quinta-feira, 30 de outubro de 2014

DROGAS EXPERIMENTAIS NA PREVENÇÃO AO HIV (PrEP)

Três centros de pesquisa brasileiros, dois em São Paulo e um no Rio, estão cadastrando cerca de quinhentas pessoas portadoras de pinto original de fábrica que transam com pessoas portadoras de pinto original de fábrica (a lógica é bem essa, ou, como dizem, "ser nascido do sexo masculino e transar com quem tb nasceu do mesmo sexo, HSH") para receber uma medicação que, tomada obsessivamente todos os dias e sempre, eu disse sempre, no mesmo horário, garantiria à pessoa 99% de proteção em caso de exposição ao HIV. Ouvi falar da novidade cerca de 3 meses atrás, quando minha libido voltava a dar sinais (a terapira hormonal traz, entre outros inconvenientes temporários, a perda do apetite sexual), e fui atrás ávida de informações para ter certeza dq a medicação era mesmo esse milagre todo. Seria a salvação pra mim que sempre vi a camisinha como inimiga, opressora (quem nunca?), e tive que contar forçosamente com a sorte ao longo de boa parte das minhas experiências sexuais pra não pegar a 'tia', ferramenta essa especialmente importante agora que eu recomeçava a transar e que eu ensaiava os primeiros passos como puta: semre que não estive em relações monogâmicas, foi um exame de sangue por ano pra descobrir se dessa vez eu não tinha me lascado... Sexo pra mim era sexo livre de coleiras ou não era sexo, coisa que demorou pra mudar e que ainda hj afeta consideravelmente a maneira com que sinto prazer. A minha sorte, a sorte com que contei toda a vida, era o sexo oral ser minha forma preferida de prazer, eu a passiva, receptora, boca de veludo, engolidora de espadas, e que a transmissão de HIV por essa via é mais complicada doq pelas demais: com isso pude ser puta de banheiro em shoppings, rodoviárias e todo tipo de lugar movimentado por vários anos da minha adolescência sem nunca me infectar.

Dito isso, fui no começo do mês ao HC da USP, um dos centros de São Paulo participantes do projeto, pensando que bastaria pedir e me cadastrariam de bouas pra receber o remédio. Qual a surpresa quando, após três horas de entrevista enfadonha altamente invasiva, recebo a notificação dq não sou tão promíscua assim pra participar!? Tem número mágico, gente: se vc não disser que foi 'ivone' (de 'passivona') sem preservativo com pelo menos xis parceiros ao longo do último ano, nada de PrEP pra vc. Não basta ser travesti, bissexual, ter dificuldades de longa data com a bendita, nem sequer ser puta. O número mágico ao que tudo indica é uns quatro, vc de quatro passiva e sempre no pêlo, sem borracha, senza guanto ou só senza, como dizem, coisa que só descobri quando fui ao outro centro de pesquisa de São Paulo, o CRT. Ali, já vacinada pela outra experiência, chorei as pitangas recordando os momentos pretéritos em q enfrentei o tempo de janela pra fazer o exame e o tempo mesmo de espera para que o exame ficasse pronto, chorei bem chorosinha recordando a nóia por que passei após cada relação desprotegida em que me meti sei lá por quê, chorei decidida e sentidamente a ponto da psicóloga pegar minha mão e dizer que eu era a cara do projeto. Ufa! Nem precisei de lágrimas de crocodilo, na verdade: bastou lembrar o qto eu assumi um comportamento auto-destrutivo, quase suicida, vida afora e o qto eu acreditava que nada teria mudado, ou mudaria, agora que sou mulher e, principalmente, puta. Veio negativo o teste para HIV (o resultado esperado, sempre em desespero), e só preciso voltar no começo do mês pra receber os demais exames (sífilis, hepatite, além doq revela a condição dos meus rins) e, com eles limpinhos, os benditos comprimidos... Enquanto isso, ponho-me a relatar tudo oq ouvi a respeito desse "milagre" no CRT, uma versão MUITO mais honesta e transparente das limitações e potencialidades da PrEP doq oq eu tinha ouvido no HC da USP.

