sexta-feira, 14 de novembro de 2014

AS PUTAS QUE QUEREM SER PUTAS

As putas que querem ser putas, que gostam de ser putas, são um estorvo pro feminismo radical. Sendo abolicionistas, essas radicais se exasperam diante desse número crescente de putas que, empoderadas, querem sim regulamentar uma profissão pra si próprias, que sabem reconhecer os abusos existentes nessa profissão mas, ao mesmo tempo, acreditam-se capazes de superar esse estado atual de coisas e construir um espaço seguro onde exercer a atividade. Se hj as condições em que se exerce a prostituição são horríveis, isso não quer dizer que essas condições são imutáveis, ou que temos que abrir mão da profissão pela dificuldade de enfrentar esses problemas: quem está dentro, quem depende disso, luta por melhorias que esse projeto de lei é capaz de oferecer. O fim do abuso policial é uma das mais importantes: a polícia tem que se ver impossibilitada de continuar extorquindo as casas de prostituição, pra que esse desnível de forças seja alterado. Além disso, a regulamentação da profissão prevê que o valor acordado no programa seja passível de cobrança judicial: antes dessa lei aprovada, não haverá como a puta reivindicar que seja pago o programa se o cliente não quiser pagar (daí a necessidade de ter sempre por perto um 2x2). Quanto ao valor máximo que pode ficar com a casa, bom, vc já se preocupou em saber quanto uma manicure recebe do valor total do atendimento dela? Uma prostituta tem noção exata do valor que lhe é subtraído pelo estabelecimento, ao contrário das demais profissões, que maqueiam essa subtração até a pessoa não mais ser capaz de fazer a conta: um professor, qual a porcentagem da mensalidade do alunado fica em seu poder? Quanto do dinheiro que passa na mão duma operadora de caixa lhe é devolvido em forma de salário? Uma prostituta que trabalhe dentro duma casa sabe, 50% no máximo lhe será deduzido, oq chega a ser um luxo em tratando-se desse capitalismo absurdo. Há os custos de manutenção da casa, de limpeza de roupas de cama e banho, a proteção que implica o trabalhar numa casa e não na rua, a segurança do 2x2 que inibe ações violentas de clientes, a própria vitrine que a casa oferece pra prostituta poder expor seus serviços. O projeto de lei Gabriela Leite é um avanço considerável, apesar das falhas e lacunas que possui.

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