terça-feira, 2 de dezembro de 2014

JANAINA LIMA, PROSTITUIÇÃO E PL GABRIELA LEITE

JAQUELINE FURACÃO
A prostituição, ela é um assunto polêmico até mesmo dentro do feminismo, não existe um consenso sobre a prostituição. Tem feminismo que diz que empodera a prostituta, mas por outro lado tem feministas que alegam que a prostituição é opressora pra mulher e que a regulamentação da prostituição seria a regulamentação da exploração e são diferentes pontos de vista. Eu gostaria de saber de você, Janaina, o que você pensa da prostituição e da regulamentação da prostituição.


JANAINA LIMA
Bom, o que que eu acho da prostituição. Tem uma confusão grande que as pessoas fazem às vezes. A prostituição em si é um mundo, um ato, aquela situação, né?, só que ali dentro você tem pessoas que são profissionais do sexo, pessoas que são exploradas, pessoas que são exploradores. Essa divisão talvez, ela não é tão demarcada ou não é tão levantada, parece que quando a gente fala prostituição a gente junta tipo assim "é só as mulheres que estão se prostituindo e acabou". E não é isso, a gente precisa aprofundar um pouco mais a discussão. Em relação à regulamentação, o que mais me aproxima vai ser o projeto de lei do Jean Wyllys, que é pra regulamentar a profissão do sexo. O muito doido é que quando eu leio aquilo ali, eu enquanto profissional do sexo, eu não consigo ver benefícios pra mim, a não ser para uma outra parcela da população, que tá dentro da exploração e que se encaixaria nessa divisão, na minha concepção (e é muito bom frisar, porque o que eu estou dizendo aqui é o que eu acredito, é o que eu vivo e vivencio, e aí pode ser que eu esteja errada, mas pra estar errada me apresenta uma justificativa bacana, porque não vem falar que é pecado, que depois eu me acerto lá no Juízo Final). Minha posição é essa, porque o projeto em si parece que ele só ajuda, contempla, vai beneficiar de fato os exploradores, ou quem vive da situação de pessoas que estão ou prostituídas ou das profissionais do sexo. Eu não vejo nenhum projeto de fato, mesmo porque no Brasil, acho que é legal frisar por exemplo, não há nada que proíba que eu faça programa – o que eu preciso é ter consciência de que é um trabalho autônomo, então eu posso de repente criar um CNPJ, abrir uma firma e pagar impostos daquilo, ou eu posso contribuir com a previdência como uma ocupação. Então isso já existe, eu não entendo esse projeto de regulamentação que, pras profissionais de fato, elas não levam vantagem nenhuma, ao contrário. O que eu percebo dentro da regulamentação que é discutida (e aí é a minha visão novamente) é: vamos dar legitimidade, vamos trocar o nome de cafetão pra patrão, vamos trocar o nome do explorador para alguém bonzinho, digamos assim. Essa é minha visão e é o que eu vejo, e é o que eu leio e interpreto quando eu vejo o projeto de lei escrito aí, e quando eu vejo a discussão na boca das pessoas também. Eu não vejo de fato nada que diz, olha, isso de fato vai melhorar, porque por exemplo eu, eu vivo, eu faço programa, mas ao mesmo tempo que eu faço programa eu tenho que fazer um monte de atividade paralela pra complementar renda, porque eu não posso viver do programa. E por que que eu não posso viver? Porque eu não tenho segurança, porque eu não tenho um serviço de saúde que contempla (o que ninguém tem, e aí não é só as profissionais do sexo; é brasileiro, dançou, se depender do SUS já era, e do particular também não é diferente – não se iluda, vai gastar dinheiro e não vai adiantar). Então é isso, eu não vejo vantagem pra mim: não me dá garantia na segurança, não me dá garantia em inclusão na educação, não me dá garantia em basta nenhuma. A única coisa que me dá garantia é que eu vou ter que dividir o que eu ganhar, em vez de dividir com o meu cafetão, se eu tiver um, eu vou dividir com o meu patrão, e ainda vou dar uma parcela maior de imposto, porque eu já pago imposto até da bala que eu chupo, eu vou pagar imposto da minha profissão também. É a minha visão.

LARA PERTILLE
Jana, só deixa eu fazer um adendo. Eu não vi muito sobre o projeto, mas não melhoraria pras pessoas que trabalham em casa? Porque eu acho que, hoje, as profissionais do sexo que trabalham em casa, isso é caracterizado crime porque o cara explora as meninas. Com o projeto, não melhoraria? É uma pergunta mesmo, porque, claro, se você trabalhar e não tiver um cafetão, o dinheiro é todo seu, problema seu, mas, regulamentando com a lei, elas não poderiam trabalhar nessa casa, teria segurança, carteira assinada? A ideia da lei não seria essa, um funcionário, registrado?