1) CONFIABILIDADE DA PrEP. Como saber que a medicação foi a única responsável por as pessoas que a tomavam de maneira obsessiva não se contaminarem? Estudos posteriores demonstraram que muitas dessas pessoas obsessivas não se interessaram por continuar na medicação após o um ano de pesquisa, pq se deram conta dq o uso da camisinha era mais tranquilo doq imaginavam. Nesse sentido, poderia ser que essas pessoas já fizessem uso regular da camisinha em suas relações e que isso fosse responsável pela prevenção, e não o remédio em si. No entanto, como me disseram os pesquisadores do HC da USP (essa informação não confirmei no CRT), foi medida tb a taxa de infecção por sífilis e essa se manteve estável, oq provaria que as pessoas estavam sim transando sem preservativo e que só o remédio explicaria a diminuição de 99% da taxa de infecção por HIV.

2) 99% DE PROTEÇÃO CONTRA O HIV UMA PINÓIA. A PrEP tem por base o Truvada, duas medicações usadas no coquetel HIV (duas dentre as dezoito possíveis, segundo me explicou a infectologista), e que existem cepas do vírus resistentes a uma ou até mesmo às duas opções que compõem o remédio. Uma pessoa soropositiva que tenha começado a se tratar com elas e que tenha se tratado de maneira irresponsável, dia sim, dia não p.ex., pode ter "queimado essa etapa terapêutica", i.e., feito com que a cepa dq é portadora se torne resistente a essas medicações: oras, caso eu me exponha a situação de risco com uma cepa dessas, a chance da medicação me proteger cai drasticamente, ainda que a pesquisadora me garanta que ela seja maior de qqr maneira -- 90% de proteção na melhor das hipóteses, foi oq ela me disse, e 90% não é 99% e muito menos 100%.

3) PREJUDICAR UM POSSÍVEL FUTURO TRATAMENTO CONTRA O HIV. Caso eu me infecte enquanto estou tomando a medicação (seja por tomá-la de forma irresponsável, i.e., de forma não obsessiva, seja por estar lidando com uma cepa resistente), posso acabar queimando a possibilidade de usar essa medicação como base do meu coquetel para tratar-me da doença. Sendo a PrEP uma versão simplificada do coquetel, ou seja, inadequada para tratamento e controle da carga viral, tomá-la em simultâneo à infecção pode tornar a cepa que porto resistente à medicação e, com isso, diminuir as minhas possibilidades de tratamento. São dezoito as possibilidades do coquetel, mas cada uma delas apresenta uma série xis de efeitos colaterais e muitas vezes a pessoa prefere abandonar o tratamento a conviver com esses efeitos. Nesse sentido, eliminar duas opções de tratamento (que podem produzir no meu corpo efeito colateral não tão pesado quanto oq outras medicações produzem) é potencialmente arriscado.

4) DSTs E PrEP. A presença de outras DSTs pode aumentar a chance de infecção pelo HIV ainda que eu esteja sob tutela da PrEP, pois elas debilitam o meu sistema imunológico e, com isso, diminuem a taxa de proteção do remédio. Portanto é de extrema importância o acompanhamento médico constante em caso de repetidas relações sexuais desprotegidas, especialmente quando ocorram com parceires de sorologia desconhecida (i.e., pessoas que não têm um exame de sangue fresquinho, recente, pessoas comprovadamente soronegativas).

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

VICIOSA PAJUBÁ [versão travesti de Lady Marmalade, by Eric Aloka Silva]

"O que você faz quando quer dar o edi
E não tem nenhum boy afim?
Eu pego o batom e o picú de amapô
oh, oh, oooohhhhh

Refrão:

Cheque, chuca, neca, cláudia
Doce, aqué, snif, taba
Faz a louca, bee, arrasa
Viciosa Pajubá

Close, carão, picumã
Chanã
Close, carão, picumã"

