana pra drive-in, aliás, não tinha nem os cem reais que pedi, mas estava ali, louco pra dar uma rapidinha. Olhei minha cara no retrovisor; aquele batom rosa na boca e uma calma até suspeita em mim. Quando você é puta, penso eu, já conta com dias ruins. Deu uma parada, jurou que me levaria embora mas queria dar uma olhada no "material". Aquela mão meio áspera, demasiadamente indesejada, veio pra dentro da minha roupa, pra dentro da minha calcinha. Queria ver, jurou, só ver. Eu não faço show, não pago pra ser vista, mas ali no meio do nada é inútil explicar como funciona. Mentiu novamente, botou a mão imunda. E eu, olhando a cara meio besta no retrovisor do carro, vou fazer o que? Língua de puta só tem poder entre quatro paredes. Não, eu não acho isso, mas eles sim. Ficou lá o quanto quis, até ser tomado por um pequeno arrependimento que o fez funcionar o carro e sair daquele lugar: "Olha, vou em casa procurar alguma grana, você espera aí no carro", quando chegou, fiquei uns minutos até me sentir realmente furiosa. Dei aquela última olhada no espelho, abri a porta e corri nas calçadas tortas, daquelas casas interioranas de portas sempre fechadas para as mini tragédias que ocorrem ao lado."

[Vitória N. é a mais nova colaboradora da página: mulher cis, prostituta, escritora]

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