sábado, 1 de novembro de 2014

A QUE SERVE A CURA DA AIDS?

Ninguém quer a cura da AIDS pensando no bem-estar de quem vive a doença -- queremos o fim da AIDS porque queremos o fim dos soropositivos. Não que tenhamos algo contra eles; é sim o risco que eles portam oq nos incomoda. Por isso desejamos seu fim, pra que não corramos o risco de nos tornar um deles. Quem tem um amigo ou amiga soropositivo? Posso dizer com toda a certeza que jamais apertei a mão de alguém, jamais abraçei alguém, sabendo que a pessoa vivia o HIV / AIDS. Tenho amigos soropositivos no entanto, só que quando eu soube da notícia eles já estavam distantes e nunca mais os vi desde então. Teria mudado a forma como os abraço, como demonstro meu afeto por eles? Não sei, quero crer que não, mas sei que algo será afetado.

E justo EU não sei, eu que com 17 anos transei sem qqr proteção com uma pessoa, eu sendo passiva, eu sendo ativa, ela gozando em mim, eu nela, pessoa que me disseram meses depois ser soropositiva e não só: ela havia morrido meses dps, em decorrência da doença. Nunca confirmei se a pessoa era mesmo soropositiva: dps de nossas duas transas, entrei em pânico, não estava preparada pra ter uma relação com uma travesti (novamente, justo eu, que me descobriria travesti tempos depois), pra peitar todo o ódio transfóbico da sociedade... entrei em pânico e sumi sem nem dizer tchau, por mais que eu gostasse dela e ela de mim. Qdo soube dela novamente, tinha acabado de morrer, meses depois, ela supostamente com AIDS. Desde então venho fazendo trocentos exames, todo ano, pra me certificar: todos negativos. Ela se foi sem me dar tchau, do jeitinho que fiz. Me safei? A escrotidão do meu proceder justifica oq eu vim a saber, ou melhor, ouvir sobre ela? Durante anos tentei me proteger da percepção da canalha que fui recriminando-a por algo que sequer sei se era verdade. Pensei que não era pra ser, senão agora eu tb seria, como ela era. Acreditei que isso me forçaria a me proteger nas próximas relações, o trauma. Não foi bem assim. Entrei num turbilhão de relações desprotegidas tentando corrigir esse erro avsurdo, eu saindo impune, querendo (oq é querer numa hora dessas?) me contaminar sem de fato querer mas sem conseguir evitar o impulso.

Queremos nos livrar da doença pra nos livrar dos doentes, do risco de nos tornamos um deles. Nos recusamos a ver a crueldade por trás dum tal desejo, quando existem pessoas que vivem a doença e sabem que não há cura. Desejamos o fim da AIDS, e algumas pessoas vão viver e morrer numa sociedade que quer o fim da AIDS, o fim delas próprias, daquilo que as distingue. Não se morre de AIDS e a vida de quem viva a AIDS é longa, desde que se cuide. Travestis têm expectativa de vida de 35 anos p.ex., bem menos do que a de um soropositivo. AIDS, não tendo cura (e refaço a pergunta ética, pra que queremos a cura?), torna-se uma condição: uma sociedade em que ter AIDS fosse condição sine qua non não seria uma imagem de inferno. Nossos padrões de beleza seriam outros p.ex., nossas práticas alimentares e sexuais tb. Qual o drama?

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