quarta-feira, 27 de abril de 2016

PROSTITUIÇÃO EM TEMPOS DE FEMINISMO

a) prostituição = estupro, uma vez que o consentimento da profissional é obtido apenas mediante pagamento, crença que acaba por afirmar que toda mulher tem um preço e que, por conta disso, faz-se necessário proibir a simples possibilidade desse serviço existir [perspectiva do feminismo radical]

ou

b) prostituição = trabalho, uma vez que sua prática encapsula um saber sexual, um saber do corpo, do desejo, e que, assim sendo, é justo se cobrar por ele [perspectiva do movimento de prostitutas]

O risco das narrativas únicas. Quem viveu a prostituição vinte, trinta anos atrás, quando o Estado abertamente violentava prostitutas com o aval das leis anti-vadiagem, sabe a diferença que é exercer a atividade hoje em dia e pode imaginar o que será exercê-la daqui a algumas décadas. A sociedade vai mudando, o papel da mulher também, e não há como negar que, à medida que a desigualdade de gênero diminua, os sentidos que orbitam ao redor da palavra prostituição também mudem. Temos uma mulher na presidência da República, cada vez mais vemos mulheres protagonistas dos movimentos sociais, lutando por seus direitos, por melhores condições de trabalho, por melhor remuneração. Mulheres, incluindo aí prostitutas, travestis.

Mas eis um saber sobre o qual não se pode, ou não se deveria, cobrar, não à toa uma profissão eminentemente feminina (mais uma para o rol das ocupações femininas que devem permanecer sem remuneração, como p.ex. a de dona de casa). Prostituição: opção apenas quando não há opções (e, ainda assim, dá-lhe estigma, violência e culpabilização pra cima dessa mulher), daí o horror geral que angariam as figuras que escolhem se prostituir, que gostam disso que fazem. É como se a realidade da prostituição fosse uma única e como se ela só pudesse continuar existindo dessa maneira, na pura precariedade. Falar de prostituição em outros termos que não esse é correr o risco de ser acusada de glamurizar, romantizar a prostituição. Lutar por melhores condições, por melhor remuneração? Não se deve fazer isso, pois pode estimular mais mulheres a recorrerem a esse trabalho, a acreditar que ele faz sentido.

A luta de trabalhadoras e trabalhadores fez com que toda uma gama de profissões conseguisse o direito de ganhar, p.ex., adicional noturno, de periculosidade ou de insalubridade, em nenhum momento esses movimentos propondo, pelos riscos implicados nelas, a extinção dessas profissões. Mas com a prostituição a conversa é outra. Para esse feminismo radical, sexo é coisa tão perigosa, tão violenta, principalmente esse que envolve pênis e penetração, que se faz forçoso lutar para que a incidência da prática diminua e/ou fique restrita apenas a relacionamentos afetivos. É impensável imaginá-lo em termos dum saber, imaginar que temos o direito de aprender esse saber, assim como de cobrar por ele (ainda vão descobrir, aliás, que cresce o número de mulheres que pagam por sexo, mulheres clientes, mas aí duvido que chamem esse serviço de estupro, porque mulheres são sempre vítimas, não importa o que façam).

Quando querem abolir a prostituição, querem ao mesmo tempo nos obrigar a transar de graça, nos obrigar a abrir mão do valor que esse saber assume em nossa sociedade, independente do que esse trabalho signifique para nós. Sexo, por mais incontornável que seja enquanto experiência humana, não é tão facilmente obtível, não aquele que se deseja, e prova disso são os tantos homens casados que nos procuram atrás de realizar suas fantasias inconfessáveis, fio-terra, beijo grego, cintaralho e por aí vai, além dos tantos homens que não teriam acesso a qualquer experiência sexual não fosse por profissionais do sexo. Como diz Georgina Orellano, liderança do movimento argentino de prostitutas, "se não posso cobrar por sexo, essa não é minha revolução". Chega de falarem por nós, chega de decidirem por nós o que devemos ou não fazer dos nossos corpos, com nossos saberes.

segunda-feira, 21 de março de 2016

PROSTITUIÇÃO NOS DEVIDOS TERMOS

Importante sempre colocar o debate sobre a prostituição nos devidos termos, caso o interesse seja mesmo promover entendimento e soluções e não estimular pânico com linguagem sensacionalista.