JANAINA LIMA
E de quem seria essa casa? Então, quem vai ganhar é o dono dessa casa, o patrão dessa casa, ou, se for uma casa do governo, vai ser o governo que vai ganhar. A ideia que vende da lei, num primeiro momento, é essa, mas num segundo momento é: "por que que eu vou regularizar uma casa de prostituição?" Então eu não tou regulamentando a profissão, eu tou regulamentando a casa, e então já não é profissão, porque a profissão não tem nada que fala que não pode. Aí, se eu quiser, eu posso contribuir, tal tal.

LARA PERTILLE
Mas aí você ganharia todos os seus direitos, não ganharia? Direitos de um funcionário comum, férias, décimo terceiro, essas coisas. Eu quero dizer assim, ó: você está trabalhando pruma casa, claro, a maior parte ficaria com o cafetão. Em tese você por exemplo poderia tirar férias, em tese se você fosse mandada embora você teria todos os seus direitos resguardados, o que hoje não tem – se você parar de fazer, você vai se virar. E nem sei se vai funcionar, mas não seria para isso?

JANAINA LIMA
Sim, em tese, mas e na prática. Pensa hoje, digamos que um programa seja 50 reais: ele é meu, eu fiz o programa, paguei. Se eu vou lá na casa, uso a casa, pago uma taxa, é outra coisa, mas esses 50 é meu. O que eu vou pagar à parte, isso já existe em qualquer lugar que rola profissional do sexo, que tem uma pessoa trabalhando, isso que é legal lembrar, você tem uma rede de exploradores. E é doido que é muito contraditório, por exemplo, você tá lá batalhando e vai chegar o vendedor de brinco, que ele tá ali dependendo do dinheiro que você vai fuder com o cara para pagar o brinco, a tiazinha da Igreja Universal que vende o lanchinho, ela tá ali te secando pra que você ganhe um dinheiro e coma o lanche dela pra ela levar o dinheiro, a outra tiazinha que lava a roupa porque você não tem tempo. Quer dizer, até aí eu tou vendo só benefício pro outro. Aí você me diz que, de todo esse dinheiro que tenho que dividir com todas essas coisas, eu ainda vou ter que dividir a minha taxa com o meu patrão, que eu não tenho hoje. A opção de trabalhar na casa já existe, a única diferença é que dentro do projeto de lei eu tou regulamentando a casa: pra mim, Janaina, não tem diferença. E, aí, pra isso, a casa ia fechar pra mim uma meta de programas, vou ter que fazer 100 programas no mês pra fechar a meta? Aí eu me fudi, gente. Eu não vejo saída nesse projeto de lei. Por exemplo, digamos que o programa é 50 reais, se chegar 10 pessoas, o cara fechar o pacote lá, eu tenho que fazer, entende?, eu sou funcionária dele. Hoje, por exemplo, eu posso falar "pô, não quero sair com aquela pessoa, que não simpatizei com ela"; se eu sou funcionária, eu tenho que fazer e calar a boca, percebe? Quer dizer, isso já acontece entre aspas com o explorador; o que eu estou fazendo agora é dando "ó, explorador, você não vai mais preso, porque agora você vai ter uma legislação, que vai poder registrar aquela pessoa e, aí, ela vai ser de fato tua autoridade, com a lei agora te garantindo. Pra mim, a visão é essa, posso estar enganada. [JAQUELINE FURACÃO: A aposentadoria, né, que travesti chega na idade de se aposentar?]. É, então. O pessoal fala muito o  futuro, qual futuro? A maioria das travestis que se assumiram comigo lá atrás, a maioria já, beijo, infelizmente partiu. [...] Quando a gente fala de prostituição, a gente fala dum mundo e aí envolve quinhentas pessoas, milhões de pessoas. O que cabe lembrar é que a maioria das pessoas que estão na prostituição, elas são exploradas, e eu chegar lá com um projeto, falando, olha, isso aqui vai melhorar a sua vida (e aí cabe a gente lembrar que a gente tá no Brasil, que a nossa educação é deficiente no geral, desde o ensino infantil até a universidade, e aí, me desculpa, eu já fiz universidade – sou formada em psicologia e sei do que eu tou falando). A nossa educação, desculpa, gente, me falaram pra ficar à vontade, mas eu não vou tirar a roupa mas eu vou dizer, tá uma meeerda. De verdade. Aí você me dizer que eu vou chegar lá, pruma tiazinha que tá sendo explorada há vinte anos, falar pra ela que ela vai se aposentar, é lógico que ela vai ficar feliz, lógico que ela vai assinar o aval do projeto. Nós estamos falando de pessoas que têm deficiência de ler, ler não é pegar o papel e só ler o que tá escrito: eu tou falando de tradução, de interpretação, de saber o que está dizendo ali nas entrelinhas, e isso não é dito. Na prostituição, a grande maioria tá fudida, tá com cafetão, e aí tem uma proposta dizendo "olha, seu cafetão vai embora e vai entrar um patrão, vai ser bom, você vai se aposentar, tem férias". Mentira. Isso não está sendo discutido com as pessoas que, de fato, são profissionais do sexo, porque a profissional do sexo é profissional, já sabe o que tem que fazer e faz, ela não tá ali "ai, eu só faço isso porque eu não tenho outra coisa pra fazer, porque a minha vida é uma merda". E aí trazendo a questão de diferenciar mulheres de travestis e transexuais: a maioria das travestis e transexuais que forem de classe social baixa, vai tá enfiada na prostituição; se for de uma família evangélica moralista, vai tá na prostituição, entendeu? A maioria vai pra lá e não vai porque quer, daí você pinçar de fato quem é de fato profissional, que tá se identificando e falando "não, eu sou profissional" – eu, por exemplo, eu digo, eu sou profissional por quê? Porque eu faço tranquilamente, eu sou o que fazer, se alguém quiser pagar a gente vai pro privado, quer fazer no aberto a gente faz também, e eu sei o que eu faço e o que eu tenho que fazer e eu vou dar conta e a pessoa vai, no tema aqui hoje, gozar e ficar feliz. É bem esse papo. As outras pessoas, a grande maioria, tá ali porque não tem mesmo outra opção, de fato, tá sendo explorada. Eu chego lá, vendendo uma ideia, é lógico que a grande maioria vai assinar embaixo, porque ela quer se ver livre daquele estereótipo, estão dizendo "ó, você vai ter uma profissão". Mentira, você vai ter um dono, um patrão, que vai estar agora com um documento falando "ó, agora é meu".

