quinta-feira, 27 de novembro de 2014

EU A BONECA INFLÁVEL

Nada de beijo, nem vem cá me abraça, ou gostei de vc: dessa vez fui só boca, ce-u, corpo e olhe lá. Usada como sonhei, não gostei tanto assim. Oral por dez, faz? Noite uó, frio medonho, vontade de entrar naquele carro o qto antes (estar no carro já era bem)... e aí, faz? Olha, até faço sim, mas aguenta o cu doce, tá ok? Começa o programa, tiro calça e cueca dele, empunho a peroca, o cheirão de nem tão limpa assim, abocanho, deixo ela em pé, faço oq faço melhor, e aí sinto a mão dele subir minha espinha e pegar um chumaço dos meus cachos, carinho será?, não era: agarra firme a cabeça, a minha, e soca sem dó o perulito lá fundo. Engasguei, deu ânsia, seguro a mão dele pra não vomitar. Ai, do jeito que eu sempre gostava, mas ali não gostei nadinha... e sei lá pq, talvez ele brucutuzão, camisa da Mancha, me desvalorizando com a cara lavada ("faz por dez, não pago mais que dez" e aí solta um "tem troco pra vinte?" e eu, trouxa, disse que tinha sete pra voltar de troco e ficou por treze no final), a situação meio tensa, três horas lá fora enfrentando o frio, nenhum clientinho que fosse, destabada dessa vez, não foi bem como eu sonhava. Mas ficaria pior: "se eu te der quinzão, vc dá pra mim?" Pô, por dois reais a mais ele queria papar essa que ora vos fala, ali no carro, eu toda apertadinha, eu que nem gosto tanto assim de dar o fiofó, o cúmulo... "não, e seu tempo tá acabando". Faz-se oq se tem de fazer, ele goza, negócio resolvido. Os treze no bolso, já dava pra começar a pagar os trinta da rua, os sete do ônibus ida e volta, os dez do lanchinho da noite, e vislumbrar os cem que me programei pra ganhar... Volto pro ponto e logo em seguida aparece mais um. Pára, baixa o vidro, eu vou até lá e:

- Quer fazer um programa, amor?
- Que que cê acha?
- Acho que sim e digo mais: quer fazer é comigo.
- Em cheio. Só tem um problema...

Lá vem. O penoso não sai de casa com dinheiro, ora esquece, ora medo de assalto, aí acabou que só tinha os onze do troco do pedágio -- uma chupetinha de boa será que eu fazia? Pô, aceitei por treze o primeiro, e aí vem outro? Pelo menos me tratou bem, era ativo e, como eu já estava aflita de nem conseguir a diária (e o frio já voltava a doer os ossos), me deu a louca e fui: fiz no atacado, segundo azamiga. E eis o primeiro que não vi ficar durão... chupei devagar, rápido, firme, de levinho, fundo, só a cabeça, gastei a língua em rodopios inúteis, todo o meu saber bocal, e nem assim saiu mais que um meia-bomba pra lá de meia. Ele se desculpou, agradeceu minha obstinação, disse que é culpa da bebida, aí depois assumiu um tirinho, coisa à toa, mas atrapalha... A palavra já me deixa aflita. Disse pra ele que já dava pelo qto ele me deu, ele agradeceu novamente e pediu pra eu só ficar mais um pouco, tempo dele dar um teco e era isso. Fiquei, mas aterrorizada, mais aterrorizada ainda. A primeira vez que eu via, virjona de tudo. Ele aprontou as carreirinhas, duas, me ofereceu uma, tive que recusar trocentas vezes até ele entender q aquilo me deixava em pânico ("desculpa insistir, não quero essa vida pra ninguém, mas é bom provar pelo menos, não quer dar nem umzinho só, ah se não é sua hora então tá, mas certeza?"). Ele por fim cheirou ambas, disse que a coisa ia bater em quinze, vinte minutos. Perguntei se ele ia conseguir chegar em casa, ele assentiu, aí eu me sentindo a mindinga falei que ia ficar com aquelas moedas ali, pra completar oq ele me pagou. Três a mais pra conta, catorze, com os outros treze já quase dava pra ficar zerada: bora outra vez pra rua!