sábado, 25 de outubro de 2014

FEMINISMO CAFÉ-COM-LEITE

Tem feminismo nescau radical que acha que eu, por ter encontrado prazer como puta, faço o que faço por fetiche, implicando com isso inclusive que fetiche é ruim, coisa burguesa (gente que se preze gosta de papai-mamãe na opinião desse feminismo café-com-leite, admitido só por razões de sororidade). Eu fui atrás sim de sonhos, atrás de homens que me vissem como mulher, que me dissessem eu ser linda, feminina, que demonstrassem isso em seus atos, na forma com que me tocavam... precisei desse empurrão pra me sentir mulher, mais mulher, saber que um homem pagaria pra gozar um certo curto tempo da minha intimidade -- não homens lindos, homens quaisquer, homens que pudessem e quisessem me ver assim sim, pq não? Caras como esses chegaram com tesão e saíram apaixonados, tal a minha entrega, pediram meu número, me ligam toda semana, me tratam a pão-de-ló... e tem feminista que condene as que se derretem por cantadas baratas! Não me arrependo de tudo, fiz oq me cabia, oq coubesse em mim. Me amaram, pagaram por me amar, pra me amar, pagaram por algo que eu lhes daria de graça em outro canto qqr, bastava pedirem gentis: gente disposta a me humilhar, me tratar como macho, disso o mundo está cheio, mas quantos fariam o contrário, chupariam meus seios, me abraçariam como quem me abraça, como quem me protege, me beijariam nos lábios dps do gozo, deixariam meu píntio em paz, esquecido como eu própria o esqueci?

Hoje mesmo um segurança me gritou "ô amigo" quando saí do banheiro feminino na rodoviária, insistiu no grito até que eu me voltasse pra ele e fosse na direção do idiota. "Deixa eu te dar uma palavrinha", ele disse. Vc me chamou do quê? "Amigo". Olha aqui você, olha bem, amigAAAA! Dei as costas e deixei o imbecil falando sozinho. Meus clientes não me tratam assim, nunca me tratarão.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

O PORNÔ PRAS PUTAS

"-Quer?
-Será, ai, sei não, e se descobrem, meldelz!...
-Nada a ver, é só público europeu, tem nem como.
-Mas a gente ganha pra isso?
-Você 500 pq é homem, travesti é mais, 800.
-E oq q a gente faz?
-Sexo, oras: tudo igual o nosso dia a dia, namorandinhos mas bem safadjeenhos."

Foi assim que minha namorada, uma travesti requisitadérrima pra pornôs (ela mal começava a transição na época, sempre de picumã e nem peitinho de hormônio, mas dona duma neca odara de 24cm, destruidora mesmo, já toda mulher, belíssima, nossa e como!), me convidou pra participar dum filme. Eu, lá pelos 20, um menininho tonto, tentando viver na transição dela a que eu sequer me permitia imaginar pra mim, aceitei. Seria a tarde inteira numa chácara nos arredores de SP, vários filmes sendo gravados juntos, transporte e comida na faixa: só tínhamos que transar, e era isso. Fizemos a xuca bem feitinha ("nada de restos fecais lá na hora, viu?"), e fomos pro quarto. Me deram meio comprimido de viagra pra ajudar, pq eu estava nervosa -- super compreensivos, sem fazer qqr pressão. Foi um sufoco. A câmera não me deixava à vontade e eu, que já tinha relacionamento complicado com a minha neca, não conseguia deixá-la dura por nada. Saíram do quarto, deixaram só a câmera e nós duas: nada de endurecer. Outro comprimido de viagra, a cena foi rolando, fiz a passiva enquanto isso (sem guanto, com namorada era assim), mas não teve como. Por fim cansaram de esperar e trouxeram um dispositivo estranho, tipo um negócio de ketchup de lanchonete, cheio duma pasta feita a base de xampú que parecia porra... deixei a neca dura o mais deu, aí eles apertaram o negócio, e zás! parecia que eu tinha gozado. Toda treinada no vício (na língua travesti, o bajubá, "fazer por vício"é "ser viciosa, transar de graça, gostar da coisa"), super dada a aventuras, tava ali bamba de medo da câmera que me perseguia, que não me deixava em paz... O engraçado foi que, fazendo já mais de um mês que a gente namorava, aquela foi a única vez que eu dei pra ela sem me doer e me lamuriar, a única vez que senti prazer de verdade dando pra ela. Ganhei o dindim, e é óbvio que nunca mais me chamaram. Nenhum trauma entanto, só o medo meio que permanente de alguém encontrar o bendito filme algum dia, medo que durou até o começo desse ano, qdo cansei de guardar segredo e saí vomitando a história aos quatro ventos -- nunca vi mesmo, sei lá se existe, sei lá se vão me reconhecer.