Falar em "legalização" ao invés de "regulamentação" é, p.ex., ignorar toda uma história de lutas do movimento brasileiro de prostitutas em busca do reconhecimento oficial da categoria, obtido na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) há mais de dez anos. Prostituição, aliás, nunca foi crime no Brasil, nunca, e nos países onde isso se dá, o que acontece é apenas nos vermos obrigadas a trabalhar em condições mais hostis. Se polícia e sociedade seguem nos tratando feito marginais, isso não decorre da ilegalidade da profissão, mas sim do estigma violento que pesa sobre a atividade e das tantas opressões (pobreza, machismo, racismo, transfobia, xenofobia e afins) que nos compelem a exercer a atividade nas piores condições possíveis. Fica, inclusive, a questão se é a prostituição o problema ou se o são essas tantas opressões que condicionam seu exercício.

"Vender o corpo" é outra dessas expressões. Lógico que, numa sociedade profundamente desigual, com todas essas opressões atravessando a vida da maioria das prostitutas, acaba valendo a lógica do "quanto menos o cliente paga, mais se sente dono do nosso corpo", só que, novamente, isso não decorre da prostituição em si, mas sim a precariedade das condições enfrentadas por nós. A pobreza desumaniza, não a prostituição, e quem defende que qualquer prostituição é absurda, mesmo aquela que remunera muitíssimo bem as profissionais ("vender o corpo é um absurdo, não importa o quanto você ganhe por isso"), não entendeu que a prioridade é garantir melhores condições de trabalho e remuneração às que trabalham na precariedade e não nos proibir de exercer a atividade que iremos exercer de qualquer maneira. E o corpo permanece nosso antes, durante e depois do programa, importante dizê-lo sempre.

Outra questão diz respeito ao PL Gabriela Leite, apelidado de PL do Cafetão por quem não quer propor o debate em termos transparentes. O que é a figura desse cafetão mauzão que o PL se proporia a descriminalizar? O serviço sexual vendido pela prostituta não inclui apenas sexo, como costuma-se crer, mas também o uso do espaço onde esse serviço se concretiza. Sendo assim, custos de aluguel, IPTU, manutenção, água, luz, limpeza, troca de roupa de cama e banho, conforto e segurança (imagina quantos trabalhadores não estão envolvidos nisso) estão imbutidos no valor cobrado pela prostituta. Afinal, que prostituta teria condições de exercer a atividade em local próprio? Pouquíssimas, e aí sobra a vulnerabilidade das ruas ou a ilegalidade das casas. Não haveria, com o PL, vínculo trabalhista entre a casa e a profissional aliás, nem carteira assinada, bem como se a casa fosse um simples motel. Essa e só essa é a "cafetinagem" que o PL estaria descriminalizando.

Conseguem imaginar quão mais seguro é trabalhar nessas condições? Trabalhar numa casa que não seja ilegal? O dono não será patrão, mas tão somente o responsável pela estrutura onde se exerce a atividade. O lucro que esse cafetão teria é o lucro que todo motel tem, o lucro que tem todo empresário que oferece, por um valor estipulado xis, o espaço de que é proprietário. Quando se estabelece que o pagamento que a profissional fará por utilizar-se do espaço não pode passar de 50% do quanto ela ganha pelo programa, o propósito disso é coibir abusos. Tem manicure que paga mais do que 50% pro salão onde trabalha. E você, professor, sabe quanto da mensalidade do aluno fica no seu bolso? Acha que é mais de 50%? A prostituta, com esse PL, teria ao menos ciência de o quanto ela é explorada pelo capitalismo, ao contrário da maioria das profissões.