E aí veio o único que me tratou como a boneca inflável que gosto de ser... Não barganhou preço (aceitou os meus trinta, mais dez do quarto), quis de tudo, serviço completo, usou e abusou de mim e pela primeira vez na noite fiquei excitada, ereção e tudo, sorridente. Tiramos a roupa, ele me olhava admirado, eu disse que só queria pôr peito e estava pronta, ele disse que nem precisava de nada, que me adorou, meu papo, eu branquelinha desse jeito, deixa eu ver seu cu, vai? Me pôs na luz e examinou cada centímetro meu sem pudor, distribuindo tapinhas na buzanfa sem nem perguntar se podia. Me pôs de joelhos e deixei com o maior prazer, peguei aquele peru e fiz tudo oq quis com ele e ele deixou e eu ia cada vez mais fundo, eu fazendo por gosto, desses que a gente atende de graça. "Hora da cama", ele disse: e será que eu aguento? Era pelo menos igual o último que me tinha comido, semanas atrás, e foi aquela dor outra vez, e aí deu igual, broxei, mas não dei pra trás: ele quis variar posições, a coisa foi se encaixando, eu sentindo tesão em vê-lo com tanto tesão, deixei rolar. No fim já nem doía, mas tesão que é bom só ele. Gozou, xequei a camisinha outra vez (ai, que uó!), mas ele nem tchum. Na hora de pagar, a mindinga aqui só tinha nove de troco pros cinquenta dele e ficou quarenta e um mesmo. Mais os vinte e sete, ufa, agora era sossegar o facho. Deixa os cem reais pra próxima.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

AS PUTAS E O SEXO FRÁGIL

A parte das mulheres que se opõe à regulamentação da prostituição, que deseja o fim dessa prestação de serviços, alega que é inevitável a puta penar na mão dos clientes, esses opressores desde sempre e por definição. Elas simplesmente não concebem a possibilidade duma puta empoderada ser capaz de colocar o cliente em seu lugar de cliente, nunca de dono do corpo da mulher que presta o tal serviço. O desgaste emocional, pelo que tenho ouvido de colegas e vivido eu mesma, está mais na barganha do preço (coisa típica de brasileiro, desvalorizar o serviço, querer desconto, chorinho, tratamento vip) e no momento de receber o pagamento (caso ela não consiga cobrar adiantado), doq na relação sexual em si. Reafirma-se, com isso, o lugar-comum da mulher sexo frágil, a mulher sempre vítima, incapaz de sambar na cara dessa homarada, e se faz isso sem que se parta daí para uma verdadeira revolução social: se a mulher será sempre oprimida pelo homem, qualquer que seja a condição em que se encontra, faz-se mais doq urgente ela lutar para abolir não apenas a prostituição em si, mas tb essa outra forma de prostituição disfarçada que é o casamento heterossexual e, em decorrência disso, a própria instituição familiar, uma vez que é dentro desse núcleo, nas mãos de pais, irmãos, primos, tios etc, que as mulheres mais vivenciam experiências de estupro, abuso e agressão. Quando é que vamos todas "virar" lésbicas pra nos livrar da opressão dos machos?

Com esse tipo de argumento perde-se de vista tb aquilo que as putas, em geral, colocam como a principal ameaça no exercício de sua profissão, a polícia, essa polícia que se sente no "direito" de cobrar para deixar o estabelecimento funcionando, para deixar as putas fazerem a rua em paz, no "direito" de exigir programas de graça quando esses zelosos defensores da lei sentirem necessidade (usam a ideia dq vão "proteger" a puta ou o estabelecimento em troca disso, olha só que bonzinhos!). Prostituição, como há muito vem sendo dito, não é nem nunca foi crime, mas desde o Código Penal de 1940 vive-se o paradoxo de ver toda a rede que envolve essa prestação de serviços ser criminalizada: é assim que se prostituir não é crime, mas favorecer ou facilitar prostituição sim, oq acaba por criminalizar indiretamente o próprio trabalho sexual. Oq faz o motel senão viver, seja no todo ou ao menos em parte, do dinheiro advindo de prostituição alheia? O motel pode, a casa de prostituição não? Cafetinagem atualmente virou uma palavra coringa e é importante buscarmos alguma definição para o termo para entendermos melhor oq nele nos incomoda. Alugar quarto para prostitutas morarem, sem que se exerça trabalho sexual ali, é cafetinagem? A polícia tem demonstrado que sim e vem se aproveitando da situação para extorquir a casa, extorsão essa que será, por sua vez, repassada pros ombros das próprias trabalhadoras: são elas e só elas que pagam a conta desses abusos, nunca o dono da casa. E assim vemos que oq antes não era uma casa de prostituição, por obra da extorsão da polícia acabará se tornando... mas continuam a achar que o grande problema das putas são os clientes, esses objetificadores malvados que dançam conforme a nossa música, que a gente faz de gato-e-sapato.