Mas lembro bem doq ela dizia a respeito e, hj, quando vejo gente que não é atriz pornô vir propor a abolição desse tipo de filme (ou mesmo da prostituição), penso: "pq não propõe o fim da sua profissão, ein, meu beiiim?" 800 reais na época e ela fazia vários por semana: agora eu te pergunto quantos programas (média de uns 70 reais cada um) ela teria que fazer pra chegar nesse valor? Numa tarde, fazendo uns dois, três filmes, dava pra ela ganhar o equivalente a uns 30 programas... transando só com gente conhecida, sem riscos de violência, um pessoal em quem ela confiava, que a tratava bem. Ela combinava programa só pela internet, tinha medo da rua, recém-chegada em SP do Nordeste, tendo que mandar dinheiro pra ajudar a mãe: os filmes foram um paraíso na vida dela. E viciosa como eu, só que beeem beeeem mais, pq câmera alguma inibia aquela potencialidade toda, aquela vontade ininterrupta de amar, não tinha qqr dificuldade pra se entregar por completo na cena -- ela vestia a camisa por assim dizer, fazia por gosto e gozava de verdade.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A LÓGICA DO QUE SE DIZ

Acho engraçado quando dizem que não sou puta de verdade por fazer programa sem precisar, ideia que reforça a concepção de prostituição como subemprego, disponível apenas pra quem não tem condições de entrar no mercado formal de trabalho (e nunca pra quem não quer ingressar nesse tal mercado, mas sim ser puta). A ideia de precisar tb tem sua graça, pq é o outro quem está decidindo e definindo por mim aquilo dq preciso.

Acho engraçado tb qdo dizem que não sou puta de verdade mas só por safadeza, agora reivindicando essa profissão como lugar de opressão e sofrimento, nunca prazer: gostar doq se faz, um lema qdo buscamos emprego, não valeria pra prostituição. Se vc transa fácil, se se dá bem com várixs (oq não quer dizer com todos -- ainda escreverei todo um capítulo sobre o "não" das putas, um "não" às vezes muito mais nítido e delimitado doq o de mtas mulheres em relações monogâmicas), vc não está habilitada pra profissão no imaginário dessas pessoas.

Acho ainda muitíssimo engraçado qdo dizem que não há nada ali para conhecer ou entender, pois aquilo é um esgoto humano... A metáfora é incrível: usa-se como referência um item imprescindível da nossa sociedade (o esgoto), item sem o qual quase não podemos imaginar a vida tal qual a vivemos hj, e se conclui que sendo a prostituição um esgoto não há nada ali que interesse, como se esgotos surgissem naturalmente e naturalmente se dispusessem a trabalhar para nós, a trabalhar tão incansavelmente que já não se pode mais prescindir deles: seríamos isso as putas, imprescindíveis por existirmos invisíveis?

Mas, acima de tudo, acho engraçado que imaginem o puteiro como antro propagador de doenças, oq revela todo o nosso pavor por pessoas portadoras de doença, todo o nosso desejo de que desapareçam. "É mais fácil pegar HIV no puteiro ou numa relação monogâmica?", pergunta que sempre me fazem pra "provar" os riscos que corro. Oras, a pergunta que faço é distinta: é mais fácil pegar HIV no puteiro, coletando sangue em hospitais ou numa relação sorodiscordante (relação em que apenas um dos parceiros é soropositivo)? A resposta é simples: mais fácil é onde vc se desprotege, pois protegendo-se o risco é igual em qqr situação, ínfimo. HIV não está estampado na cara de ninguém, então prevenção é fundamental sempre -- igualmente fundamental, no entanto, é pararmos de querer fugir ao convívio de pessoas soropositivas por achar que isso nos trará segurança (convívio declarado, né?, pq como se disse lá em cima HIV não tá escrito na cara de ninguém): segurança é camisinha e, em caso de acidente, recorrer o qto antes à PEP (medicação gratuita disponível em qqr hospital público para evitar contágio de HIV após exposição a situação de risco -- só chegar e pedir, sem drama nem muita burocracia). As pessoas não percebem o qto segregam soropositivxs com esse tipo de discurso, o qto não impõem a essas pessoas silêncio absoluto sobre sua condição: é isso ou viver o opróbrio cotidianamente. Não percebem tb o qto estão se lixando pra saúde e condições de trabalho das putas, ao invés de tentar entender oq as leva a se desprotegerem qdo se desprotegem e a se protegerem qdo se protegem: essas pessoas acham que a gente nasce sabendo como se impor sobre o nosso desejo, oq fazer qdo se sente a pulsão por fazer sexo sem coleiras. Sexo não é manual de instruções.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

