terça-feira, 30 de dezembro de 2014

AMARA MOIRA ENTREVISTA BÁRBARA AIRES, PROSTITUTA, EX-PRODUTORA GLOBAL

AMARA MOIRA: Olá! Meu nome é Amara Moira, moderadora da página "E Se Eu Fosse Puta – Amara da Depressão", e estou aqui hoje com uma ativista fabulosa que veio falar pra gente um pouco sobre esse mundo da prostituição, esse mundo da transexualidade. O nome dela é Bárbara Aires, mulher transexual, ativista e ex-produtora do "Amor e Sexo" da Rede Globo, ou seja, uma transexual que conseguiu inserção no mercado de trabalho, e a gente vai falar sobre isso. A gente podia começar falando sobre isso, a escolha, o poder escolher a própria profissão, a relação disso com a prostituição... como você vê essa questão?

BÁRBARA AIRES: Olha, para as pessoas trans no geral, eu acho maravilhoso e é uma realidade que a gente não conhece. São pouquíssimas, digo até raras, as pessoas que puderam escolher a profissão que elas queriam. Na maioria das vezes, principalmente quando você fala de transexualidade feminina, elas estão automaticamente estigmatizadas com a prostituição. E aí a prostituição, que é uma profissão digna e tem todas as suas questões, fica uma coisa de imposição, não é uma escolha, não fica uma profissão de "ah, eu vou trabalhar com sexo porque eu quero". Então, é algo a se pensar, as pessoas trans em geral não escolhem a profissão pela profissão.

AMARA MOIRA: E, aí, fico pensando, você tem uma trajetória em que você trabalhou com prostituição, aí de repente você é contratada pela Rede Globo, onde você fica dois anos como produtora do "Amor e Sexo" da Fernanda Lima, e aí você de repente sai do programa no final do ano passado e volta agora pra prostituição. Como é esse retorno?

BÁRBARA AIRES: Péssimo. Costumo dizer "antes eu não tivesse sido contratada", porque eu tinha toda uma expectativa, eu tinha toda uma programação de futuro na minha cabeça. Porque, como qualquer outra pessoa profissional, a pessoa trans também vislumbra uma carreira, eu também quero ter um emprego, que eu comece de baixo, vá crescendo, vá crescendo, vá crescendo e vire uma puta duma profissional, né? E eu esperava isso lá, eu contando com isso... porque eu já tinha passado da fase de experiência, já tava mostrando serviço, mostrando trabalho – eu acho que, se eu fiquei contratada dois anos, não é porque eu era uma má profissional. E aí, para mim que não gosto da prostituição, de ter que ir para a rua etc., para mim foi muito complicado. Demorei pra assimilar essa coisa de "não trabalho mais", passei por alguns momentos bem complicados, tipo, uma semana pra pagar o aluguel e não tem um real, e aí você tem que ir, você tem pouco tempo pra fazer esse dinheiro. E as pessoas não param pra pensar que as pessoas trans – no caso, não posso falar as pessoas, porque no caso dos homens trans a prostituição não é uma realidade, pelo menos não a maioria... enfim –, mas pras travestis e transexuais, as pessoas não param pra pensar que ela está ali porque precisa de dinheiro, porque a prostituição é isso, dinheiro rápido.

AMARA MOIRA: Bom, você falou que não gosta de se prostituir, mas acaba sendo compelida, obrigada, eu fico pensando, então, como é, como foi, como tem sido a sua relação com clientes? A dificuldade, o que você não gosta na profissão, está ligada ao quê, por exemplo?

BÁRBARA AIRES: Olha, é até complicado assim, nem poderia tá falando sobre isso, que, como eu vivo de prostituição, é meio que tipo dizendo "não saiam comigo". É complicado porque, enquanto mulher transexual, eu estou dentro da caixinha, fui criada para isso: certo ou errado, não sei, mas essa é a minha realidade, esta é a Bárbara, tou falando por mim. EU não gosto de ser tocada no pênis, não gosto de sexo oral e eu não gosto quando o homem olha pra mim e aí ele faz e aí ele olha assim um pouco não sei o quê, aí ele olha pro pênis e "ai, nossa, você é linda". Mas ele não tá olhando pra minha cara, tá olhando pro pênis... ele não se preocupou em pegar no meu peito, ele não olhou minha bunda, ele não reparou no meu cabelo, aí a primeira coisa que ele vê, que ele foi, é o pênis, aí ele tá lá no meu pênis não sei o quê, aí do nada ele olha pra mim e "ai, você é muito gostosa". Não, não sou eu, e isso me incomoda muito. Mas eu sou profissional, eu preciso trabalhar, preciso pagar minhas contas como qualquer outra pessoa, então eu lido com isso da melhor maneira possível, né? Eu tenho os meus limites enquanto profissional do sexo, mas vou, tenho essa questão de ser uma boa profissional. Trabalho com sexo? Trabalho com sexo. Então vamos lá. Porque eu acho importante que, em qualquer área que você esteja, você tenha responsabilidades, você seja profissional, isso eu acho super importante. [AMARA MOIRA: Pouca gente trabalha realmente com o que gosta, né?]. Nem todo gari gosta de ser gari. Quem trabalha com o que gosta é porque escolheu, foi lá, fez uma faculdade, tem uma profissão e trabalha naquela profissão que ela fez a faculdade. Agora, o balconista do bar gosta de ser balconista? O chapeiro da padaria gosta de ser chapeiro? Então, é uma coisa que eu acho que a gente tem que parar pra pensar. Eu acho até que a questão da prostituição e da empregabilidade das pessoas trans traz à tona uma realidade brasileira muito além disso, a questão de "a maioria das pessoas não trabalham com o que gostam", independentemente de ser trans, de ser cis, homem ou mulher.

AMARA MOIRA: Bom, você falou um pouco sobre a questão da empregabilidade, mas a empregabilidade não é o único problema que travestis e transexuais enfrentam. Fico pensando, p.ex., na questão de aluguel duma casa, relação com moradia: como é isso para você?

BÁRBARA AIRES: Acho que não só pra mim como pra grande maioria, a realidade das travestis e das mulheres trans já foi mais do que super explorada quanto a isso, porque você põe no YouTube, procura nos canais de TV, o que vc mais vê são as travestis e mulheres transexuais morando amontoadas na casa de uma travesti ou transexual mais velha, que já conseguiu dinheiro, comprou e aí aluga vagas, oq a gente chama de casas de cafetina, pensionato, enfim. Quando não é assim, você mora numa casa que é alugada por temporada, com um aluguel super inflacionado, porque você vai na imobiliária – você pode estar o mais bem vestida que for, você pode ter o extrato bancário que for, você é muito bem tratada até a hora que vêem o seu RG: na hora que você apresenta um documento em que seu nome é masculino e você está ali com uma imagem feminina, cabou, já tem outra ficha na sua frente, a gente volta a entrar em contato caso seja aprovado... Porque tem todo um estigma atrás da pessoa trans, ai, ih, é travesti, vai fazer bagunça, vai dar festa todo dia, vai beber, vai se drogar, vai fazer prostituição, vai fazer programa aqui dentro, não, não quero. As pessoas não param pra pensar que tem travestis e transexuais que são cabeleireiras, maquiadoras, vendedoras, advogadas, médicas, e que precisam de um lugar pra morar, que não se drogam e que não bebem, enfim, e que vão pagar o aluguel, como qualquer outra pessoa. Essas questões todas eu acho que nem deveriam ser questionadas, porque a partir do momento que você está pagando o aluguel a casa é sua: só não tem que destruir a casa, e se destruir que você devolva no estado em que você pegou. As outras questões são de foro íntimo.

AMARA MOIRA: Bom, eu sei também que você já trabalhou em vários lugares, estamos aqui em São Paulo agora, gostaria de saber se você poderia fazer um panorama de como é trabalhar aqui no centro de São Paulo, principalmente na rua, e trabalhar lá na Lapa, na Barra da Tijuca no Rio, dois lugares onde você trabalhou.