domingo, 14 de fevereiro de 2016

O ESTUPRO NOSSO DE CADA DIA

Vinte nove anos vivendo como homem, mais especificamente o homenzinho padrão, cis, branco, não-afeminado, lido como hétero, classe média, e foi só eu transicionar e passar a ser lida como travesti para viver minha primeira experiência de violência sexual. Eu, que me achava poderosona, em condições de peitar quem quer que fosse por conta da socialização que tive, não dei conta de evitar que o cliente me forçasse a seguir com o programa mesmo depois dele ter me machucado, eu sentindo as dores não só físicas, mas também as de não conseguir dizer não. Sinalizar o sofrimento não foi o bastante para evitar que ele continuasse e, na verdade, me pareceu até que ele se excitou mais em imaginar que, com seu pinto, conseguia machucar uma profissional do sexo.

A facilidade com que ele me machucou e seguia me machucando, sentindo prazer nesse movimento, me fez gelar, mas não só por pensar em mim, na situação que eu vivia ali, e sim por imaginar quão fácil era uma mulher se ver naquela mesma posição, ter que seguir com o sexo mesmo quando o sexo já tinha deixado de ser prazer pra se tornar violência. Pensa-se o estupro como coisa longínqua, o ataque dum estranho numa rua deserta, e com isso não se percebe o quanto ele acompanha o nosso dia a dia, o quanto ele se faz presente mesmo dentro de relacionamentos tido como amorosos.

O que é a primeira relação sexual para uma mulher a quem a experiência da sexualidade foi desde sempre negada, essa mulher que vai descobrir na hora H, nas mãos do marido bruto ou namorado, o que isso significa? No mais das vezes, significa violência, o que é muito conveniente para o sistema patriarcal: o homem, para garantir que seus filhos são seus, precisa controlar com cuidado o corpo da mulher "sua"... e há maneira mais eficaz de controle do que uma experiência traumática, do que conhecer o sexo apenas em termos de violência? Que mulher iria buscar um amante quando o sexo a que tem acesso se resume a isso? Deixa-se o prazer mútuo para ser vivido com a amante, a prostituta, pois a mulher que se preze, a mulher que se dê ao respeito, a mulher propriedade do marido, essa não possui grandes interesses eróticos. Sexo é pra reprodução, lembram? Ideia perfeita pra justificar o controle do corpo e da sexualidade da mulher.

Mas, homens dirão, os tempos são outros, isso era na época de nossas avós, bisavós. Sim, mas a pergunta que minha garganta coça em fazer a esses homens é: você seria capaz de fazer sexo com alguém que não está sentindo prazer e, mais, você seria sequer capaz de se dar conta de que ela não está sentido prazer? Quem penetra não tem como fingir orgasmo, fingir ereção, se não der pra rolar não há como forçar a barra... mas do outro lado a realidade é bem outra e estão aí para prová-lo os números alarmantes de mulheres que, apesar de transarem rotineiramente, têm que sempre fingir orgasmo, mulheres que muitas vezes nem sabem o que orgasmo quer dizer (seguiremos chamando isso de sexo?).

Essa mulher que você diz amar, será que ela tem prazer em transar contigo? O meu medo é descobrir que a resposta a essa pergunta talvez não interesse à maioria dos homens.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