IRRECUPERÁVEL

Amara Amarga Moira Sina, tanto ela teimou que conseguiu: sobreviveu à violação do hímen, e ganhou por isso, não tão pouco assim, nem só dindim. Prazer tb, pois se esbaldou nos três que "lhe conheceram como só homem conhece mulher" (Eva e Adão, Livro de Guínnesses). A outra noite foi só depressão e nenhum mísero puto; dessa vez, puta, a calcinha melada, o bolso cheio! Três clientes, um por hora, mal dava tempo de voltar pra rua e lá eu ia outra vez pro matel (motel no mato, o estacionamento) ou quarto. A política do melhor vinte meu, que teu. Experiência. E vontade de transar, como não? Era virgem, era uma vez.

Beija na boca? Pode apostar. Carinhosa você, e rosto lindo, bem feminino. É que gostei de você, esse pauzão: será que cabe em mim? Quanto você faz? Depende doq quer... Gozar gostoso. Então 30 no estacionamento. Faz por 20? Só dessa vez, só pra você (mentira, o segundo foi 15! hihi). E lá fui eu abrindo o zíper com a habilidade que eu esqueci de esquecer, a boca buscando o fundo através do falo, sem tocar nos dentes, sem cessar o entra-e-sai. Uou, calma que eu gozo assim, que boca é essa!? Boca de quem faz com gosto, boca de quem faz não por fazer mas por gostar -- qual o espanto quando me vi excitada, qual o espanto quando descobri uma ereção num membro que nem parecia mais funcionar? Beijei então aquela boca, aquele cara que nem de longe corresponderia aos padrões de beleza (esse sempre foi o meu padrão, padrão algum, quem quiser desde que homem [com mulher é que era diferente]), aquele e o próximo e o depois dele, todos. E dessa vez não tive nojo ou mal estar depois do beijo, não me incomodou a boca masculina, a barba me arranhando, roçando, machucando: como mulher, não mais me afetava a homofobia internalizada que vivi a vida inteira! Talvez por isso esteja difícil eu me interessar por mulheres hoje em dia, e assim persisto em essência heterossexual. A averiguar.

O segundo quis me comer, mas na pressa, um falo gigante como há muito eu não via, como há tempos não me comia, não deu, não dei. Ficou na mão, não qualquer uma e sim a minha, ora pois! Gozou no meu rosto, ele e os outros dois ("na boca não", todos respeitaram), e se foi feliz, prometeu voltar. O terceiro conseguiu o feito, nem sei bem como: já laceada talvez, das investidas do primeiro, a coisa doeu (ai, como doeu!) e só ali perdi o tesão, digo, a ereção. O tesão, a euforia, seguia viva, o desejo, desafio de me superar e engolir aquele falo, como o engolia em priscas eras. Engoliu-se-me e então a dor refreou; não veio prazer no entanto, e só esperava ele terminar, ele se regalar (esse sempre foi um dos meus prazeres). E ele uma hora tirou e se tocou até leitar com gosto o meu rosto. Os outros pagaram antecipado, pq eu pedi, mas esse veio todo amor, me pediu em namoro até ("ainda não, mal nos conhecemos"), me ligou 15 vezes até que eu o atendesse e encontrasse (queria aquela crente que ele viu no Itatinga outro dia [eu, de roupas comportadas], pediu meu número e as quengas passaram: mereço?) -- cobrei 40, ele me deu uma onça pintada, a primeira que pintou em minhas mãos, e não se preocupe com troco.

Excitada com cada um dos três, não importava rosto nem coração. Dar prazer é minha sina moira amarga amara, dar mas também receber. Se sentir prazer com oq trabalha fosse critério pra escolher profissão, a minha já estava escolhida, pois nunca senti mais (quer dizer, na hora nem lembrei das outras), prazer em dar prazer. Essa sou eu, fazer oq?