BÁRBARA AIRES: A maior diferença entre São Paulo e Rio é valor, quando você fala de centro de São Paulo versus Barra da Tijuca. Centro de São Paulo a gente sabe que é um bairro em decadência e Barra da Tijuca é uma área nobre lá do Rio de Janeiro, então a diferença é muito grande – em termos falados, é o dobro, em termos reais, lá ganha mais do que aqui. E tem também a questão da degradação, a questão de estar no centro de São Paulo, drogas, bebida, marginalidade, tudo isso. Lá na Barra da Tijuca é mais elitizado, em todas as questões que você parar pra analisar, tanto financeira quanto de clientes. Agora centro de São Paulo versus Lapa eu acho muito parecido, tanto de valores, quanto de clientes, quanto de marginalidade... são realidades bem parecidas. [AMARA MOIRA: E a relação com a polícia, estando na rua, p.ex.?]. Olha, quando eu comecei há dez anos atrás, eu ainda peguei um pouco de ter que correr da polícia, da polícia bater na gente com cassetete, não querer deixar ficar ali. Hoje em dia a gente vive uma outra realidade, a polícia passa e dá boa noite, pelo menos no Rio de Janeiro: passa, dá boa noite, cumprimenta, vê se tá tudo bem, a gente vive uma realidade muito grande de respeito a nome social, identidade de gênero, uma outra realidade enquanto tratamento. Mas em contrapartida a gente também tem as questões de abuso de poder quando é uma menina trans que tá sendo presa porque cometeu um ato infracional, a gente tem a questão da corrupção, de suborno. Melhorou, mas é óbvio que não é ainda 100%, e óbvio que assim como tem o policial que é racista e acaba agredindo um negro porque ele é suspeito, tem o policial que é transfóbico e agride uma transexual porque ele acha que ela é marginal – isso ainda existe, mas não é como era antigamente.

AMARA MOIRA: E você já trabalhou também por sites. Qual a vantagem e desvantagem de trabalhar por sites?

BÁRBARA AIRES: Olha, a única desvantagem que eu vejo em site é, dependendo da pessoa, a questão da exposição, de resto só vejo vantagem. O programa é mais caro, tem que ter o privê pra receber (porque você ganha muito mais – se você só atende em motéis e hotéis ou local do cliente, você vai ter menos clientes). Mas assim, o valor é muito maior e o cliente já tá vendo ali o "produto" (abro aspas porque tem muita gente que não gosta, mas eu lido muito bem com essa questão de ser um produto, em oferta, e estar prestando um serviço, isso pra mim não é um problema). Ele já tá vendo e escolhe, te liga, combina, eu acho muito mais tranquilo. O meu problema inclusive, até acho importante deixar isso claro, porque as pessoas confundem um pouco, saíram até umas matérias falando "transexual vira produtora da Globo e deixa as ruas", e muita gente traduziu o "deixa as ruas" como "deixa a prostituição": em momento nenhum da minha empregabilidade, eu falei que deixei a prostituição. Obviamente eu não saí explanando porque estava representando uma empresa, então você não tem que sair por aí falando assim "olha, eu estou me prostituindo, por favor me liguem, me procurem". Não. Mas óbvio que eu tinha clientes que tinham meu telefone e que me ligavam e eu atendia, até porque eu entrei na Globo ganhando um salário de mil reais e todo mundo que mora no Rio de Janeiro sabe a realidade do Rio de Janeiro e com mil reais você não sobrevive. Naquela época você ainda sobrevivia em alguns lugares, hoje em dia com mil reais você não sobrevive nem na comunidade. Então, assim, deixar bem claro que eu nunca larguei a prostituição, esse momento ainda não chegou, quando chegar eu vou deixar claro: larguei a prostituição. O que a Globo me possibilitou foi a saída das ruas, eu não gosto de ir para a rua, me incomoda muito essa coisa de ter que ir para a rua, de estar ali em pé, exposta, sendo escolhida, e ver outras trabalhando e você fica lá, essa coisa da competição que a rua cria internamente, acho isso muito complicado. [AMARA MOIRA: E a negociação com o cliente, na rua e no telefone, p.ex.?]. É igual. Porque os interesses deles são os mesmos, valor, o que você faz e quanto tempo você fica. Então isso não muda muito, não. Depende aí das suas limitações pessoais, do que você faz, do que não faz.

AMARA MOIRA: Eu sei também que você teve uma carreira, não sei se ainda tem na verdade, com filmes, você fez vários filmes. Você prefere fazer filmes a trabalhar como prostituta? Você vê isso como prostituição, o que é pra você fazer filmes?

BÁRBARA AIRES: Não, o fazer filmes é para mim um mercado do sexo, obviamente, e é uma atriz, ponto. Porque você não tá ali fazendo uma coisa que você faria se não tivesse levando, então é um trabalho e é uma atriz, você está atuando. De repente aquele ator que tá ali comigo eu nem transasse com ele se eu conhecesse ele, por livre e espontânea vontade. Eu vejo como normal, tranquilo, não entendo o tabu que tem. É um mercado que ganha muito dinheiro no Brasil (isso as pessoas não assumem), e eu acho que isso tem que ser melhor trabalhado, acho que isso o Brasil tem que copiar dos Estados Unidos, o Estados Unidos tem prêmio da indústria pornô. Não vejo problema quanto a isso, seria sem problema nenhum atriz pornô, de carreira, de ganhar bem, o problema do Brasil pra mim é o ganho: se ganha muito pouco, as pessoas têm uma noção totalmente equivocada da realidade da indústria pornô no Brasil. Existem pessoas fazendo filmes pornô por 150 reais, como assim? E você não tem mais, depois, controle sobre vendas, sobre quem assiste, como é veiculado – você ganha pela cena pronto e acabou, você não ganha mais nada pelo filme. Então isso é muito complicado, a problemática pra mim é essa. Quanto a fazer não vejo problema. E se eu pudesse escolher eu faria, no caso de não ter uma outra opção, eu faria um filme pornô e faria também um atendimento em casa, mas com as limitações que eu gostaria enquanto profissional do sexo, se eu pudesse. Dentro dessa realidade isso seria como eu trabalharia, se isso fosse possível.

AMARA MOIRA: Você acredita que tem mais problemas com violência na prostituição ou como atriz?

BÁRBARA AIRES: Ah, na prostituição, com certeza, prostituição. Porque na prostituição você tem um cliente que tá bêbado e às vezes você não quer fazer uma coisa e ele não entende, aí ele começa a gritar, quer te agredir. Você tem as pessoas que passam e te desrespeitam, p.ex. recentemente, eu tava parada em pé na Barra da Tijuca, um carro com três mulheres cisgênero (pra quem não conhece o termo são mulheres que nasceram com vagina), pararam o carro do meu lado e começaram a perguntar: "e aí, tem peru?, pô, tem peru?, a gente quer peru, tem peru pra gente não?, pô, você não é travesti?, que você tá fazendo aqui?, seu trabalho não é dar o peru?, então, aqui tem três mulher, a gente tá querendo peru... porra, você vai deixar a gente no vácuo?, não vai falar com a gente não?" Infelizmente eu estava sozinha na rua nessa hora, e aí vou fazer o quê?, não podia nem responder – elas tavam em três, se elas descem e resolvem brigar comigo, eu ainda saía perdendo, porque, por mais que fossem mulheres, tavam em três. Sozinha você não briga com três pessoas. E foi pra mim muito constrangedor, foi muito agressivo, e desnecessário. Eu tava em pé, esperando um cliente parar: qual a necessidade que essas mulheres tinham de parar o carro e ficar me agredindo psicologicamente com isso? Porque as pessoas não param pra pensar que isso é uma agressão psicológica. Assim como os retardados que passam e "tem jogo amanhã", "e aí João?", "ô pirocudo", "ô sei lá o quê", sabe? E essas violências a gente sofre elas todos os dias, que não é só a violência de tomar um tiro, de tomar uma facada, de tomar pedrada, de ser agredida fisicamente, o que graças a deus eu nunca passei gravemente – eu já tomei um tapa na cara de uma outra travesti no começo, tive um cliente que não quis pagar e ficou correndo com o carro ameaçando bater, foram leve perto do que eu já presenciei, p.ex. tiro do meu lado, garrafada do meu lado, essas coisas eu já presenciei mas graças a deus nunca vivenciei.

AMARA MOIRA: A gente abordou bastante coisa aqui, é incrível o jeito como você responde, a propriedade com que você responde. [BÁRBARA AIRES: Eu tenho um problema, que eu preciso trabalhar, meu ex-namorado fala que eu falo muito rebuscado. E às vezes eu fico buscando essas palavras que eu sei delas, aí eu quero usar, e não quero usar o sinônimo que é mais popular, e aí às vezes dá uns enroscos, desculpa aê qualquer coisa.]. Fabuloso, então abro pra considerações finais, se quiser falar alguma coisa a mais sobre você, sobre planos, do futuro, como é que você tá trabalhando a questão do emprego agora, você tá buscando outras opções?