MONOGAMIA E CONTROLE

[Escrevo esse texto a partir das muitas transformações que venho passando desde que eu e minha namorada iniciamos uma relação não-monogâmica. Aprendo muito e diariamente com colocações e críticas dela, assim como com nossa vivência. Por conta de sua postura, me foi possível dar um mergulho profundo em mim mesma e no meu passado: não há como sair igual duma experiência dessas.]
Sempre me achei pronta pro Amor Livre, antes mesmo de saber que isso existia, mas quanto mais o conheço, quanto mais o discuto, mais descubro que eu na verdade sempre estive é pronta pra relações desiguais, eu sendo a parte privilegiada sempre. Ficar com outras pessoas (e por esse "outras pessoas" já se pressupõe a existência dum alguém que não seja esse "outras", dum alguém que fosse "principal", que aliás nada soubesse desse "outras" [sim, relações extraconjugais]) me parecia algo tranquilo, algo que não afetava o vínculo que eu possuía com a pessoa amada, e vou cada vez mais percebendo (e reconhecê-lo é um processo doído) a minha irresponsabilidade para com tudo que não fosse eu nessas todas relações. Na prática, eu acabava usando essas outras pessoas para dar conta de pulsões pontuais minhas, a forma que encontrei de manter de pé a relação oficial, onde residia inteiro o vínculo propriamente afetivo. Não à toa uma ex-namorada, hoje grande amiga, me disse meio na brincadeira, meio a sério, que só saberei mesmo o que é ser mulher quando viver uma relação abusiva com homem (pense-se no peso que é uma ex ter me dito isso, ainda que brincando).
Não à toa também sempre me pareceu mais fácil o relacionamento com pessoas frágeis, de autoestima lá embaixo, e, quanto mais vou me afundando no feminismo, mais a autocrítica que me forço a fazer me faz ver meu papel na manutenção dessas fragilidades e na da dependência emocional que elas propiciam. Minha dificuldade, p.ex., em reconhecer e elogiar a beleza, inteligência e força das tantas mulheres com quem me envolvi, pessoas criadas para não acreditar em si mesmas como forma de serem melhor controladas: uma mulher autossuficiente, empoderada, não acreditaria precisar DESSAS relações abusivas, desiguais, não acreditaria que SÓ esse miserável com quem se relaciona a iria querer, não acreditaria sequer PRECISAR duma relação, qualquer que fosse -- olha o perigo! E embora eu não fosse nenhum prodígio em termos de autoestima (sou aquela pessoa que, numa festa, fica com quem sobrou, que demorou horrores pra saber o que era desejar alguém e ser desejada por esse alguém), sempre me senti bastante segura dentro dessas relações, segurança que vinha, hoje vejo, justamente dessa desigualdade de forças. Super conveniente.
Amor Livre não é sobre ter vários parceiros, como imaginei antes. Às vezes um só basta, nenhum às vezes. Nem sexo é, aliás, necessário. Vínculos que consideramos de amizade podem facilmente, por esse filtro, ser lidos e cultivados como vínculos de amor e isso se percebe bem quando notamos que a monogamia não se preocupa apenas em controlar o número de parceiros sexuais, mas também os vínculos de amizade considerados "perigosos" (a velha história do "não existe amizade entre homem e mulher", p.ex., ou da proibição de contato com ex). Amor Livre é sobre relacionamentos não-desiguais, não pautados no controle do outro, é sobre não hierarquizar relações (o que é particularmente importante para não considerarmos que a relação em que há sexo é dum grau superior àquelas "só" de amizade, o que faz com que via de regra a gente se afaste de amigos quando começamos um namoro e depois voltemos a nos aproximar quando o namoro acaba... perceba o utilitarismo nessas relações!): amor livre é sobre responsabilidade afetiva, e, como bem disse minha namorada, amar não basta.
Ser trans me transformou num alvo prioritário do ódio transfóbico, mas isso por si só não faz de mim uma pessoa vulnerável dentro de relações afetivas. Demorei pra me dar conta disso, pra perceber que não é com um estalar de dedos que deixo de ser o que fui criada pra ser, e creio que só comecei a me enxergar capaz dessa transformação quando me envolvi com uma mulher livre, mas tão livre, que se fortaleceu o bastante para manter intocados os limites da liberdade que construiu pra si. Homens talvez precisassem, antes de querer viver múltiplas relações em simultâneo, aprender a viver uma só relação mas com responsabilidade, dedicação, cuidado, aprender a vivê-la sem basear sua segurança no controle da pessoa com quem se relacionam: se não for assim, não vejo como eles não acabarão se valendo, em algum momento ou mesmo em todos, desses mecanismos que a sociedade patriarcal criou para controlar mulheres, para diminuí-las, servir-se delas.
A mulher livre assusta, intimida, mesmo ao homem mais seguro de si. Termino o texto com um poema, poema dessa pessoa com quem venho aprendendo que Amor Livre é nada mais do que feminismo aplicado às relações afetivas:


28.09.2015
As certezas de minhas escolhas
Assustam as pessoas.
As certezas de minhas escolhas
Me trazem confiança.
As certezas de minhas escolhas
Não são qualquer coisa.
As certezas de minhas escolhas
Me fazem esta persona.
As certezas de minhas escolhas
São minhas escolhas.
As escolhas das minhas certezas
São apenas escolhas.
Sou confiante por um instante.
Terra.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

COM ESSE BATOM NÃO DÁ

Conhecem os buracos da rua todos, cada um deles, dançando com o carro para evitá-los à medida que avançam. Passam pela mesma rua vezes e mais vezes por noite, até se decidir. E é assim, à distância, que você já reconhece um acostumado ao bairro, cliente conhecedor da dinâmica. Gritam "delícia" alguns, meio mecanicamente (quem grita assim grita o mesmo pra todas, nada significa), outros ficam só encarando, a maioria passa sem reação, como se a rua fosse prateleira, como se nós objetos: não há necessidade alguma de, pelo olhar, indicar o que ele achou ou deixou de achar, quanto menos dizer o que quer que seja. E lá vou eu tentando atiçar suas curiosidades, suas vontades, um beijo lascivo aqui, um aceno ali, um "oi", "vem cá". E é isso.

Pois pararam três pra saber o preço, me conhecer melhor, antes do primeiro cliente da noite. Um veio perguntando se eu metia forte, arrombava o edi dele, tadinha de mim... condição zero de garantir ereção, ainda mais quando o cara não coopera (me tratar como gente é fundamental, e não como um pinto sobre pernas). Nada feito. Ele sentiu que não era a minha e eu não desmenti. No sexo prefiro sempre que nada dependa da minha ereção, ou pode ser que não role nada. Os outros foram bem xis, só perguntando quanto, interagindo pouco e "vou dar uma voltinha, qualquer coisa eu volto". Os caras aprenderem a nos tratar como gente e não coisa, qual a dificuldade? Incrível o quanto conseguem abalar sua autoestima mesmo quando você está super bem.

Mas veio o bendito primeiro e acabou que único. Parou a motoca, conversou comigo em cima dela mesmo, eu sedutora, voz sexy, brincando com a mão na sua virilha enquanto jogava o velho blablablá, ele se animando todo. "Quanto é o oral?" Faço vinte pra você, só pra você. "Hmmm... mas onde?" Ah, qualquer lugar... mas se você for tímido tem o estacionamento lá embaixo, mais escurinho, ou o matel. "Vai o estacionamento então, mas e esse batom? A esposa me mata se eu chegar em casa com a cueca suja!" Se tem coisa que me irrita é isso. O cara tem esposa em casa, esperando, a travesti servindo só pra uma rapidinha paga com trocados. Mas tirei o batom mesmo assim, na mão, ele vendo, e lá fomos nós.

Foi de moto na frente, sozinho, mas pagou adiantado pra me convencer que era sério. Eu fui a pé, duas quadras. Quando cheguei, já estava lá. Me explicou que tem uma com quem sempre sai, mulher, não travesti, só que ela não tava na rua, aí ele aproveitou pra uma variada. O papo tava bom, mas tempo é dinheiro e lá vai o zíper, jeans abaixado só até a metade da perna, pra não sujar no chão de terra e camisinha usada. Necão bonito, gorducho, dava até gosto imaginar na boca, mas não, taca-lhe guanto desde o começo, com a boca mesmo, únca forma de pôr quando ainda está murcho. Começa o oral, ele em pé, eu agachada no salto, cãimbras e mais cãimbras, o pau dele no máximo meia-bomba, o meu sem dar sinal de vida.