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A PRIMEIRA VEZ DE INDIANARA

Indianara, a Alves, a Siqueira, a Sophia, a Fênix, em entrevista exclusiva sobre prostituição, PL Gabriela Leite, Desaquenda e vários outros babados! Uma pitadinha aqui doq foi esse encontro maravilhoso em que eu e Jaqueline Furacão (as duas pegas de susto pela vinda surpresa dessa popstar puta política, então sem nenhuma produção cosmética) a entrevistamos, particularmente ela respondendo a como começou na pista:

"-- Eu sempre falava: ser travesti tudo bem, puta jamais. E quando saí de casa, justamente com todas as minhas qualificações profissionais como chef de cozinha, cozinheira, pizzaiola, etc., ninguém me dava trabalho. Então eu teria que sobreviver de alguma maneira, né? E eu dormi na rua, tudo, até ir pra prostituição realmente. Encontrei nas prostitutas justamente uma acolhida, nas travestis prostitutas uma grande acolhida. Mas assim na realidade a minha primeira vez foi super complicada, era muito difícil, algo que eu sempre falo. Então pra mim era como se eu estivesse me violentando, entende?, violentando algo que eu falava que eu nunca ia ser, que era puta. Tudo que falavam de ruim, tudo que falavam das putas... eu nunca ia querer ser vista daquela maneira. Daí, bom, enfim, a minha primeira vez antes de acontecer como prostituta foi muito traumática, mas depois que eu recebi o meu primeiro cachê eu pensei: era todo esse o problema? Então eu vi que, na realidade, eu tinha uma visão da prostituição que me foi imposta, que não era a visão doq eu vi, doq eu convivi com aquelas pessoas. Cada vez que eu me recusava a dizer que eu era prostituta e falava q eu era profissional liberal, ou falava que era autônoma, aí sim eu me sentia uma farsa: eu não estava sendo honesta com pessoas que me acolheram tão bem e com um local que eu já via que não tinha nada demais, que era só sexo pago. Como eu falo, todo mundo faz sexo -- só as pessoas assexuadas é que não fazem, ou as pessoas que não fazem por opção. Mas todo mundo que faz faz ou de graça ou pago. Qual a diferença? Eu sou muito viciosa. Se eu transar com dez homens de graça, então a sociedade não vai ver problema algum nisso, mas se eu começar a cobrar, já tem um problema. Então o problema é cobrar, é uma questão mais moral sobre a prostituição. Então dps que vc consegue passar por essas questões e consegue ver que na realidade é só sexo pago, vc vai em frente. Depois de um tempo vc aceita realmente como teu trabalho. Eu aceitei como meu trabalho porque eu via que eu podia estar transando de graça com vários homens, mas eu podia estar transando 'de graça' com vários homens e ganhando pra isso. Então ainda tinha uma vantagem, porque quando vc sai gratuitamente com alguém, também não é garantia de gozo: vc está saindo pela primeira vez com uma pessoa, vc não sabe como vai ser... a pessoa pode até te atrair fisicamente, mas vc não sabe se realmente vai ser prazeroso a ponto de chegar a um orgasmo ou gozo, algo assim, né? Na prostituição, a vantagem é que se eu não chegar a gozar, a ter esse prazer, ao menos eu vou ter o prazer do dinheiro que vai me dar outros prazeres. Então, dps de um tempo, passou pra mim. Hj eu gosto de me assumir uma puta assessora parlamentar: não que eu seja a melhor assessora parlamentar do Jean, mas pq antes de ser assessora eu sou puta. Levo isso com o maior orgulho hj, sem problema algum. Então a minha primeira vez foi muito difícil mas é como a primeira penetração -- a primeira é difícil, mas dps que tá dentro... ai... ai... aí, tá fácil!"