CAROL CONSTANTINO
A gente ouve, de algumas pessoas, o discurso de que a prostituta, ela às vezes é vista como um objeto, porque o gozo do cliente ali é o foco. Mas existem outras pessoas que não pensam assim e aí a gente estava curiosas pra saber de você o que você pensa sobre isso: há mesmo essa objetificação do corpo da prostituta? Ou não?

JANAINA LIMA
Acho que há uma objetificação de todas as pessoas, na sociedade aonde a gente vive isso é unânime, 24hs, TV, rádio, música, até numa performance que a gente faz a gente acaba fazendo isso de alguma forma. Ficou muito claro aqui, nas próprias danças e na última pessoa que entrou (inclusive eu ia me oferecer pra ajudar, mas daí eu lembrei que eu sou profissional, ia cobrar, não falei nada pro evento, fica complicado). O que eu vou tentar novamente é tentar diferenciar a pessoa que tá em situação de prostituição da pessoa que é profissional do sexo. Isso é diferenciar. Porque a pessoa que contrata uma profissional do sexo, ela tá contratando um serviço, uma mão-de-obra como qualquer outra. E aí me desculpa, os mais moralistas, os mais de cabecinha fechada, porque eu não consigo ver diferença de fazer um programa com uma pessoa e construir um projeto pra uma pessoa e dar aula pra uma pessoa e lavar o banheiro duma pessoa. O que vai ter aí é o que eu gostaria de fazer, o que eu gosto de fazer, o que eu faço por necessidade e o que eu não faria de jeito nenhum. É tentar diferenciar isso. Porque tem gente que jamais trabalharia de eletricista pendurado num fio, mexendo com a voltagem, porque sabe o risco que corre. Tem gente que não consegue transar com outra pessoa nem afetivamente, quem dirá cobrando um dinheiro. E tem gente que deve achar horrível, uma exploração imensa, uma diarista ganhar uma mixaria ou a empregada doméstica ganhar uma mixaria e ter que lavar a merda do outro no vaso, porque isso acontece. Então pra mim, se for pra pensar nessa classificação, eu por exemplo eu não consigo ver isso. Eu consigo ver essa objetificação , essa pessoa-objeto, em todos os lugares, o tempo todo – na nossa olhada a gente pensa "puta, adoraria ficar com aquela pessoa, mas se eu ficar com ela na balada os outros vão falá, então vou ficar com a outra que tá mais dentro do padrãozinho bonitinho". Isso diferencia, e diferencia também pro cliente, porque o cliente vai procurar... o que que ele tá procurando? Ele quer uma figura só em si ou ele quer saciar o desejo, ele quer gozar, ou ele quer fazer alguém gozar e ter aquela sensação? Isso tem que ser diferenciado. Isso talvez tenha que ser melhor pensado e discutido.

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