BÁRBARA AIRES: Eu mandei, enviei centenas de currículos pra centenas de pessoas que eu conheço que trabalham com RH, eu enviei pra empresas, eu enviei pra agências, eu fui em lojas de Shopping... o que eu podia fazer de procurar, eu procurei, tou cadastrada na Secretaria do Trabalho obviamente, por causa do seguro desemprego. Por enquanto meus planos são: continuar me prostituindo até que apareça uma nova opção. Óbvio que eu não tou sentada parada em casa olhando pro teto, existem alguns projetos, que eu não estou explanando porqueee sinergia – deixa acontecer, as pessoas vão ver, pronto. Mas por enquanto é isso, tamos aí na batalha, conheci recentemente no Encontro Sudeste de Travestis e Transexuais a Márcia Rocha, do Transempregos, e ela também tá vendo essa questão pra mim, pra me ajudar. A única coisa que eu acho importante deixar claro é que as pessoas têm que entender que transexualidade não tem nada a ver com capacidade profissional, capacidade profissional e qualificação não estão atreladas a sexualidade, e as pessoas têm que parar com essa mania de atrelar pinto homem, buceta mulher.


AMARA MOIRA: Obrigada, considerações fabulosas, acho que é isso. Agradeço.


https://www.youtube.com/watch?v=trv3CKHbBNQ

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

BUMBUM DODÓI, NÃO SÓ O BUMBUM (II)

O sonho era dormir num peito acolchoado de pêlos, meu sonho, aninhada em braços viris, toda a noitinha. Mas antes tinha ainda o sexo e eu, tarada como não se via há tempos, queria porque queria transar. A TV ligada, ele quem quis, só pra fazer barulho e luz. Fiquei desengonçadamente sem jeito nua, ele não deixou por menos, veio me beijando comonde quisesse, me apertando firme nos braços com seu corpanzil ("construção civil", ele disse, de onde vieram-lhe os músculos)... e enquanto isso eu, mais alta, braços mais longos, tentava fazer com que ele e só ele envolvesse meu corpo, me abraçasse, porque era eu quem queria se sentir protegida, a moçoila indefesa. Mas vez ou outra eu liguei o automático e aí soltava os brações atrás dele, quase um molusco, igualzinho o falecido faria, igualzinho eu nunca mais quereria fazer, porque era assim que eu me sentia homem, era assim que não dava mais, que não tinha mais jeito.

Empurrei ele pra cama, ele se deixa cair, vou por cima e abocanho oq ali me interessa. Estava nervosa até então, medo de não me excitar e ter que fazer assim mesmo, ter que dar, medo de e se não fosse tão bom quanto eu imaginava, imagina uma noite dessas!? Mas não foi bem assim que se deu, quem me dera. Ali na cama o meu território, e não deixei por menos: chupava como queria, ele acarinhando meus cachos, sem fazer pressão, me deixando à vontade. Fui tomando gosto e fazendo cada vez com mais gosto, ele deixando mas me segurando às vezes, "senão vai leitinho na boca". Quando chegava esse ponto, eu voltava pro boca-a-boca e lá me esbaldava, toda encolhida pra ele me agarrar bem, me envolver fácil. E foi esse o jogo um bom tempo, até que ele resolveu me atacar onde eu mais temia, onde por falta de prática (voluntários?) sempre me dói. Não tem gel que facilite a entrada daquele chouriço... e eu ria de ver, ria imaginando como é que aquilo entraria de novo no meu furico. Toda vez a mesma coisa, mas dou conta sempre. Aquilo era como um gozo sem gozo nenhum: eu perdia total o tesão, adeus ereção, e dali em diante era na garra, haja força de vontade, acaba logo. Doeu, como doeu, pra pôr e, não bastasse, ele queria ficar mudando de posição -- eu, por trazê-lo de longe (ainda que aceitando a bagatela dos 50 merréis pela noite toda), me sentia na obrigação de aceitar oq quer que fosse. Chrrk!, lá se foi-se uma camisinha, a primeira a se escafeder no exercício da profissão: bendito PrEP, por isso me sujeitei a você, pra não entrar em pânico nessas horas. Pusemos outra, tudo nos conformes, segue-se o empalamento, eu franguassando na beira da cama, ele de pé indo até onde era possível. Estocadas cada vez mais fortes, o corpo dele tenso, músculos tesos, me seguro pra não gritar, pra não dar na cara o qto eu queria que acabasse logo (e é estranho que seja assim, porque antigamente eu adorava, sentia um prazer tremendo). Ele goza e desaba em cima de mim, relaxa os músculos, me abraça e beija carinhosamente. Ficamos assim algum tempo, eu feliz da vida -- agora era só dormir pra realizar meu sonho. Mas ele quis conversar. Antes tivesse dormido.

-- Já que você não quer namorar comigo, você podia me apresentar uma bicha.
-- Bicha?
-- Uma travesti, pra eu namorar.

Fiquei sem palavras. 'Bicha', 'viada' e afins são palavras que a comunidade travesti usa corriqueiramente, sinônimos de 'travesti' sim, mas só nessa comunidade: fora dele é ofensivo, acintoso, grosseiro. Eu ali querendo curtir a noite naqueles braços, dormir de conchinha ou como quer que fosse, e ele me pede uma bicha, uma qqr, qqr uma, pra me trocar por ela? Foi por isso que aguentei calada o empalamento? Ai se eu pudesse simplesmente mandar ele à merda e ir pra casa. Mas três da manhã, não tinha nem como. "Só vc msm, Alice: não se apegue por essas mariconas", me diz sempre uma amiga, e eu respondia "que isso!, não tem risco algum", ali toda me doendo. Rrrrrrr.

-- Não, não tenho ninguém pra te apresentar.

E ficou por isso mesmo, mas a coisa ia longe de acabar. Tentei relaxar, esquecer a tosquice, aproveitar o peitoral cabeludo, os brações fortes... ainda dava pra brincar de mocetona sonhadora. Por fim, dormimos. Despertador toca às 09h30, enrolamos na cama, sem beijos dessa vez (já não tava afim de enfrentar bafo de onça dps doq ouvi), mas ele acordou excitado, tesão de mijo talvez, e não dava sossego. Eu só queria ir embora, ele só queria mais uma. Tentei fugir, ele forçou a barra. Pela primeira vez nos três programas que fizemos, ele pouco se lixou pra minha vontade: pegou minha cabeça e arredou ela até o pau dele, eu sem vontade alguma de chupar, eu só querendo ir pra casa. Ele não disse nada, mas tava na cara que se sentia no direito de forçar umazinha a mais, "tou pagando". Vai vendo. E eu, sem nem ter recebido ainda, sem saber se ele pelo menos me pagaria a mais por essa porcaria que virou meu sonho (detalhe: ele escolheu hotel de cem reais, ao invés de um de setenta, apesar de eu falar que o de setenta tava ótimo... quis me impressionar? Porra, preferia os trinta a mais no meu bolso!), fui deixando ele me obrigar. Chupei sem querer chupar, a boca resistia, minha periquita ainda dormindo, e o gozo dele não vinha por nada. Ele tentou me comer, mas doeu demais, mais doq eu aceitaria, machucada que estava da noite anterior, e tive que reclamar até ELE desistir. Aí tirou a camisinha e veio pra beirada da cama ser chupado, veio como quem manda, como quem acha que manda, e eu desnorteada não sabia como dizer não. Dei meu melhor, fiz sem vontade alguma, com ódio até, mas fiz, e ele, dps de algum esforço, gozou um desses gozos bestas, só por gozar, só pra mostrar que pode, o rei da cocada. Mantive as aparências sei lá pq, nos vestimos, recebi os cinquenta prometidos só (!!), vi ele acertar com o hotel, conversinha à toa antes de nos despedir. Tchau tchau, volte sempre. Vazei tão logo me vi livre. Queria chorar, nem isso deu.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

POLISSEMIAS DO ESTUPRO

Tempos atrás percebi, diante da indignação estrondosa de amigas cis, que pessoas portadoras de pinto original de fábrica costumam usar a palavra estupro de maneira, pra dizer o mínimo, leviana. Eis a cena: um cis pauzudo havia me comido a noite anterior todinha e cheguei sorrisão nos lábios dizendo, pra deleite da comunidade portadora de pinto, que ele tinha 'me estuprado gostoso'. Enquanto metade dxs presentes riam imaginando a cena, as cis presentes, em simultâneo, fecharam a cara e começaram a demonstrar às claras revolta frente a essa festa toda: "como assim 'estupro', vc acha isso brincadeira, acha isso 'gostoso'?" A princípio pareceu exagero da parte delas, querer negar a polissemia óbvia dessa palavra, mas depois vim a perceber o qto esse uso de estupro pode trabalhar a favor da relativização do ato propriamente dito, o qto isso pode colaborar com a cultura do estupro que ameaça diariamente não só as cis (hétero e lésbicas), como também os homens trans, as mulheres trans e mesmo os cis gays / afeminados (sendo que, apesar de algumas dessas pessoas portadoras de pinto estarem sim sob ameaça constante de estupro -- pense p.ex. nas situações que envolvam prostitutas travestis e transexuais, ou msm qdo estas são enquadradas pela polícia, ou msm na vivência cotidiana de travestis e mulheres trans [especialmente qdo apresentem passabilidade cis, oq nesse contexto se torna potencialmente perigoso], ou msm no ambiente escolar em que meninos abusam de crianças consideradas homossexuais, ou msm na própria situação das cadeias --, ainda assim muitas delas, essas próprias pessoas que podem ter sido ou vir a ser vítimas de abuso e msm de estupro, usam a palavra tranquilamente).

