segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A LÓGICA DO QUE SE DIZ

Acho engraçado quando dizem que não sou puta de verdade por fazer programa sem precisar, ideia que reforça a concepção de prostituição como subemprego, disponível apenas pra quem não tem condições de entrar no mercado formal de trabalho (e nunca pra quem não quer ingressar nesse tal mercado, mas sim ser puta). A ideia de precisar tb tem sua graça, pq é o outro quem está decidindo e definindo por mim aquilo dq preciso.

Acho engraçado tb qdo dizem que não sou puta de verdade mas só por safadeza, agora reivindicando essa profissão como lugar de opressão e sofrimento, nunca prazer: gostar doq se faz, um lema qdo buscamos emprego, não valeria pra prostituição. Se vc transa fácil, se se dá bem com várixs (oq não quer dizer com todos -- ainda escreverei todo um capítulo sobre o "não" das putas, um "não" às vezes muito mais nítido e delimitado doq o de mtas mulheres em relações monogâmicas), vc não está habilitada pra profissão no imaginário dessas pessoas.

Acho ainda muitíssimo engraçado qdo dizem que não há nada ali para conhecer ou entender, pois aquilo é um esgoto humano... A metáfora é incrível: usa-se como referência um item imprescindível da nossa sociedade (o esgoto), item sem o qual quase não podemos imaginar a vida tal qual a vivemos hj, e se conclui que sendo a prostituição um esgoto não há nada ali que interesse, como se esgotos surgissem naturalmente e naturalmente se dispusessem a trabalhar para nós, a trabalhar tão incansavelmente que já não se pode mais prescindir deles: seríamos isso as putas, imprescindíveis por existirmos invisíveis?

Mas, acima de tudo, acho engraçado que imaginem o puteiro como antro propagador de doenças, oq revela todo o nosso pavor por pessoas portadoras de doença, todo o nosso desejo de que desapareçam. "É mais fácil pegar HIV no puteiro ou numa relação monogâmica?", pergunta que sempre me fazem pra "provar" os riscos que corro. Oras, a pergunta que faço é distinta: é mais fácil pegar HIV no puteiro, coletando sangue em hospitais ou numa relação sorodiscordante (relação em que apenas um dos parceiros é soropositivo)? A resposta é simples: mais fácil é onde vc se desprotege, pois protegendo-se o risco é igual em qqr situação, ínfimo. HIV não está estampado na cara de ninguém, então prevenção é fundamental sempre -- igualmente fundamental, no entanto, é pararmos de querer fugir ao convívio de pessoas soropositivas por achar que isso nos trará segurança (convívio declarado, né?, pq como se disse lá em cima HIV não tá escrito na cara de ninguém): segurança é camisinha e, em caso de acidente, recorrer o qto antes à PEP (medicação gratuita disponível em qqr hospital público para evitar contágio de HIV após exposição a situação de risco -- só chegar e pedir, sem drama nem muita burocracia). As pessoas não percebem o qto segregam soropositivxs com esse tipo de discurso, o qto não impõem a essas pessoas silêncio absoluto sobre sua condição: é isso ou viver o opróbrio cotidianamente. Não percebem tb o qto estão se lixando pra saúde e condições de trabalho das putas, ao invés de tentar entender oq as leva a se desprotegerem qdo se desprotegem e a se protegerem qdo se protegem: essas pessoas acham que a gente nasce sabendo como se impor sobre o nosso desejo, oq fazer qdo se sente a pulsão por fazer sexo sem coleiras. Sexo não é manual de instruções.

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