sábado, 15 de novembro de 2014

INDIANARA E A REGULAMENTAÇÃO DA PROSTITUIÇÃO

Transcrição da entrevista que Indianara Alves Siqueira concedeu a esta página e ao blog de Jaqueline Furacão [06/10/2014], mais especificamente do trecho onde ela aborda a história do PL Gabriela Leite e os sentidos que a lei assume para o exercício da prostituição e para sua rede de prestadores de serviços.

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JAQUELINE FURACÃO: "Aproveitando esse assunto [a discussão sobre o começo de Indianara na prostituição], eu queria saber o que você acha da Lei Gabriela Leite. Qual é a sua história com essa lei?"

INDIANARA: "O PL Gabriela Leite, o PL como foi discutido pela Rede Brasileira de Prostitutas, que é uma rede organizada no Brasil, por mulheres de todas as regiões do Brasil, mulheres que se organizaram em rede depois dos anos oitenta – a gente chama de a nossa musa ou a nossa chefe Gabriela Leite, que morreu ano passado. E com a Gabriela, pelas questões do HIV, a rede se reuniu primeiro pra políticas públicas, na área de prevenção, e aí viu a necessidade de se criar leis que regulamentassem a prostituição. Primeiro foi o debate sobre a Classificação Brasileira de Ocupações, 5198-5, que acabou sendo aprovada, gerou todo um debate mas foi aprovada; depois, então, foi o PL Gabriela Leite, que era o PL de regulamentação da prostituição e uma homenagem a Gabriela. As pessoas imaginam que o PL parece que ele saiu da cabeça do Jean, que o Jean acordou e "ah, hoje eu vou representar a prostituição". Não foi bem assim. Foi um acordo entre ele e Gabriela, a Gabriela estava se candidatando a deputada federal, o Jean a deputado federal, então eles entraram em acordo que aquele que entrasse, bom, se os dois passassem, ótimo, eles se apoiariam mutuamente, mas, se um deles não passasse, quem fosse eleito levaria e defenderia a pauta do outro. Como Gabriela não foi, o Jean levou, honrou a palavra dele, muito coerente. E, assim, é um PL muito espinhoso, ninguém queria discutir, principalmente as mulheres deputadas, não queriam defender, brigar por essa causa, então eu acho muito ridículo, a palavra mais correta é essa, de algumas feministas radicais quando elas dizem que o Jean silencia a voz das mulheres: ele foi o único que deu voz às prostitutas, ele foi o único que fez ecoar a voz das prostitutas no Congresso. Como ele silencia a voz dessas pessoas? Então, vá primeiro conhecer o PL, conhecer a história do PL Gabriela Leit, não critique, não seja contra – você pode até debater e você pode não estar de acordo com ele, mas você não pode ser contra ele ser aprovado porque isso é negar o direito a mulheres, e negar o direito a homens, porque quando se diz que a prostituição é algo somente de mulheres você está tornando invisível a prostituição masculina, nas saunas gays por exemplo."

AMARA MOIRA: "O que eu ouvi falando é que uma prostituta, se ela quiser contribuir com o INSS, ela pode já ter algum benefício social que essa lei garantiria a ela. Então, qual seria para a prostituta que se prostitui o grande benefício da lei? Porque, pra cafetina, pro cafetão, a gente vê claramente qual é e a gente não pode ser hipócrita de querer negar essa possibilidade a essas pessoas, continuar considerando isso um trabalho ilegal, continuar considerando a cafetinagem exploração sexual, quando nem sempre ela é. Mas com relação à prostituta em si, quais são os grandes benefícios que ela ganha com a regulamentação?"

INDIANARA: "É o contrário na realidade: a aprovação do PL Gabriela Leite não daria mais poder aos cafetões e cafetinas, ele retiraria esse poder. Porque cafetões e cafetinas só existem porque a sociedade tem uma visão da prostituição que ela é ilegal, quando na verdade ela nunca foi ilegal no Brasil e ela já chegou até a ser regulamentada de certa maneira. Hoje, podemos sim pagar, já ter o benefício do INSS, mas a nossa rede de prestadores de serviço toda é criminalizada. Então, por exemplo, se hoje eu me prostituo nesse bar e a polícia chega aqui e resolve fechar o bar porque ele incentiva, porque ele facilita a prostituição, a exploração sexual de pessoas, a cafetinagem, o rufianismo, etc., amanhã eu vou trabalhar aonde? Vou voltar pras ruas, onde é mais perigoso. Ou, também, eu que não gosto por exemplo de trabalhar na rua e que quero trabalhar nos prostíbulos, não vai poder, que esses lugares são criminalizados ou têm que existir na ilegalidade, quando sabemos que eles existem, a polícia sabe onde eles existem, isso na ilegalidade, mas a não-aprovação do PL na realidade só beneficia quem se aproveita das pessoas, quem se aproveita dos donos dos prostíbulos, como os policiais, que fazem essas redes de milicianos, entendeu?, que cobram dessas pessoas, que cobram das prostitutas, as donas de prostíbulo, os donos de prostíbulo, suborno, corrupção... Todo mundo sabe onde está, onde estão os prostíbulos todo mundo sabe, todo mundo sabe onde as prostitutas se prostituem. Por que não regulamentar isso, por que sermos hipócritas e então preferirmos ver esses lugares na ilegalidade? "Ah, mas essas pessoas exploram". Não, são acordos que nós fazemos com essas pessoas. O salão de cabeleireiro, as pessoas que trabalham nos salões de cabeleireiro fazem acordo também com os salões: ou pagam diária, ou pagam até 50%, as manicures têm que pagar até 70%, sabe, e tem uma quantidade de unhas e tudo pra fazer. Tem tudo isso. E só na questão da prostituição é que têm que ser criminalizados os nossos prestadores de serviço, é isso o que nós não queremos. Então, não regulamentaria nem cafetões nem cafetinas, apenas regulamentaria uma rede da qual nós já nos beneficiamos, o benefício pras prostitutas justamente seria esse. Você não tem que ter quantos clientes tem que fazer, não tem essa história de carteira assinada que o pessoal fala, nem cotas, nada disso. Esse é um trabalho mais específico, é diferente, porque vai ser regulamentado mas, da mesma forma que vai ser regulamentado, você vai continuar mantendo a sua autonomia. Então, a sua autonomia sobre quando você tira férias, quando você não tira, é tua, isso não vai ser retirado de você, que é diferente do trabalhador de carteira assinada e tudo. O trabalho da prostituição, o trabalho sexual, tem regras que são específicas dele, que não pode ser comparado com nenhum outro trabalhador autônomo e nenhum outro trabalhador regulamentado pela CLT."

https://www.youtube.com/watch?v=6ES5lHQhH3c

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

AS PUTAS QUE QUEREM SER PUTAS

As putas que querem ser putas, que gostam de ser putas, são um estorvo pro feminismo radical. Sendo abolicionistas, essas radicais se exasperam diante desse número crescente de putas que, empoderadas, querem sim regulamentar uma profissão pra si próprias, que sabem reconhecer os abusos existentes nessa profissão mas, ao mesmo tempo, acreditam-se capazes de superar esse estado atual de coisas e construir um espaço seguro onde exercer a atividade. Se hj as condições em que se exerce a prostituição são horríveis, isso não quer dizer que essas condições são imutáveis, ou que temos que abrir mão da profissão pela dificuldade de enfrentar esses problemas: quem está dentro, quem depende disso, luta por melhorias que esse projeto de lei é capaz de oferecer. O fim do abuso policial é uma das mais importantes: a polícia tem que se ver impossibilitada de continuar extorquindo as casas de prostituição, pra que esse desnível de forças seja alterado. Além disso, a regulamentação da profissão prevê que o valor acordado no programa seja passível de cobrança judicial: antes dessa lei aprovada, não haverá como a puta reivindicar que seja pago o programa se o cliente não quiser pagar (daí a necessidade de ter sempre por perto um 2x2). Quanto ao valor máximo que pode ficar com a casa, bom, vc já se preocupou em saber quanto uma manicure recebe do valor total do atendimento dela? Uma prostituta tem noção exata do valor que lhe é subtraído pelo estabelecimento, ao contrário das demais profissões, que maqueiam essa subtração até a pessoa não mais ser capaz de fazer a conta: um professor, qual a porcentagem da mensalidade do alunado fica em seu poder? Quanto do dinheiro que passa na mão duma operadora de caixa lhe é devolvido em forma de salário? Uma prostituta que trabalhe dentro duma casa sabe, 50% no máximo lhe será deduzido, oq chega a ser um luxo em tratando-se desse capitalismo absurdo. Há os custos de manutenção da casa, de limpeza de roupas de cama e banho, a proteção que implica o trabalhar numa casa e não na rua, a segurança do 2x2 que inibe ações violentas de clientes, a própria vitrine que a casa oferece pra prostituta poder expor seus serviços. O projeto de lei Gabriela Leite é um avanço considerável, apesar das falhas e lacunas que possui.

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

O QUE O PL GABRIELA LEITE TEM A VER COM ISSO?

É incrível como dentro da prostituição, com o Estado eximindo-se por completo de regular essa atividade, ainda seja possível que algumas prostitutas encontrem algum grau de liberdade no seu exercício. Chega o cliente, apodera-se da poltrona e cinco garotas semivestidas desfilam na frente dele, o acesso à intimidade de cada uma delas valendo o mesmo preço: "eu quero aquela", e 'aquela' tem que atendê-lo ou, então, pagar à casa o valor que a casa ganharia com esse programa (metade provavelmente, pra pagar os custos de manutenção, o quarto que será utilizado, a 'limpeza' das roupas de cama e banho, a vitrine que a casa 'oferece' às profissionais do sexo, a 'proteção' inerente ao trabalho sexual exercido dentro duma casa). Quem trabalha assim se vê poupada do esforço e desgaste de ter que 'xavecar' o cliente, seduzi-lo, gastar saliva, mas em troca não pode se dar ao luxo de recusar quem a escolhe. O processo é assim acelerado, olha-escolhe-vão, perde-se pouco tempo em blablablá. As que trabalham no portão podem escolher recusar um cliente que não desejam atender, mas precisam ser boas no papo pra conseguir fisgar o desejado, atraí-lo, enfeitiçá-lo, fazer com que ele acredite que nenhuma outra lhe daria oq só ela daria. Nenhuma das duas tem autonomia para atender o cliente fora daquela casa (ou então paga-se uma simpática taxinha absurda à casa: todos têm que tirar o 'seu', né?). Já as que trabalham na rua, como é que fica? Oras, a rua é pública, então elas estão expostas a todo tipo de violência, mas tb possuem liberdade total pra irem onde quiserem, fazerem oq der na telha pra conseguir o 'seu' e pra pagar pela vitrine q a rua oferece. Há tb as que atendem em casa, sem a proteção dum 2x2 que intimidaria clientes sem-noção, elas pagando a websites pra divulgação de fotos e informações do programa, fazendo de chats e redes sociais importantes ferramentas publicitárias (nada impede tb que evitem o contato físico apelando para o sexo virtual, para exibições na webcam). Não dividem com ninguém seus ganhos, mas são responsáveis por todas as despesas envolvidas na atividade.

Oq o PL Gabriela Leite tem a dizer sobre cada uma dessas modalidades? Uma pessoa me contou um relato especial doq houve com ela um tempo atrás, relato bastante expressivo sobre a necessidade do Estado se meter por esses lados. Ela abriu uma pensão para travestis, estipulou um preço xis nada abusivo para a diária (queria apenas oferecer um ponto de apoio para suas iguais, não visando lucro nem se manter com isso), mas como as travestis que lá moravam todas trabalhavam com prostituição ainda que não na casa (que mais elas fariam?), a polícia cravou os olhos gordos ali, chegou ameaçando enquadrar a pensão como casa de prostituição e, visto que isso seria crime (prostituição não, só o lucro em cima do trabalho sexual de outra pessoa), extorquiu a pessoa a pagar uma quantia xis de tanto em tanto tempo, fora os R$10.000,00 de entrada pra não fechar a casa... oq não era uma casa de prostituição mas sim uma simples pensão para pessoas excluídas de qqr possibilidade de alugar o próprio imóvel, por força da ação policial, que se baseia na ilegalidade da cafetinagem (e na ambiguidade da lei que define essa prática) para poder lucrar com isso, se transformou em casa de prostituição. Como se vê, ganhar com o trabalho sexual alheio é crime, mas extorsão não. Oq o PL Gabriela Leite tem a ver com isso?

domingo, 9 de novembro de 2014

NAMORANDINHA

"Faz tempo que tou atrás de vc... difícil te ver, viu?" Cliente apaixonado pela branquelinha que ora vos fala, ele, aquele primeiro, que me apelidou de crente por minhas roupas comportadas: caí nas graças dele desde então e ele não largou mais meu pé. Eu por acasos do destino vim dar em Piracicaba (três dias de Encontro Paulista das gay, sapa, bees e travestis, com Parada domingo), justo a cidade dele, e ele aproveitou pra se aproveitar de mim coitada, empalada viva outra vez! Veio me pegar de táxi, fomos aos cafundós de Pira (eu c'o cu na mão, onde que eu vim me meter, volto viva será?), mas foi só chegar no Park Motel e já fui me soltando, soltando o cinto dele, beijocas, amassos, sou toda sua, vem cá, olha que eu vou... ele gostou, e eu já nos domínios da minha perícia: agora era fazer oq eu sei de cor, estilo namoradinha, saudades desse seu corpão. Tirei sua calça e aquele cheiro de macho veio e me deixou toida doida, salivando e aí lambendo e aí engolindo e aí vcs sabem bem. Nova rodada de amassos, eu de novo a necona dura (levo ou não levo jeito?), desde os primórdios do encontro, ele brinca um pouco com ela, coisa que não tinha feito a outra vez -- viciosa, pergunto se ele não quer fazer a passiva. Que nada. Não com ele, que já foi mostrando quem manda. Virei frango assado, gelzinho, dedinho vai e volta, a neca vem em seguida, e doía, doía, doía ainda mais, doía que não passava, até que entrou e se assenhorou da casa... e ele foi indo devagar, se empolgando aos poucos, começando a bombar firme e decidido, e qdo eu já quase que desmaiava ele vai com tudo pra dentro, e outra vez e mais outra, umazinha mais e aí cessa e arremessa exausto o corpanzil sobre mim. Beijinhos apaixonados, tira de dentro de mim, chequinho de leve na camisinha (ai essa xuca que não sei fazer!), nossa como foi bom, adoro sair com vc, vou querer de novo. Banho, liga pro táxi, os dois na cama agarrados, eu sem nem saber como cobrar (não combinamos preço, acredita?)... e minha parte, amor? Ah sim, quanto é mesmo? O de sempre. E lá vem a nova oncinha pra minha coleção. Volto com ele de táxi e foi só chegar, aliviada, e já peguei azamiga e corremos pro putz-putz pra soltar a onça. Oq vem fácil, vai fácil igualzinho.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

PUTA DE GRAÇA, DE GRACINHA

A terfinha queriduxa acha que cago dindim e, portanto, não preciso ser puta. Acha, né?, pq mal sabe ela que tou toda arrombada, não só literalmente, devendo as calcinhas no banco, 500 reais negativos (bendito cheque especial, ô glória!), e que não há a menor expectativa de qdo terei o suficiente pra saldar esse rombo, quanto mais pra pôr peito e fazer nariz, coisas que, vai saber, quem sabe, aumentarão o número de pessoas que me respeita enqto ser feminino (se vão me aceitar como mulher isso pouco importa, não preciso do aval de ninguém pra ser oq sou, só exijo o tratamento no feminino, ser chamada de Amara). A bendita feministóide café-com-leite tb acha que não é apropriado uma puta gozar: gozou não é puta, é vadia, e parece que vadia tb não pode, pelo visto. Ai se ela lesse a Bruna Surfistinha dizer em seu 'O doce veneno do escorpião - Diário de uma garota de programa':

"Sua boca ofegante roça o meu pescoço; sinto sua barba por fazer, enquanto com minhas mãos entre suas pernas sinto o mundo virar pedra. Com um puxão dele, o top desliza e meus seios pulam pra fora. Como quem descobre um novo brinquedo, deixo que ele segure firme, mas com carinho. O bico do meu seio fica intumescido com aquela língua atrevida passeando pela auréola. Sinto sua respiração quente, ofegante. Lambe um seio, depois o outro, junta os dois com as mãos, querendo encher a boca como um garoto guloso. Na confusão de roupas tiradas com pressa, ele puxa minha calcinha e desce com a boca até o umbigo. Para. Me olha com um jeito sacana.
- Você quer que eu te chupe?
- Quero.
- Agora ou depois?
- Você é quem sabe... A língua é sua.
- Mas a bu... é sua.
- Então quero agora.
Gozei muito, sem precisar de nenhum esforço interior.  Foi bom de verdade. E estava só começando."

Transar de graça, eu como todas as vadias sempre fizemos; como a Indianara bem demonstrou, o problema é cobrar por isso, querer cobrar por isso, viver de dar e comer -- vida mansa (mal sabe ela!). Oq leva uma pessoa a querer ser advogada, política, empresária, parece não ser da conta de ninguém, mas puta tem que prestar contas, e se não for puta por passar fome, aí é fogo no rabo e o ser não merece respeito. Sou viciosa, sempre fui dada a dar pra anônimos, prostituição seria o meu lugar de eleição. Só luto por respeito, por segurança, por melhores condições de trabalho. Até parece que não posso fazer o que gosto se isso envolver sexo, e que, se é isso oq eu quero fazer, dar, então tenho que aceitar que a forma como hj se exerce a coisa é a forma como ela sempre será exercida. Gente, ó, só quero paz pra poder dar tranquila, com vontade, e poder cobrar por isso com o respaldo duma profissão reconhecida, regulamentada: é querer muito, meldelzes? Cruzes, que mundo é esse...

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

JEAN WYLLYS, PL GABRIELA LEITE E A OBJETIFICAÇÃO DA MULHER

Transcrição dum vídeo em que Jean Wyllys responde, com bastante pertinência, a uma pergunta igualmente importante feita por uma feminista a respeito das relações entre o PL Gabriela Leite (que regulamenta a prostituição) e a objetificação da mulher.

Laís: "A minha pergunta ela tem mais um cunho social. Uma das questões que vêm sendo levantadas em contraponto ao teu projeto de lei, que visa a regulamentação da prostituição, diz respeito à objetificação da mulher. Os movimentos feministas de todas as épocas e de diversas classes, desde Frida Kahlo a Valeska Popozuda, promovem o empoderamento feminino para que aja a efetiva igualdade entre homens e mulheres. Historicamente, e como fala tb na Bíblia, a prostituição é justamente o oposto a esse empoderamente feminino, e a prova disso é a divergência numérica entre mulheres prostitutas e homens prostitutos. E ainda mais contranstante é o consumo de prostituição por homens e com o consumo de prostituição por mulheres. O mercado é de fato um mercado que objetifica e é um mercado machista. Eu sei que nem por isso deve deixar de ser regulamentado. A minha pergunta é: o seu projeto não reafirma essa desigualdade de gênero e não dá mais empoderamento ao homem? Se não, por quê?"

Jean Wyllys: "Bom, Laís, eu não sei em que medida Valeska Popozuda se apresentar com um short micro e de bustiê, untada em óleo e dourada, e dizer 'late, late, que eu tou passando' e afirmar a gostosura dela e a superioridade dela diante do homem que ela trata como um cachorro, eu não vejo qual é a diferença e onde isso é mais empoderamento doq uma mulher que diz 'eu quero dar e quero cobrar por isso'. Eu não entendo porque uma coisa é empoderamento e a outra é objetificação. Pra mim, a objetificação da mulher é dizer pra mulher oq ela deve fazer com o seu corpo, inclusive proibi-la de explorar esse corpo comercialmente. Ela é explorada de outras maneiras e isso não incomoda as feministas, mas quando se trata da relação da mulher com sua sexualidade elas se incomodam, porque na verdade elas estão fazendo eco a uma repressão sexual que não dá a mulher a liberdade sobre seu corpo, inclusive pra prestar serviço sexual com ele ou, como diz a Georgina, 'fazer excelentes trabalhos com as mãos' p.ex. E o meu projeto de lei, em medida nenhuma ele fortalece essa desigualdade de gênero porque uma coisa que as feministas, essas feministas, não todas, gostam de fazer é esconder sempre que elas falam sobre esse projeto, elas falam assim 'o projeto do deputado Jean Wyllis'. E elas dizem isso porque elas não querem encarar o fato dq se elas reconhecem que o projeto não é meu e que o projeto é do movimento das prostitutas, se elas reconhecem que é um movimento que nasceu do movimento das prostitutas, elas põem em xeque a questão da representação, quem está legitimado a representar quem. E aí a gente reclama um tema cara pra esquerda, que é o tema do protagonismo: as prostitutas têm que ser porta-vozes de sua luta, e não mulheres criadas a ovomaltine e educadas nas melhores universidades e nos cursos de feministas. Eu até acho que devem dialogar. O movimento das prostitutas tem muito oq aprender com as feministas, que se formaram feministas na academia, tem muito oq aprender. O feminismo feito na academia colaborou bastante, inclusive com o movimento LGBT, mas tem que pensar em protagonismo. Eu, como homossexual, não gosto que pessoas falem em meu nome, e com toda a contradição do movimento LGBT eu prefiro que nós falemos em nome de nós mesmos. Então o protagonismo é algo fundamental. Como as mulheres não gostam que os homens falem no nome delas. Aliás, é tão curioso que essas mesmas feministas, se por um lado elas afirmam isso, elas têm um problema sério com a inserção das mulheres transgênero no movimento delas. Esse segmento tem um problema sério em incorporar a luta das mulheres transgênero como parte do movimento mais amplo feminista, então não por acaso as transexuais estão conosco, com nós LGBTs, e não necessariamente com o movimento feminista, só pra vcs terem uma ideia. Porque tem uma dificuldade de reconhecer a mulher transgênero como mulher e aí tem uma essencialização doq é ser mulher, e não entendido como a Simone de Beauvoir já dizia, 'não se nasce, torna-se mulher'."

sábado, 1 de novembro de 2014

A QUE SERVE A CURA DA AIDS?

Ninguém quer a cura da AIDS pensando no bem-estar de quem vive a doença -- queremos o fim da AIDS porque queremos o fim dos soropositivos. Não que tenhamos algo contra eles; é sim o risco que eles portam oq nos incomoda. Por isso desejamos seu fim, pra que não corramos o risco de nos tornar um deles. Quem tem um amigo ou amiga soropositivo? Posso dizer com toda a certeza que jamais apertei a mão de alguém, jamais abraçei alguém, sabendo que a pessoa vivia o HIV / AIDS. Tenho amigos soropositivos no entanto, só que quando eu soube da notícia eles já estavam distantes e nunca mais os vi desde então. Teria mudado a forma como os abraço, como demonstro meu afeto por eles? Não sei, quero crer que não, mas sei que algo será afetado.

E justo EU não sei, eu que com 17 anos transei sem qqr proteção com uma pessoa, eu sendo passiva, eu sendo ativa, ela gozando em mim, eu nela, pessoa que me disseram meses depois ser soropositiva e não só: ela havia morrido meses dps, em decorrência da doença. Nunca confirmei se a pessoa era mesmo soropositiva: dps de nossas duas transas, entrei em pânico, não estava preparada pra ter uma relação com uma travesti (novamente, justo eu, que me descobriria travesti tempos depois), pra peitar todo o ódio transfóbico da sociedade... entrei em pânico e sumi sem nem dizer tchau, por mais que eu gostasse dela e ela de mim. Qdo soube dela novamente, tinha acabado de morrer, meses depois, ela supostamente com AIDS. Desde então venho fazendo trocentos exames, todo ano, pra me certificar: todos negativos. Ela se foi sem me dar tchau, do jeitinho que fiz. Me safei? A escrotidão do meu proceder justifica oq eu vim a saber, ou melhor, ouvir sobre ela? Durante anos tentei me proteger da percepção da canalha que fui recriminando-a por algo que sequer sei se era verdade. Pensei que não era pra ser, senão agora eu tb seria, como ela era. Acreditei que isso me forçaria a me proteger nas próximas relações, o trauma. Não foi bem assim. Entrei num turbilhão de relações desprotegidas tentando corrigir esse erro avsurdo, eu saindo impune, querendo (oq é querer numa hora dessas?) me contaminar sem de fato querer mas sem conseguir evitar o impulso.

Queremos nos livrar da doença pra nos livrar dos doentes, do risco de nos tornamos um deles. Nos recusamos a ver a crueldade por trás dum tal desejo, quando existem pessoas que vivem a doença e sabem que não há cura. Desejamos o fim da AIDS, e algumas pessoas vão viver e morrer numa sociedade que quer o fim da AIDS, o fim delas próprias, daquilo que as distingue. Não se morre de AIDS e a vida de quem viva a AIDS é longa, desde que se cuide. Travestis têm expectativa de vida de 35 anos p.ex., bem menos do que a de um soropositivo. AIDS, não tendo cura (e refaço a pergunta ética, pra que queremos a cura?), torna-se uma condição: uma sociedade em que ter AIDS fosse condição sine qua non não seria uma imagem de inferno. Nossos padrões de beleza seriam outros p.ex., nossas práticas alimentares e sexuais tb. Qual o drama?