Um amigo me sugeriu que talvez se devesse à cumplicidade existente entre essxs todxs que detêm o falo, oq levaria essas pessoas que tb são vítimas de estupro a viverem essa ameaça, assim como a própria experiência da violação, de maneira menos traumática (penso nos trocentos casos de travestis que passaram por experiências sexuais algo forçadas, de consentimento quando menos dúbio, lá por volta dos seus dez anos se tanto, sem que isso redundasse em trauma). Se estupro fosse só oq vivi nas mãos daquele cis pauzudo, ou se esse uso da palavra colaborasse para que estupro virasse só aquilo que vivi (e não oq se configura como o crime passível de punição), aí eu entenderia a reação delas como exagero... mas não é assim que funciona e, dsd q me dei conta disso, tenho procurado problematizar sempre que possível essa questão, ainda sem saber direito o caminho que se deve tomar (proibição do uso leviano, indiferença frente a ele?).

Afinal, oq significa 'estupro' em 'ele me estuprou gostoso'? 'Estupro' aí é hipérbole / metáfora doq? Pegada forte, sexo vigoroso, o prazer em se submeter ao prazer alheio (algo parecido, no BDSM, às experiências de imobilização), o prazer da dor, o prazer de inverter o jogo da objetificação ('me ensinam a temer o estupro 24h/dia, então vem cá, me estupra porque eu quero, porque quem manda sou EU, deixa eu brincar um pouquinho com esse medo, ao menos na minha intimidade')... oq diabos 'ele me estuprou gostoso' quer dizer, diz? E, mais doq isso, deve-se continuar a fazer um tal uso da palavra?

sábado, 13 de dezembro de 2014

AMARA MOIRA ENTREVISTA UMA DAS PRINCIPAIS ATIVISTAS NA LUTA PELOS DIREITOS DAS PROSTITUTAS

Entrevista destruidora com a prostituta que atualmente encabeça as denúncias contra a invasão policial no prédio da Caixa, em Niterói, dia 23 de maio de 2014, local que abrigava mais de 90 apartamentos de prostituição. A ativista vem sendo desde então ferrenhamente perseguida pela polícia do Rio de Janeiro, tendo sido já presa e estuprada por essa mesma polícia que deveria protegê-la mas que na prática só serve para extorqui-la e violentá-la. Teve sua residência invadida várias vezes por gente contratada por eles, atualmente proibida de pisar no Rio, em trânsito pelo Brasil afora por tempo indeterminado, os filhos ficando ora com amigos ora com familiares. Eis uma transcrição da entrevista e, logo abaixo, o vídeo:


AMARA MOIRA
Olá, meu nome é Amara Moira, eu sou a moderadora da página “E Se Eu Fosse Puta – Amara da Depressão” e estou aqui hoje para entrevistar uma ativista que é babado. Ela simplesmente é a prostituta que lidera as denúncias da invasão policial no prédio da Caixa, em Niterói, dia 23 de maio deste ano [2014] – por motivos de segurança vamos entrevistá-la e identificá-la aqui como Isabel –, ela trabalha na Daspu, a grife, na ONG Davida, representa o Brasil na Plataforma Latinoamericana de Trabalhadores Sexuais e está na luta pela regulamentação da prostituição como profissão. Então, uou, que credenciais! Bom, Isabel (ela não vai poder ser também mostrada no vídeo, só as mãos, belíssimas mãos), vamos lá, você poderia falar um pouco mais pra gente sobre a importância do PL Gabriela Leite na vida das prostitutas, pra profissão em si?

ISABEL
Eu acho que hoje, depois do que aconteceu comigo no dia 23 de maio, o PL tem uma grande importância. Porque o estado, duma forma geral, eles acham que tem poder de entrar numa casa de prostituição, estuprar, violentar, levar mulheres presas, prostitutas presas, os donos do estabelecimento presos e essa PL vai ser totalmente fundamental – uma vez que eu tenho meu local de prostituição e trabalho com uma amiga, eu sei que a polícia não vai poder entrar no meu local de trabalho e falar que eu tou explorando a minha amiga e a minha amiga me explorando. A gente tá ali unida, trabalhando juntas, muitas das vezes várias das prostitutas não têm condições de pagar um aluguel caríssimo, porque pra você alugar um local seguro pra trabalhar e atender clientes não é qualquer lugar que aceita, e quando a gente procura um lugar pra poder trabalhar e atender clientes, esse lugar é caro (no Rio, por exemplo, é entre cinco e oito mil reais – não é qualquer prostituta que tem esse valor pra alugar). Então, a PL vai dá garantia da gente poder trabalhar, de ter um local seguro, de as mulheres, também, que não têm condição de alugar um lugar poder trabalhar pra outras pessoas, ter [o dono do estabelecimento] o direito de ter de um a cinquenta por cento do valor do programa (e isso tem que ser acordado entre ambas as partes). Então acho que a PL vai nos empoderar bastante, vai diminuir bastante a violência contra prostitutas.

AMARA MOIRA
E, pensando assim, nessa questão de coisas que poderiam atrapalhar a vida duma prostituta no exercício da sua profissão. Então, pela sua fala eu entendo que a polícia seja uma das grandes responsáveis pelos problemas que a gente vive e não necessariamente cafetinas e cafetões. Como você vê isso? Como você vê a importância dessas figuras no exercício da sua profissão?

ISABEL
Entre a polícia e o cafetão, a diferença? Eu acho que a polícia tem que ter um papel fundamental de estar nos defendendo e não nos agredindo, porque hoje o maior violador de direitos de prostitutas é a polícia, o estado, e não o cafetão, mas a pessoa que tem o poder de estar dando um lugar pra prostituta trabalhar, o dono do estabelecimento – vamos colocar, o empresário. Ele também tem que ter os direitos dele garantidos, porque a pessoa não tem o porquê de alugar um lugar e colocar várias prostitutas pra trabalhar, e ele vai lucrar o quê, nada? Então tem que ter a lei pras duas partes, tanto pra quem é o empresário, quanto pra [nos proteger da] polícia. A gente, como prostitutas, tem que ter segurança da polícia, quem tem que nos proteger, e hoje a polícia não nos protege – só entra pra bater, estuprar, roubar e prender –, e o dono do estabelecimento também tem que ter a segurança dele, de que ele vai estar ali com o local dele, de trabalho, também porque aquilo ali não deixa de ser um lugar de trabalho, em que a gente precisa de segurança. Porque hoje em dia em qualquer lugar, aberto ou fechado, que a gente como prostituta tenha um segurança, eles querem enquadrar como milicianos, e não é milícia o que atua nesses lugares: uma cabeleireira que tenha um salão de cabeleireiro tem direito de ter um segurança, o dono da farmácia tem direito de ter um segurança, o advogado tem direito de ter um segurança, por que que a prostituta não pode ter um segurança? Porque quem faz a nossa segurança é dado como miliciano, e isso é totalmente errado, a gente tem direitos como qualquer trabalhador.

AMARA MOIRA
E, por exemplo, existem casos de extorsão da polícia nessas casas que tentam abrigar prostitutas?