sexta-feira, 3 de outubro de 2014

FEMINISMO NESCAU RADICAL SETE VITAMINAS

O cisativismo chôco-triangular, vulgo feminismo nescau radical sete vitaminas, por meio da representante número um Lucia Toblerone, deu as caras cedo na minha página e ficou chocado com oq viu. Magoou-as um dia eu ter me sentido mulher fazendo oral em anônimos xis, todos cis, num banheiro público: lugar de mulher não é ajoelhada servindo de objeto sexual pra macho quem quer q seja (ainda q essa mulher xis, no caso trans, sinta enorme prazer em se ver nessa situação). A coisa é toda muito complexa. Pintam o ser mulher como a coisa mais escrota do mundo [objetificada desde o nascimento, sempre oprimida, precisando dum macho-alfa pra proteção, um macho-alfa q igualmente vai só oprimir, abusos-assédios diários na rua, em casa, no trabalho, na escola, medo do estupro, menstruação, gravidez, TPM, proibição do aborto, etc], mas ao mesmo tempo querem essa horrendidade toda só pra elas, cisativistas: não podemos ser mulheres jamais, isso é privilégio de quem traz vagina original de fábrica, ainda que não haja privilégio algum nisso segundo elas dizem. Ao nascer nos taxaram "homens" por conta do pênis que viam (o eterno determinismo gênero=genital), mas não queremos ser homens por não sermos homens -- proibidas de viver a feminilidade, víamos na feminilidade o nosso espaço de libertação. A liberdade das cisativistas feminísticas chôco-triangular está justamente em se livrar dessa feminilidade, por lhes ter sido imposta desde o começo: de um lado não querem pq obrigadas, do outro desejamos pq proibidas -- segundo elas não há espaço pras duas. E eu me deixei ofender e doer pelos cinco minutos delas, fiz posts mimimizentos aqui chorando as pitangas, enumerando as tristezas do ser mulher específico que sou. Por um segundo, um dia pra ser mais precisa, esqueci dos deleites todos que venho vivendo desde que comecei minha transição mas agora liguei o foda-se: a descoberta dos seios crescendo, bumbum se pronunciando, fazer as unhas, batom, roupas de cortes e formatos mais variados, impensados pra um homem com H, ser tratada no feminino no dia-a-dia pelas pessoas que importam e mesmo por aquelas que desconheço mas q cada vez mais vão se dando conta da minha feminilidade (a 'passabilidade trans' chegando!). Oq eu posso dizer é q a página continua. Não vou recuar ou medir termos ao apresentar um relato doq foi a minha descoberta (minha, não de todas as pessoas na minha condição, muito menos de todas as mulheres): propus-me aqui a fazer uma rememoração, via escrita, da minha história como forma de me apaziguar com ela, como forma de me conhecer e aceitar melhor; e ainda que isso possa gerar desconforto em outras pessoas eu continuarei a fazer meu trabalho: o compromisso é comigo, não com vcs. O desconforto q gero deve-se à honestidade do registro, à transparência q tento impor à coisa. Não me peçam para falseá-la, a resposta será não. Esse espaço é meu, e de quem se identifica com o que digo. Passar bem.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

TERFS! TERFS! TERFS!

Hoje acordei surpresa com um boom de visualizações nos meus posts e feliz da vida fui tentar descobrir a razão. Acabou com meu dia. TERFs (feministas transfóbicas, feministas que defendem que mulher é só aquela que veio com buceta de fábrica) descobriram a página, compartilharam um post e se divertiram alucinadamente tirando sarro de coisa pesada. Acima de tudo, as deixou irritadas o fato de eu me sentir mulher fazendo sexo oral num cara xis nos banheiros da vida. Eu não disse em momento algum que isso é ser mulher, que ser mulher é chupar, ser passiva. Eu disse que me senti assim, e contra esse sentimento não há oq eu possa ou pudesse fazer. Preferia não tê-lo sentido, mas foi assim que me fui descobrindo. Ninguém nunca me disse "vc é mulher", como fazem com pessoas que vêm com buceta de fábrica. Elas ouviram tanto isso que mtas vezes nunca nem se perguntaram se isso fazia sentido. Eu nunca ouvi isso; ouvi foi o oposto... e demorei pra me dar conta de que oq eu ouvia não fazia sentido, e mesmo qdo me dei conta de que não fazia sentido ainda me reprimi uns bons anos até ter segurança (psicológica, financeira, amigos que me apoiassem) dq eu estava pronta pra me assumir. Não preciso de atestado de ninguém me dizendo oq sou, não preciso tb de feminismo q condena objetificação da mulher dsd q seja cis (q faz piada com a condição de nós travestis e transexuais), q defende a abolição da prostituição (sem nem ir perguntar pras minas q se prostituem se elas estão de acordo), q acham que sexo é sagrado e não deve virar uma mercadoria sob nenhuma hipótese. Eu nunca defendi objetificação tb. Já vi no metrô em SP, às 05h da manhã voltando pra casa, um estranho colar no meu ouvido e dizer que queria me foder de quatro na cama. Esse foi o 'oi' q ele me deu - e qd eu apertei o passo pra me livrar do animal, ele ainda veio me perseguindo até eu chegar perto dum segurança. Poucas mulheres cis costumam ouvir isso assim, do nada, sem nem terem falado oi pro cidadão. Poucas travestis e mulheres trans não escutaram isso ao longo dos últimos dias. Ninguém ousará tocar em mim sem meu consentimento, mas com meu consentimento vc pode até brincar de me objetificar, e eu vou fingir que só vc tem prazer e q eu estou lá só pra te dar prazer. Objetificação é diferente de fantasiar a objetificação. Qta mulher cis não pede pra ser chamada de puta na cama? A mesma mulher cis tem ojeriza de travestis pq são tudo puta. Não quero guerra nem mal estar com ninguém. Uso essa página como desabafo, pra me desoprimir de um monte de fantasmas que povoam a minha cabeça e q qto mais eu os reprimia mais me faziam mal... botei minha vida em risco diversas vezes por tentá-los manter na caixinha da minha cabeça: hj q tenho uma relação mais tranquila com eles, hj q já não me envergonho do meu passado, posso vomitá-los aqui com um verniz bonitinho de conto literário e aí aprender a me aceitar melhor. Oq sinto, às vezes, é q as pessoas não querem lidar com oq de fato as demais pessoas pensam, preferindo ao invés disso só lidar com o que as pessoas dizem que pensam (algo sempre mais bonitinho e cheiroso).