Uma hora endurece, ele se anima, pergunta quanto a mais pro completo, "mais dez", lá vem dez a mais pro meu bolso. Fico de pé, ufa, gelzinho na neca e no edi, ele se encaixando por trás, me inclinando sobre a moto, começando a forçar a portinha tentando entrar. Nada. Tou meio machucada, a verdade é essa, sem conseguir resolver a questão (ainda escrevo mais a respeito). A coisa é que, de tanto insistir, uma hora a ereção já não tão vigorosa assim foi por terra e não houve cristo que a reerguesse. Ele me pede então pra tirar o guanto e eu bater uma pra ele. Fico meio assim, era a última camisinha que eu tinha (esqueci a bolsa com uma amiga), avisei que não teria mais como penetrar depois, ele ok, só queria gozar com uma punhetinha minha.

Mãos à obra, de cara ele solta o famigerado "faz o que quiser de mim, me toca onde você quiser". Quem me lê, já sabe o que significa, onde ele me quer tocando. Sim, edi, cu, justo onde eu vou chegando ali por baixo, pelo períneo, "faz o que você quiser", meia-bomba virando pedra, "sou todo seu", até que ele goza. Não foi tão rápido assim, no entanto, eu tendo que trocar de mão por cansaço, ele assumindo o trabalho no final, eu só tendo que massagear seu cuzinho. Ele chegou ainda a pedir que eu enfiasse o dedo, mas tá boa que vou pôr meu dedinho lá: contente-se com as beiradas, querido. E vê se paga um drive-in a próxima, porque transar em pé ninguém merece.



terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A PROSTITUIÇÃO E O AMOR LIVRE

Quem me pediu em namoro desde que comecei na prostituição, um ano e pouco atrás? Clientes, inúmeros, a começar do primeiro, e de lá pra cá perdi as contas quantos. Fora eles, ninguém mais o fez, o que é também sintomático, significativo. Mas querer namorar travesti e, ainda por cima, puta... o que esses caras têm na cabeça? Alguns chegam dizendo que querem me tirar "dessa vida", eu exclusiva deles, "te assumo pra família e tudo", "pago suas contas", se excitam com esse discurso de salvação, até que acabam gozando e, daí por diante, esquecem tudo o que prometeram, todo esse amor. Outros já chegam sem essa fantasiice toda, mais pés-no-chão, realistas, oportunistas ouso dizer, "deixo você continuar trabalhando" ("deixo", vejam bem, que bonzinhos!), "quero só seu amor, carinho, quando eu vier te ver" (vulgo "quando estiver com tesão", ele), o velho papinho pra conseguir transa de graça, sem compromisso.

Não é fácil ser travesti em ponto algum, mas talvez ainda mais no amor e ainda ainda mais se você só gostar de homem cis (a heteronormatividade, à sua maneira, também reina entre nós). Por sorte sou bi e, nesse meio tempo, me envolvi com mulheres também, cis e trans, lés e bis, todas da militância ou próximas da militância, pessoas que me levaram muito mais a sério, andaram de mãos dadas comigo, demonstrações sinceras, públicas de afeto, se permitindo o envolvimento para além dos quartos do motel, para além da euforia do sexo. Mas, mesmo para essas mulheres, por mais empoderadas e decididas que fossem, por mais desconstruídas (taí algo fundamental para poder gostar de nós, "desconstruir-se", o que diz muito da nossa condição), eu ser prostituta sempre foi algo que pesou. Algumas não quiseram mais tocar no assunto, parando inclusive de acompanhar meu blog (pelo mal-estar que a partir dali começaram a sentir lendo os relatos), blog que antes admiravam, outras me cobravam de maneira ora sutil, ora mais incisiva, resposta para "por que eu continuo, já que não preciso?", todas por dentro se questionando o quanto dariam conta de se manter nessa relação comigo ou até quando.