ISABEL
Totalmente. Todos os lugares onde trabalhei no Brasil tem casos de suborno, de arrego policial, mas o pior estado, eu acho, de casos de suborno é o Rio de Janeiro. Aonde eu trabalhava, o prédio em que eu trabalhava, tinha quase noventa apartamentos de prostituição e a gente pagava por mês cento e trinta e dois mil reais pra trabalhar. Pra mim é o pior lugar que tem. Assim, em todos os lugares tem arrego, a polícia, em tudo quanto é lugar eles querem pedir dinheiro pra gente trabalhar na rua, eles querem pedir dinheiro pra gente trabalhar no apartamento, pra gente atender em motel, eles querem mandar no nosso próprio corpo. Ou a gente paga com dinheiro, ou a gente paga com sexo, a gente tem que pagar de alguma forma, ou comprando drogas na mão da polícia, de alguma forma a gente tem que pagar.

AMARA MOIRA
Isso me faz pensar também num ponto que é interessante, que é quando feministas tentam colocar que o cliente, o cliente que a gente vai atender, é a figura que vai nos explorar, que vai nos objetificar, que vai abusar do nosso corpo, que vai nos estuprar, nos violar, fazer coisas contra a nossa vontade. Mas na prática não tenho certeza se é esse cliente o responsável por fazer todas essas coisas. Como é a sua relação com o cliente?

ISABEL
O cliente pra mim é a figura principal do meu trabalho, é quem garante o meu sustento, é quem garante o meu dinheiro. Eu não vejo o cliente como o meu violador em momento nenhum. Em todos os momentos que eu tive de necessidade, de aperto, em relação a homens que eu estava atendendo, eu não identifico eles como clientes, identifico como psicopata, como ladrão. Eram homens que queriam me roubar, como também já tentaram me assaltar várias vezes na rua – eu também corro o risco de ser assaltada na minha profissão. Eu nunca tive problema de violência com cliente, nunca tive problema de ser estuprada com cliente. Os únicos problemas que tive com quem se identificava como cliente, mas que na realidade não são cliente, foram com homens que queriam roubar, matar, como em qualquer profissão tem, qualquer lugar tem. Tem ladrão na rua, tem ladrão no shopping, tem ladrão em qualquer lugar do mundo. E eu como prostituta também, tem ladrão querendo me assaltar porque eu tenho dinheiro. O cliente é a figura principal do nosso trabalho, tem que ter, cada dia tem que ter mais e mais clientes.

AMARA MOIRA
Interessante essa perspectiva, que tenta fazer com que o cliente não seja mais demonizado, porque isso atrapalha a nossa profissão. Uma outra coisa que fico pensando e que gostaria muito que você pudesse falar a respeito é, já que você rodou o Brasil, trabalhou em vários espaços, será que você poderia fazer um paralelo entre por exemplo a Vila Mimosa no Rio, o Jardim Itatinga em Campinas e a Afonso Pena em Belo Horizonte? Como se dá a prostituição nesses espaços?

ISABEL
A Vila Mimosa no Rio, eu fui trabalhar na Vila Mimosa eu tinha dezoito anos e já trabalhei várias vezes lá. A Vila Mimosa é um local totalmente perigoso, muito perigoso, em que as prostitutas lá não tem voz – existe uma associação dentro da Vila Mimosa que se diz uma associação a favor das prostitutas, mas não é uma associação a nosso favor, é uma associação totalmente contra, que beneficia somente os donos dos lugares na Vila Mimosa. A Vila Mimosa é um local, pra trabalhar, que a gente pode considerar mais independente, sim, porque a gente entra e sai a hora que quer, porém tem um perigo muito grande: lá muitas prostitutas morrem e ficam lá dentro. Eu acho que a Vila Mimosa tinha que ser um local mais visto pelas organizações que trabalham com prostitutas. A Afonso Pena eu gostei muito mas tem mulheres cis e trans, e o lado esquerdo é de trans e o direito é de cis. E o que me impressionou muito na Afonso Pena é como que eles querem classificar as prostitutas: primeiro ponto da Afonso Pena é menor de idade, segundo ponto é mulheres gordinhas, terceiro ponto é mulheres mais ou menos e no topo da Afonso Pena são mulheres bonitas, e isso eu acho totalmente preconceituoso. E acho totalmente errado ter que dividir uma rua com menor de idade, eu acho um absurdo e não aceito. Fora isso os clientes lá são muito bons, gosto muito dos clientes de Minas, sempre gostei. E o Jardim Itatinga, pra mim é muito bom, pra mim o melhor dos três é o Jardim Itatinga, que a gente tem a independência de trabalhar a hora que quer, não considero um local que explora a gente, a gente paga pelo que faz, e a gente é totalmente livre, um lugar que circula muitos homens, tem um baixo índice de violações feitas pela polícia. E em Belo Horizonte também não tem um alto índice. Desses três lugares, o índice onde mais é violado mesmo, onde mais somos violadas, é no Rio – na Vila Mimosa, a polícia também atua muito brutalmente lá dentro. E o Jardim Itatinga também eu acho perfeito, pra mim o melhor dos três. Fora que, em Belo Horizonte, sobe e desce pra mim também, fora que é a Afonso Pena, mas o sobe e desce é perfeito também. [AMARA MOIRA: Que sobe e desce?] Dos hotéis. São duas ruas com vinte e dois hotéis e lá circulam cerca de cinco mil homens por dia, o programa a partir de dez reais e a gente faz, assim, cinquenta, sessenta programas por dia. Então também acho o máximo lá, gosto muito. [AMARA MOIRA: Não resseca, não destrói o corpo?] Não, pior que não, menina. Lá é bom que ainda corre o risco de gozar várias vezes por dia. Eu gosto de lá, muito bom.

AMARA MOIRA
Você tocou no tema da prostituição infantil e, bom, o Projeto de Lei Gabriela Leite deixa de se referir a isso como prostituição infantil, ele fala sobre exploração sexual de menores de idade, porque isso não é prostituição. Na prostituição em si, como esse projeto prevê, a pessoa tem que ter pelo menos dezoito anos. Como você vê a situação do Brasil na questão da exploração sexual de menores de idade?

ISABEL
Aqui no Brasil a exploração sexual infantil é um fato, acontece. Eu, ao contrário de muitas prostitutas, não escondo essa realidade, e quero poder trabalhar em cima disso também. É uma coisa que acontece de verdade. Não existe falar que BH não tem menor de idade, São Paulo não tem, Rio não tem, tudo quanto é lugar tem menor de idade. Elas se infiltram no nosso meio, porque eu já trabalhei com várias menor de idade com identidade falsa. Sendo que eu acho que essa política da exploração sexual infantil tem que ser melhor trabalhada pelo governo, pelo estado, pelo município: não adianta ter políticas para acabar com a exploração sexual infantil, se o governo não tem uma medida socioeducativa totalmente abrangente pra poder acolher essas menores. Então, acho que o Estado tem que saber trabalhar em cima dessas menores. E tem alguns estados aqui que são, assim, uma realidade muito assustadora... eu fui em Fortaleza e fiquei muito chocada com a realidade de Fortaleza, e no Nordeste tá alavancando muito – a cada dia que passa aumenta mais ainda isso. E isso é uma coisa que o Brasil tem que tomar cuidado mesmo, que é uma realidade mesmo, não é mentira. A gente não pode esconder o que acontece.

AMARA MOIRA
Bom, eu fiz uma apresentação inicial a seu respeito mas se você quiser completar, falar um pouco mais sobre quem é você, quaisquer detalhes que você julgue importantes, que você possa divulgar, dividir com a gente.

ISABEL
Hoje, pelo fato do que aconteceu comigo dia 23 de maio, eu venho sofrendo muitas ameaças da parte da polícia do Rio de Janeiro, da parte dum grupo de extermínio do Rio de Janeiro. Hoje eu me encontro sem casa, sem poder ficar com meus filhos... fiquei sabendo semana passada que a Vara da Família do Rio de Janeiro entrou pedindo a guarda dos meus filhos. E hoje eu tento lutar contra esse mesmo estado que tinha que tá me defendendo e tirou meus direitos, tirou meus direitos de mãe, de cidadã, de mulher. E recentemente eu vim de Brasília, eu consegui uma entrevista com a Ministra dos Direitos Humanos Ideli Salvatti, e vim muito chocada de lá: ela me chamou assim e quis dizer ao pé do ouvido que puta tem que se prostituir em outro lugar e cada uma toma conta do seu próprio rabo, da sua própria xereca – ela quis dizer isso praticamente, que a Secretaria de Direitos Humanos Federal não ia fazer nada pela minha luta, que hoje eu tenho um peso muito grande de organizações do mundo inteiro ao meu favor só que o Brasil não ia se pronunciar em nada ao favor das prostitutas no Brasil, que era pra eu poder desistir, que eu não ia conseguir nada. Isso a Ministra dos Direitos Humanos me falou, só que ao mesmo tempo que ela me falou isso, eu fiquei muito chateada, mas eu voltei de lá mais encorajada de continuar nessa luta, mesmo sem casa, mesmo correndo tudo o que eu tou correndo, todos os riscos. Quando eu tive lá com ela, eu tinha acabado de receber quatro facadas, de uma invasão que tinham feito na minha casa, eu tava totalmente, assim, machucada, e ela não se sensibilizou em nada. Ela é uma Ministra desumana, e isso me choca muito, como que o Brasil tá vendo a nossa luta, sabe?, que realmente eu vejo que, pelo governo aqui, a gente não tem vez, as prostitutas não tem lugar, nós não somos mulheres, não somos mães, não temos direitos de nada, é como se a gente fosse um bichinho lá no canto, que tivesse que ficar escondido. Que foi isso que eu senti lá em Brasília.

AMARA MOIRA
E agora, com a Gabriela Leite tendo falecido, o movimento das prostitutas fica órfão duma liderança ou ele continua forte, tem diversas pessoas fortes conseguindo tocar essa luta? Como ele está nesse momento?

ISABEL
A gente vai se empoderar. A cada dia que passa a gente está conseguindo alianças mais fortes, a Davida é uma ONG muito importante, foi uma ONG pra mim muito importante, na minha luta, em todos os momentos difíceis a Davida tá comigo, hoje graças a deus eu faço parte da Davida, da Daspu. E a Gabriela se foi mas deixou a gente aqui pra continuar essa luta. A luta não é só minha, é de todas nós. E a gente vai continuar, vamos tocar pra frente – entre barrancos e maravilhas, a gente vai continuar, não vai desistir, não. [AMARA MOIRA: Vai ser perfeito. E a gente vai aprovar esse PL e vão vir outros PLs depois]. Vão vir outros PLs também. O Jean Wyllys, também, tá ajudando bastante, o deputado que teve a coragem de levar o PL quando a Rede Brasileira de Prostitutas decidiu e optou por ele. E ele vai conseguir. E se ele não conseguir a gente vai conseguir outros, mas ele vai conseguir. Hoje a Davida, a cada dia que passa, vai crescendo mais e mais e a gente vai tá trazendo com a gente várias prostitutas pra tá empoderando essa luta, porque isso é muito importante, que as prostitutas não tenham medo de lutar pelos seus direitos, que elas possam lutar pelos direitos, são nossos direitos.

AMARA MOIRA
Bom, creio que é só, foi uma entrevista fabulosa, que vai pro ar logo mais, e você vai ficar ainda mais famosa, Isabel, e essa mensagem vai chegar lá na Ministra e ela vai ouvir umas poucas e boas. [ISABEL: Ela vai ouvir, com certeza. A Ministra Desumana]. Vai pegar essa. Agradeço muitíssimo a sua participação, e é isso. Por aqui, Amara Moira se despede com esse vídeo, essa entrevista da Isabel. Tchau, querida.


https://www.youtube.com/watch?v=rK8MjO-dEqk

domingo, 7 de dezembro de 2014

BUMBUM DODÓI, AMADA COMO NUNCA (I)

Ele suava frio segurando minha mão em plena rua deserta, iniciativa dele, só nós dois e uns poucos carros. Era nítido que queria mostrar pro mundo que eu tinha dono, mas de qqr forma só conseguiu fazê-lo ali, quando já não havia quem visse... fiquei lisonjeada, é claro, e lembrei de como eu mesma me senti a primeira vez que fui ao shopping com uma namorada travesti, nos idos dos meus dezessete, dezoito anos, querendo-não-querendo que vissem. Me diverti vendo aquelas angústias não ditas, dele mas tb tão minhas, eu agora assumindo o papel da "pessoa com quem não se deve ser visto". Será que desde a rodoviária ele queria agarrar minha mão, andar de mãos dadas? Se sim, a coragem suprema só veio quando chegamos à tal rua dos hoteizinhos, quando não havia na rua mais q esses dois bocós. Gostei mesmo assim.

Bom, fui buscá-lo na rodoviária, beijoca no rosto e nada de intimidades, pra irmos nalgum daqueles hoteizinhos ao redor passar a noite. Pratico ferozmente o desapego pra não ficar enciumada com o qto toda vez ele gasta pra vir me ver (cem do hotel, uns trinta e cinco da passagem ida e volta, às vezes táxi, e comigo só os malditos benditos cinquenta -- mas ele volta sempre, uma vez pelo menos por mês, e parece que guarda todas as economias pra isso). Azamiga diz pra não acreditar em penúria alheia, desculpinha pra nos desvalorizar ou querer de graça, mas a verdade é que ele nunca alegou nada disso... foi sempre eu que intuí e que quis valorizar a iniciativa. Ele me trata bem, tem isso ainda, e me deixa super tarada. Fora que da última vez que fui trabalhar na zona fiz três programas, passei passando frio toda a noite, horas a fio, e voltei pra casa com míseros oito merréis ("oq se ganha lá lá fica", célebre dito)... agora os cinquentinha limpos pelo menos tenho.

Portas fechadas, só aí é que ele me beijou, e como beijou. Hálito de quem dormiu a viagem toda, não tão delícia assim, mas aos poucos fui me acostumando e já nem se notava. Beijou com a saudade de quem faz um mês certinho que não via a amada Amara Moira e eu beijei de volta, precisada que estava de beijos, daqueles beijos, de beijos quaisquer desde que dados como aqueles. Eu, nova nessas vivências, buscava reaprender a beijar, a participar do jogo: não mais o meu falecido eu era quem estava ali, mas sim a Amara e eu me preocupava, talvez só agora atentei pra isso, em tentar beijar como mulher, tentar agarrar, abraçar, me dar todinha, ainda no momento beijo, como mulher. Coisas mudam quando você se lança de cabeça na transição, o andar, a postura, a forma de interagir com as pessoas, o tom de voz, coisas que vivo como um desafio auto-imposto mais doq uma obrigação. Dali começamos a tirar as roupas, cada um as suas, meio desengonçados e sem charme algum... o tesão em ambos era evidente mas parecia que a qqr momento alguém faria algo suficientemente engraçado pra acabar com o clima!

[cont.]


sábado, 6 de dezembro de 2014

AMARA MOIRA CONHECE O AMOR

E hj Amara Moira conhece o amor, vai dormir de conchinha pela primeira vez com cliente apaixonado (ou, quem sabe, varar a noite fustigada pelo pretenso amor). O preço? Oras, o de sempre, outra oncinha pra coleção. "A noite todinha?" Todinhazinha, só dessa vez, que eu adoro ficar com vc (ai que vontade de dormir de conchinha!)... Só que nada de sair toda toda, fogosa, nem aí proq acharem de mim -- ó só oq ele me pede, pode? A Amara crente, como ele me chama, é aq ele mais gosta: "a comportada, você fica tão linda". Tá bom, vai. Só pra vc, meu bem, e, olha, só hj.

[amanhã conto como foi]

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

FEMINISMO RADICAL E BANHEIRO PARA PESSOAS TRANS

As feministas radicais[1] que querem banheiro feminino exclusivo para mulher cis[2] partem do pressuposto de que a mulher trans é perfeitamente identificável na multidão, de que nossos genitais estão estampados na nossa cara para quem quiser ver. Nada mais enganoso. Ainda que eu não esteja no rol das trans lidas como cis, existem várias nesse grupo, várias mulheres trans que ninguém imaginaria que têm (ou um dia tiveram) pênis. Como essas feministas gostariam de ter a certeza plena: olhômetro, revista vexatória, nudez, apresentação de documentos, auto-identificação? Auto-identificação descartada de cara (quem confiaria, né?), o olhômetro já se mostrou ineficiente, seja pras trans que passam perfeitamente por cis, seja pras cis que apresentam uma aparência mais máscula e/ou andrógina, por conta disso sofrendo transfobia mesmo sem serem de fato trans. Além disso, nenhum documento de porte cotidiano apresenta a informação do sexo de nascimento, tornando a inferência do mesmo arbitrária, especialmente quando as feministas radicais estão interessadas em negar acesso a banheiros femininos mesmo às mulheres que tiveram seus documentos retificados na justiça. Revista vexatória e nudez também seriam insuficientes, dado o alto grau de sucesso das atuais cirurgias de redesignação sexual (a famosa cirurgia de mudança de sexo)...