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

PUTA PUTA

[28/11/2004]: "Orientação sexual variando entre incerta e instável (às vezes as duas ao mesmo tempo); incapaz de amar alguém (e, por conseguinte, conviver junto a este) ao longo de grandes espaços de tempo, acabei sendo obrigado a manter uma alta taxa de rotatividade de parceiros (acho que me daria bem com programas...)."

Diário aberto, viajo 10 anos no tempo. Uma pena eu ter escrito tão pouco... uma horinha e lá já se foram todas as páginas duma história que estava sepultadérrima na memória. Coisas, quase todas, que eu não me lembrava mais e que sinceramente não consigo nem entender como é que eu poderia esquecer caso as tivesse vivido mesmo! Tudo ali já se desenhava meio biografia, meio ficção? Mantive o tratamento no masculino, pq com 19 anos nada era muito óbvio na minha cabeça. Li os relatos picantes das minhas primeiras experiências de banheirão, a linguagem dos olhares que negocia oq vai rolar em seguida. Porque todos que frequentam banheiro público masculino sabem que um homem não olha nos olhos de outro homem, não conversa, não fala oi, não é simpático, a menos que esteja querendo coisa. Eu rapidinho entendi essa língua. Eu queria coisa. Banheiro vazio, só eu e mais ninguém. Vai entrando gente, aos poucos. Demoro lavando a mão, buscando discretamente um olhar que insinuasse querer responder ao meu olhar (todo o cuidado é pouco pra não se deparar com perigo, alguém violento que não está afim de jogar o jogo); aí perceber que o cara está demorando demais no mictório, quanto xixi!, que ele está meio que olhando de canto de olho, procurando o meu canto de olho... aí um dos dois toma iniciativa e olha pro outro, sempre pelo espelho... os dois se olham diretamente e eu que estava lavando ou enxugando a mão, há horas, ou mexendo no cabelo ou escovando os dentes, volto ao mictório 'pra fazer xixi', ao lado dele. Um olha oq o outro tem, toca, brinca rapidinho, se dirigem logo ao box, onde eu já me sento e vou logo abrindo o zíper. Não tem conversa. Não toque no meu genital, quero sentir só o seu: é isso q eu gosto, é isso oq me dá prazer. Goze sem avisar de preferência, q adoro engasgar. Tão excitante, quase nunca acontece. E nem me agradeça no fim. Só feche o zíper e tchau -- deixa eu ficar lá curtindo o momento, o gosto esquisito na boca. Adorava sentir esse prazer insuportável, incontrolável, e ver meu pingulim molinho... meu prazer não estava ali, era todo na minha cabeça. E foi lendo meus diários e poemas que escrevi na época, que eu percebi que já souera desde sempre uma puta. Não das que cobram, pq isso eu ainda não consegui, não consegui que me dessem oq eu valia. Mas sim puta pq sempre fiz muito e fiz com muitos, sempre com gosto. Se transar adoidado, louca da periquita, é ser puta, então eu sempre fui puta. Agora preciso é começar a ganhar por isso, pq com 19 aninhos eu já acreditava que levava jeito.