Ser travesti já nos torna tabu, daí a maioria ainda encontra na prostituição a única forma de subsistência (e sabemos que seremos consideradas putas mesmo as poucas de nós que escaparem à compulsoriedade do trabalho sexual)... não é fácil querer encarar esse combo ao nosso lado e, mesmo quando se queira, não é fácil ter estrutura emocional pra lidar com tanta pressão. O olhar público, a família, o círculo social, às vezes até o trabalho pode estar em jogo, e só por estarem com a gente! A transfobia nos exclui, a prostituição nos abraça e a putafobia amplifica a exclusão a que já estamos sujeitas meramente por existir. E aí, o que acontece? Lembro de uma travesti com quem namorei uma década atrás, eu nos idos dos meus dezoito anos, no Shopping, a mão dela escapulindo da minha porque estávamos em público, mesmo eu caçando a mão dela. Se preocupava comigo, tinha medo do que podia me acontecer, mesmo eu querendo enfrentar a barra. Hoje sou eu quem me vejo do outro lado, tendo que decidir se deixo ou não a pessoa com quem me relaciono pegar na minha mão em público, me dar carinho, me apresentar pra família. Não há escolhas fáceis nesse meio.

No meio de tudo isso, como ficamos nós, nossos sentimentos? Criadas numa sociedade que prega a monogamia, a conciliação entre amor e sexo, mas, ao mesmo tempo, compulsoriamente lançadas à prostituição mais precária, a do vintão, vários clientes por dia, programas de dez minutos, tempo suficiente pra ouvir declaração de amor e, em seguida, pós gozo, ainda ver a cara de nojo do até então cliente apaixonado, apaixonante. Boa parte delas acaba desenvolvendo aversão a sexo, mesmo com as pessoas de quem gostem, mas ainda assim terão que continuar performando o ato sexual dentro da relação, para não "perder" essa pessoa que teve a coragem de querer, ainda que às ocultas, se relacionar com ela. Díficil lidar com essa montanha russa de sensações, medos, angústias, com essa irresponsabilidade toda para com nosso emocional. Por conta do estigma, nos sujeitamos, jogamos as regras do jogo, fazemos romance pra ganhar um extra, até dormimos de conchinha pagando bem, mas sempre o gosto amargo no final da noite, porque no meio dessa leva de corpos que conhecemos dia após dia a expectativa ainda é a de encontrar o príncipe encantado que nos aceite, nos assuma e, se possível, nos ame. 

Fico me perguntando se haveria amor livre para nós travestis, em especial as 90% que estão no combo "travesti" + "prostituta". Não quero nem de longe chamar essa prostituição que há para nós, precária, de "amor livre", nem esses pedidos todos de namoro de clientes que só se permitem nos amar na cama do motel, chapados de tesão. Longe de mim. Mas penso, isso sim, em construirmos redes de afeto, redes com pessoas que nos tratem como gente, um amor militante, construído, desconstruído, que nos ajude a cultivar o desapego, a combater a ideia de amor como posse, exclusividade, de conciliação entre amor e sexo (imagina a violência disso, ver-se prostituta e ainda assim acreditar que amor e sexo devem andar juntos?), a problematizar essas expectativas românticas que só nos violentam, que só nos deixam reféns nas mãos de gente que não merece nosso amor, nosso tesão, nossas lágrimas. Talvez isso nos fortalecesse para enfrentar os joguinhos a que esses mesmos irresponsáveis nos submetem cotidianamente, já que teremos de enfrentá-los de qualquer forma. Talvez isso nos permitisse mais autonomia para nos impormos melhor numa relação com quem quer que fosse.

Teria o amor livre algo a nos oferecer, nesse sentido?