No final das contas, a conclusão é só uma: se a mulher tiver que provar que não é trans para usar aquele banheiro, isso valerá pras cis como pras trans e a investigação terá que ser minuciosa, transformando a experiência de ir ao banheiro público num inferno. Não basta parecer mulher cis, nem se auto-identificar, nem apresentar documentos, nem ficar nua: tudo isso pode ser contornável, qualquer discrepância do esperado se transformando num pesadelo pra pessoa que quer somente o direito de fazer suas necessidades básicas, quem sabe lavar as mãos, usar o espelho.

O que as feministas radicais não percebem é que um homem cis não precisa se vestir de mulher para ter acesso ao banheiro feminino e lá poder assediar e estuprar suas vítimas: bastaria que se declarasse homem trans, uma vez que a terapia hormonal à base de testosterona engrossa rápido a voz, dá barba, pêlos corporais fartos, às vezes até calvície, traços que garantiriam uma leitura social da pessoa como homem (homens trans são muito mais facilmente lidos como homem do que mulheres trans são lidas como mulher). A lógica excludente das feministas radicais vale pra mim, que não sou lida como mulher cis (ou melhor, que tenho uma passabilidade trans mais pronunciada do que a cis), assim como para as tantas cis que cada vez mais reivindicam o direito de apresentar uma aparência mais masculina, andrógina. Em que banheiro colocariam Teresa Brant, Thammy Miranda? Antes de querer que provemos que não somos trans, as feministas radicais vão penar pra provar que são cis. E, olha, não é nada difícil essa provação se tornar inconcludente em boa parte dos casos.

A verdade é uma só: pessoas trans existem e cada vez menos pedem desculpa ou licença para existir, para ocupar todos os espaços possíveis da sociedade. Uma vez que existimos e ocupamos, os espaços antes reservados apenas para pessoas cis terão que ser repensados para incluir também nossas demandas, nossas especificidades. Banheiro público terá que decidir se será "feminino" (e, com isso, estará aberto para mulheres, independente se cis ou trans) ou se será baseado em genital, não importando a aparência que a pessoa portadora desse genital tenha (barba e batom convivendo harmoniosamente). E, acima de tudo, terá que decidir como vai fazer para provar que somente pessoas acordes a esses atributos acessarão o espaço.



[1] Feministas que focam sua atuação militante apenas nas pessoas designadas do sexo feminino ao nascer, ou seja, apenas nas pessoas que foram criadas para ser mulher. Nesse sentido, elas se negam a aceitar que a luta de mulheres trans pode se juntar à delas, vendo-nos como inimigas mais do que aliadas.
[2] Cis é o exato oposto de trans, então se trans significa algo, cis é o inverso. Trans aponta para uma linha imaginária separando homens e mulheres que foi cruzada, ao passo que cis diz respeito às pessoas que não cruzaram essa linha: de um lado, o cis, pessoas que foram criadas para ser homem (ou mulher) e que existem para si e para a sociedade enquanto homem (ou mulher); do outro, o trans, pessoas que foram criadas para ser homem (ou mulher) mas resistem a essa criação e reivindicam existir de acordo com as regras que vigoram para o gênero oposto.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

JANAINA LIMA, PROSTITUIÇÃO E PL GABRIELA LEITE

JAQUELINE FURACÃO
A prostituição, ela é um assunto polêmico até mesmo dentro do feminismo, não existe um consenso sobre a prostituição. Tem feminismo que diz que empodera a prostituta, mas por outro lado tem feministas que alegam que a prostituição é opressora pra mulher e que a regulamentação da prostituição seria a regulamentação da exploração e são diferentes pontos de vista. Eu gostaria de saber de você, Janaina, o que você pensa da prostituição e da regulamentação da prostituição.


JANAINA LIMA
Bom, o que que eu acho da prostituição. Tem uma confusão grande que as pessoas fazem às vezes. A prostituição em si é um mundo, um ato, aquela situação, né?, só que ali dentro você tem pessoas que são profissionais do sexo, pessoas que são exploradas, pessoas que são exploradores. Essa divisão talvez, ela não é tão demarcada ou não é tão levantada, parece que quando a gente fala prostituição a gente junta tipo assim "é só as mulheres que estão se prostituindo e acabou". E não é isso, a gente precisa aprofundar um pouco mais a discussão. Em relação à regulamentação, o que mais me aproxima vai ser o projeto de lei do Jean Wyllys, que é pra regulamentar a profissão do sexo. O muito doido é que quando eu leio aquilo ali, eu enquanto profissional do sexo, eu não consigo ver benefícios pra mim, a não ser para uma outra parcela da população, que tá dentro da exploração e que se encaixaria nessa divisão, na minha concepção (e é muito bom frisar, porque o que eu estou dizendo aqui é o que eu acredito, é o que eu vivo e vivencio, e aí pode ser que eu esteja errada, mas pra estar errada me apresenta uma justificativa bacana, porque não vem falar que é pecado, que depois eu me acerto lá no Juízo Final). Minha posição é essa, porque o projeto em si parece que ele só ajuda, contempla, vai beneficiar de fato os exploradores, ou quem vive da situação de pessoas que estão ou prostituídas ou das profissionais do sexo. Eu não vejo nenhum projeto de fato, mesmo porque no Brasil, acho que é legal frisar por exemplo, não há nada que proíba que eu faça programa – o que eu preciso é ter consciência de que é um trabalho autônomo, então eu posso de repente criar um CNPJ, abrir uma firma e pagar impostos daquilo, ou eu posso contribuir com a previdência como uma ocupação. Então isso já existe, eu não entendo esse projeto de regulamentação que, pras profissionais de fato, elas não levam vantagem nenhuma, ao contrário. O que eu percebo dentro da regulamentação que é discutida (e aí é a minha visão novamente) é: vamos dar legitimidade, vamos trocar o nome de cafetão pra patrão, vamos trocar o nome do explorador para alguém bonzinho, digamos assim. Essa é minha visão e é o que eu vejo, e é o que eu leio e interpreto quando eu vejo o projeto de lei escrito aí, e quando eu vejo a discussão na boca das pessoas também. Eu não vejo de fato nada que diz, olha, isso de fato vai melhorar, porque por exemplo eu, eu vivo, eu faço programa, mas ao mesmo tempo que eu faço programa eu tenho que fazer um monte de atividade paralela pra complementar renda, porque eu não posso viver do programa. E por que que eu não posso viver? Porque eu não tenho segurança, porque eu não tenho um serviço de saúde que contempla (o que ninguém tem, e aí não é só as profissionais do sexo; é brasileiro, dançou, se depender do SUS já era, e do particular também não é diferente – não se iluda, vai gastar dinheiro e não vai adiantar). Então é isso, eu não vejo vantagem pra mim: não me dá garantia na segurança, não me dá garantia em inclusão na educação, não me dá garantia em basta nenhuma. A única coisa que me dá garantia é que eu vou ter que dividir o que eu ganhar, em vez de dividir com o meu cafetão, se eu tiver um, eu vou dividir com o meu patrão, e ainda vou dar uma parcela maior de imposto, porque eu já pago imposto até da bala que eu chupo, eu vou pagar imposto da minha profissão também. É a minha visão.

LARA PERTILLE
Jana, só deixa eu fazer um adendo. Eu não vi muito sobre o projeto, mas não melhoraria pras pessoas que trabalham em casa? Porque eu acho que, hoje, as profissionais do sexo que trabalham em casa, isso é caracterizado crime porque o cara explora as meninas. Com o projeto, não melhoraria? É uma pergunta mesmo, porque, claro, se você trabalhar e não tiver um cafetão, o dinheiro é todo seu, problema seu, mas, regulamentando com a lei, elas não poderiam trabalhar nessa casa, teria segurança, carteira assinada? A ideia da lei não seria essa, um funcionário, registrado?

JANAINA LIMA
E de quem seria essa casa? Então, quem vai ganhar é o dono dessa casa, o patrão dessa casa, ou, se for uma casa do governo, vai ser o governo que vai ganhar. A ideia que vende da lei, num primeiro momento, é essa, mas num segundo momento é: "por que que eu vou regularizar uma casa de prostituição?" Então eu não tou regulamentando a profissão, eu tou regulamentando a casa, e então já não é profissão, porque a profissão não tem nada que fala que não pode. Aí, se eu quiser, eu posso contribuir, tal tal.

LARA PERTILLE
Mas aí você ganharia todos os seus direitos, não ganharia? Direitos de um funcionário comum, férias, décimo terceiro, essas coisas. Eu quero dizer assim, ó: você está trabalhando pruma casa, claro, a maior parte ficaria com o cafetão. Em tese você por exemplo poderia tirar férias, em tese se você fosse mandada embora você teria todos os seus direitos resguardados, o que hoje não tem – se você parar de fazer, você vai se virar. E nem sei se vai funcionar, mas não seria para isso?

JANAINA LIMA
Sim, em tese, mas e na prática. Pensa hoje, digamos que um programa seja 50 reais: ele é meu, eu fiz o programa, paguei. Se eu vou lá na casa, uso a casa, pago uma taxa, é outra coisa, mas esses 50 é meu. O que eu vou pagar à parte, isso já existe em qualquer lugar que rola profissional do sexo, que tem uma pessoa trabalhando, isso que é legal lembrar, você tem uma rede de exploradores. E é doido que é muito contraditório, por exemplo, você tá lá batalhando e vai chegar o vendedor de brinco, que ele tá ali dependendo do dinheiro que você vai fuder com o cara para pagar o brinco, a tiazinha da Igreja Universal que vende o lanchinho, ela tá ali te secando pra que você ganhe um dinheiro e coma o lanche dela pra ela levar o dinheiro, a outra tiazinha que lava a roupa porque você não tem tempo. Quer dizer, até aí eu tou vendo só benefício pro outro. Aí você me diz que, de todo esse dinheiro que tenho que dividir com todas essas coisas, eu ainda vou ter que dividir a minha taxa com o meu patrão, que eu não tenho hoje. A opção de trabalhar na casa já existe, a única diferença é que dentro do projeto de lei eu tou regulamentando a casa: pra mim, Janaina, não tem diferença. E, aí, pra isso, a casa ia fechar pra mim uma meta de programas, vou ter que fazer 100 programas no mês pra fechar a meta? Aí eu me fudi, gente. Eu não vejo saída nesse projeto de lei. Por exemplo, digamos que o programa é 50 reais, se chegar 10 pessoas, o cara fechar o pacote lá, eu tenho que fazer, entende?, eu sou funcionária dele. Hoje, por exemplo, eu posso falar "pô, não quero sair com aquela pessoa, que não simpatizei com ela"; se eu sou funcionária, eu tenho que fazer e calar a boca, percebe? Quer dizer, isso já acontece entre aspas com o explorador; o que eu estou fazendo agora é dando "ó, explorador, você não vai mais preso, porque agora você vai ter uma legislação, que vai poder registrar aquela pessoa e, aí, ela vai ser de fato tua autoridade, com a lei agora te garantindo. Pra mim, a visão é essa, posso estar enganada. [JAQUELINE FURACÃO: A aposentadoria, né, que travesti chega na idade de se aposentar?]. É, então. O pessoal fala muito o  futuro, qual futuro? A maioria das travestis que se assumiram comigo lá atrás, a maioria já, beijo, infelizmente partiu. [...] Quando a gente fala de prostituição, a gente fala dum mundo e aí envolve quinhentas pessoas, milhões de pessoas. O que cabe lembrar é que a maioria das pessoas que estão na prostituição, elas são exploradas, e eu chegar lá com um projeto, falando, olha, isso aqui vai melhorar a sua vida (e aí cabe a gente lembrar que a gente tá no Brasil, que a nossa educação é deficiente no geral, desde o ensino infantil até a universidade, e aí, me desculpa, eu já fiz universidade – sou formada em psicologia e sei do que eu tou falando). A nossa educação, desculpa, gente, me falaram pra ficar à vontade, mas eu não vou tirar a roupa mas eu vou dizer, tá uma meeerda. De verdade. Aí você me dizer que eu vou chegar lá, pruma tiazinha que tá sendo explorada há vinte anos, falar pra ela que ela vai se aposentar, é lógico que ela vai ficar feliz, lógico que ela vai assinar o aval do projeto. Nós estamos falando de pessoas que têm deficiência de ler, ler não é pegar o papel e só ler o que tá escrito: eu tou falando de tradução, de interpretação, de saber o que está dizendo ali nas entrelinhas, e isso não é dito. Na prostituição, a grande maioria tá fudida, tá com cafetão, e aí tem uma proposta dizendo "olha, seu cafetão vai embora e vai entrar um patrão, vai ser bom, você vai se aposentar, tem férias". Mentira. Isso não está sendo discutido com as pessoas que, de fato, são profissionais do sexo, porque a profissional do sexo é profissional, já sabe o que tem que fazer e faz, ela não tá ali "ai, eu só faço isso porque eu não tenho outra coisa pra fazer, porque a minha vida é uma merda". E aí trazendo a questão de diferenciar mulheres de travestis e transexuais: a maioria das travestis e transexuais que forem de classe social baixa, vai tá enfiada na prostituição; se for de uma família evangélica moralista, vai tá na prostituição, entendeu? A maioria vai pra lá e não vai porque quer, daí você pinçar de fato quem é de fato profissional, que tá se identificando e falando "não, eu sou profissional" – eu, por exemplo, eu digo, eu sou profissional por quê? Porque eu faço tranquilamente, eu sou o que fazer, se alguém quiser pagar a gente vai pro privado, quer fazer no aberto a gente faz também, e eu sei o que eu faço e o que eu tenho que fazer e eu vou dar conta e a pessoa vai, no tema aqui hoje, gozar e ficar feliz. É bem esse papo. As outras pessoas, a grande maioria, tá ali porque não tem mesmo outra opção, de fato, tá sendo explorada. Eu chego lá, vendendo uma ideia, é lógico que a grande maioria vai assinar embaixo, porque ela quer se ver livre daquele estereótipo, estão dizendo "ó, você vai ter uma profissão". Mentira, você vai ter um dono, um patrão, que vai estar agora com um documento falando "ó, agora é meu".

CAROL CONSTANTINO
A gente ouve, de algumas pessoas, o discurso de que a prostituta, ela às vezes é vista como um objeto, porque o gozo do cliente ali é o foco. Mas existem outras pessoas que não pensam assim e aí a gente estava curiosas pra saber de você o que você pensa sobre isso: há mesmo essa objetificação do corpo da prostituta? Ou não?

JANAINA LIMA
Acho que há uma objetificação de todas as pessoas, na sociedade aonde a gente vive isso é unânime, 24hs, TV, rádio, música, até numa performance que a gente faz a gente acaba fazendo isso de alguma forma. Ficou muito claro aqui, nas próprias danças e na última pessoa que entrou (inclusive eu ia me oferecer pra ajudar, mas daí eu lembrei que eu sou profissional, ia cobrar, não falei nada pro evento, fica complicado). O que eu vou tentar novamente é tentar diferenciar a pessoa que tá em situação de prostituição da pessoa que é profissional do sexo. Isso é diferenciar. Porque a pessoa que contrata uma profissional do sexo, ela tá contratando um serviço, uma mão-de-obra como qualquer outra. E aí me desculpa, os mais moralistas, os mais de cabecinha fechada, porque eu não consigo ver diferença de fazer um programa com uma pessoa e construir um projeto pra uma pessoa e dar aula pra uma pessoa e lavar o banheiro duma pessoa. O que vai ter aí é o que eu gostaria de fazer, o que eu gosto de fazer, o que eu faço por necessidade e o que eu não faria de jeito nenhum. É tentar diferenciar isso. Porque tem gente que jamais trabalharia de eletricista pendurado num fio, mexendo com a voltagem, porque sabe o risco que corre. Tem gente que não consegue transar com outra pessoa nem afetivamente, quem dirá cobrando um dinheiro. E tem gente que deve achar horrível, uma exploração imensa, uma diarista ganhar uma mixaria ou a empregada doméstica ganhar uma mixaria e ter que lavar a merda do outro no vaso, porque isso acontece. Então pra mim, se for pra pensar nessa classificação, eu por exemplo eu não consigo ver isso. Eu consigo ver essa objetificação , essa pessoa-objeto, em todos os lugares, o tempo todo – na nossa olhada a gente pensa "puta, adoraria ficar com aquela pessoa, mas se eu ficar com ela na balada os outros vão falá, então vou ficar com a outra que tá mais dentro do padrãozinho bonitinho". Isso diferencia, e diferencia também pro cliente, porque o cliente vai procurar... o que que ele tá procurando? Ele quer uma figura só em si ou ele quer saciar o desejo, ele quer gozar, ou ele quer fazer alguém gozar e ter aquela sensação? Isso tem que ser diferenciado. Isso talvez tenha que ser melhor pensado e discutido.