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

TRAVESTI PUTA ESCRITORA: O COMEÇO

"Destino Amargo", Amara Moira: eis o que és, eis o que significa. Um nome, o meu nome. Mas ninguém o diz. Sonoro, alegre talvez, como a cara que faço ao receber proposta de um completo por vinte, oral por dez ou menos. Atender na rua é isso o que dá, é isso o que escuto. Travesti rondando os trinta mas dizendo vinte, militante LGBT, escritora, doutoranda em teoria literária pela Unicamp nas horas vagas: e puta. "E puta" mas como?! Mas por quê!? Sem "mas". Puta porque puta, puta porque quem sabe um dia. Já viu travesti professora, advogada, cientista, médica, astronauta? Acham que serei a primeira, acham que um canudo de doutora vai me abrir as portas do mundo, pioneira: "venha, Amarinha, trabalhar conosco, te queremos tanto"! E o telemarketing, salão de beleza? Antes puta. Prefiro isso a ouvir desaforo no telefone oito horas por dia ou fazer unha e cabelo de madame com rei na barriga.

Tantos anos retardando a transição, no armário toda toda, temendo até mesmo pôr pra fora a pontinha dos pés. Medo de quê? De tudo. Mas sobretudo de ter que do nada me prostituir, ter que ir da noite pro dia buscar cada centavo do meu sustento na prostituição. E não eram os corpos sem nome, vários, variados, via de regra fora do padrão, em diversos graus de higiene e saúde, o que me assustava. Com esses eu me viro bem, e até prefiro, anônimos, fora do padrão (como eu própria me sentia sempre, ainda mais agora): sexo nunca foi duro, nunca foi foda, mesmo as modalidades mais excêntricas... difícil era transar por amor, amar por prazer. Meu medo era, antes, a violência da exclusão, me ver pária duma hora pra outra, ser tratada feito lixo, perder família, amigos, círculo social, não ter um teto, o direito de continuar estudando, de poder buscar emprego que não fosse esses que não consideram emprego: puta.

Mas lá estou eu, um ano e algo atrás, travesti. Sabe-se lá o que me deu, de onde veio a coragem, uns mesisinhos de hormônio, corpo nem lá nem cá, meio a meio, solidão corroendo por dentro, eu ardendo por um toque íntimo, um "como você tá linda", "você mexe comigo" e nada. Travadérrima, medo de deixar qualquer um se aproximar de mim, mas, quando visitava as amigas na batalha, não tinha jeito, uma chuva de quanto você cobra, quero você, seu corpo, só diga o preço. As mais vividas, na batalha todas, começam a me atiçar pra fazer a rua, ganhar um akué, meu dindim. O convite tinha também um quê de "você não vai ficar só turista, né?", mas isso eu que intuí. Começa a me devorar a ideia do "e se eu fosse?", vontade de peitar o estigma, esse fantasma que me afastou tanto tempo da liberdade que eu hoje vivia. Não, não deixaria mais o medo me privar de descobrir quem eu era, e agora eu estava disposta a pagar o preço da descoberta.

Dois níveis de foda-se, então: não só me fazer puta como também assumi-lo pra quem quer que seja, gritar minha condição, escrever sobre a experiência da rua duma perspectiva literária ao mesmo tempo que feminista, explicitando as violências que vive quem vende o acesso ao próprio corpo (e, coisa que fui descobrindo, quanto menos se cobra, quanto menos se pode cobrar, mais esse cliente se acha dono do nosso corpo, livre pra fazer o que bem entenda -- por isso a importância de nos empoderarmos).

O começo, ah, o começo. Primeiro dia na rua, carros e carros passando, sem coragem de olhar o cliente nos olhos, sem saber como flertar com ele, atiçar seu desejo, fazê-lo pagar pra transar comigo. Penei. Cinco horas de pé no salto, frio que eu não sabia que existia em Campinas, um único interessado parou, nariz sangrando de tanto pó, queria um completo no carro por vinte! Fazia um ano que eu não transava, virgem praticamente, sem traquejo, não sabia por onde começar. "Não, não faço por menos de trinta!" (dez reais, grande diferença). Voltei em brancas nuvens, chorei, achei que não daria conta, que não servia pra puta, ai... mas me dei outra chance e dessa eu conto a próxima vez. Aguardem.

[post encomendado por Lola Benvenutti para seu blog: